Foi durante várias décadas a principal fonte de sustento de muitas das famílias da freguesia do Juncal, mas com o passar dos anos o fabrico de peças em junco foi perdendo a pujança de outrora. A tradição já não é o que era e hoje esta atividade tende a caminhar para a extinção. No entanto, há um projeto que pretende inverter o rumo de desaparecimento desta arte, uma das mais antigas da vila, revitalizando-a. Está a ser desenvolvido pelo Instituto Educativo do Juncal (IEJ), em articulação com o Município de Porto de Mós, e consiste em os alunos aprenderem a trabalhar com o junco. «A única maneira desta arte não se perder é vir às escolas», defende Célia Sousa, a voluntária que aprendeu a tecer há 45 anos e que agora está a ensinar crianças dos 1.º e 2.º ciclos.

A atividade interdisciplinar está a ser dinamizada pelo 5.º A, uma turma de 30 alunos em que 99% são naturais do Juncal e foi precisamente essa «maior afinidade» que levou a escola a implementar este projeto nesta turma. «Têm pessoas na família que sabem, o que leva a que tenham algum entendimento também», considera a diretora de turma, Cristina Almeida. O projeto começou em novembro com uma parte teórica, onde se mostrou todo o processo produtivo, desde a apanha do junco até à conceção do produto final. «Essa primeira abordagem criou logo curiosidade nos miúdos», reconhece a professora, lembrando que o objetivo é «incutir esta arte em sangue novo» para espoletar o interesse nesta atividade.

Após um interregno de vários meses, o projeto foi retomado no passado dia 22, com uma visita dos alunos a Coz, para conhecerem o projeto Coz’Art, onde lhes foi explicado tudo sobre esta arte centenária. Dois dias depois, teve início a parte prática, com os grupos a começarem a trabalhar com o junco, uma atividade que foi acompanhada pel’O Portomosense. À chegada, era quase palpável o entusiasmo e a excitação entre os alunos. «Já posso experimentar?», perguntava um. «A seguir somos nós!», exclamava outro. Com a ajuda e supervisão de Célia Sousa, dois alunos iam executando os seus trabalhos e os restantes iam observando, enquanto aguardavam a sua vez, em redor do tear, emprestado pela Junta de Freguesia. «Quando estamos a começar, utilizamos os “pés” do junco, que são mais grossos, e depois é ir sempre colocando um por cima e outro por baixo. No final dobram-se os cantos com o dedo indicador para encaixar», explicava.

Trabalhar com o junco “é como andar de bicicleta”

Durante o processo de ir entrelaçando o junco pelas linhas do tear nem tudo corre de feição. Sob o olhar atento dos colegas, uma tira de junco vai-se partindo na mão de uma das alunas, contra a vontade de quem o manuseia, e rapidamente um dos mais espevitados reage: «Ó dona Célia, ela está a assassinar o junco!», atira. «Deixa estar, ele não reclama», responde, entre risos.

Em cima de uma pequena elevação – que permite que os alunos estejam ao nível do tear – Matilde vai agarrando no junco e fá-lo passar pelas várias linhas com uma destreza que até impressionou a professora. «Ela tem muito jeito, já ensina os colegas», refere. Esta é uma arte que lhe está no sangue. Uma habilidade que, aliás, se nota na forma como mexe no junco e na sua capacidade de aprendizagem. Em oposição, Gustavo é dos poucos alunos que não nasceu no Juncal. «Estou a achar fixe, é diferente», considera. Enquanto vai adiantando o seu projeto, os colegas ao seu redor vão dando palpites: «Não é assim! Está mal. Tu não sabes fazer», atira uma colega. «Pensa como se fosse Matemática», sugere outro. Depois de tantas opiniões, Gustavo começa a acusar algum desânimo: «Opá não estou a perceber nada disto!». Embora admita que, numa era digital, é difícil cativar os mais jovens para este tipo de trabalhos, Célia Sousa defende que é «como tudo: é preciso treino e interesse». Depois, «é como andar de bicicleta».

Enquanto uns estão no tear, os outros estão numa sala a fazer postais para o Dia da Mãe, aproveitando as pontas de junco que seriam desperdiçadas. A tarde de trabalho só é interrompida pelo toque da campainha que indica a hora do lanche. Automaticamente, o ruído vai aumentando de intensidade. Todas as crianças correm para a rua, à exceção de Nélia, que decide permanecer junto ao tear e continuar o seu trabalho, um dos mais exigentes, dado o número de cores que exige. Filha de pais ucranianos, esta atividade não lhe é familiar mas nem por isso deixa de se mostrar empenhada.

Dentro de dias, todos os trabalhos estarão concluídos. São, na maioria, bases para decoração que poderão ser adornadas com tecido, adianta Célia Sousa, justificando o porquê de não se fazerem as tradicionais ceiras: «Não era exequível, ia exigir outros conhecimentos». No fim será feita uma exposição com todas as peças e há ainda a possibilidade de se elaborar um painel para que tudo fique preservado para a posteridade.

Foto | Jéssica Silva