Há quem vá de carro, outros preferem a mota, há até quem decida ir a pé ou de trotineta, mas André Venda escolheu percorrer os 738 quilómetros da mítica Estrada Nacional 2 (EN 2) em handbike, uma bicicleta onde se pedala com as mãos, adequada a pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, como é o seu caso. Acompanhado por Samuel Custódio, um amigo de longa data, que assim que soube da sua ideia mostrou-se logo disponível para o acompanhar nesta experiência, André Venda saiu de Porto de Mós no dia 4 de setembro rumo ao quilómetro zero, em Chaves. Carregados com mochilas com roupa, material de higiene e material para a bicicleta, os dois aventureiros decidiram, assim, dar início à viagem pela mais longa estrada portuguesa.

A aventura começou, como manda a geografia, em Chaves, no dia 7 de setembro mas foram precisas menos de duas horas até que surgissem as primeiras peripécias. «Percebemos logo que íamos apanhar subidas muito inclinadas e estar ali à morte. A ideia não era essa, também queríamos desfrutar um bocadinho da aventura e pensámos que o melhor seria arranjar um carro de apoio», explica. Conseguiram o carro de apoio, para onde mudaram toda a sua carga e continuaram estrada fora. Chegaram a Faro sete dias depois. Pelo meio, adquiriram uma mão cheia de experiências e aprendizagens que tão cedo não irão esquecer. «Foi a concretização de mais uma aventura para a minha vida, cheia de histórias caricatas. Conheci pessoas divinais, muito humildes e prontas a ajudar», garante, visivelmente satisfeito, não esquecendo, contudo, as dificuldades que encontrou ao longo do percurso. «Houve uma vez que tive de ser puxado pelo carro de apoio mas tirando isso correu tudo muito bem», conta.

Esta foi a segunda vez que André Venda enfrentou o desafio da EN2. A primeira foi há 12 anos, numa altura em que o ciclismo adaptado ainda era «completamente tabu», e embora tenha completado apenas uma parte do percurso, o objetivo que o levou até aí extrapolou tudo o resto. «Fi-lo com o objetivo de divulgar e desmistificar o ciclismo adaptado», afirma. Se nesse tempo a posição em que a handbike permite ir – sentado ou deitado – dava origem a vários comentários irónicos, desta vez tal não se verificou, algo que surpreendeu André Venda: «Há 12 anos ouvíamos montes de “bocas” como, por exemplo, “assim também eu, deitadinho a pedalar…”, “isto já não é como antigamente, agora até deitados vão”. Hoje o discurso é completamente diferente e sempre que alguém passava por nós dizia “força, vais chegar lá”», conta. «Gostei muito de perceber que as pessoas estão mais atualizadas e que já encaram de uma outra forma, mais desprendida e à vontade, sem ser com aquele pensamento do “coitadinho” ou algo do género», considera.

Hotéis com nota positiva em termos de acessibilidade

Ao “bichinho” de querer viver a «aventura completa» da EN2 juntou-se a possibilidade de poder verificar in loco as acessibilidades existentes nos hotéis onde iria pernoitar, no âmbito do projeto de auditoria de acessibilidades que tem vindo a desenvolver: «Queria avançar com alguns grupos hoteleiros mas não me estava a sentir à vontade em fazê-lo sem primeiro experimentar, nomeadamente para ver se existiam falhas». Decidiu então fazer «um dois em um» e da ideia à concretização foi um “piscar de olhos”. «Enviei logo e-mails para departamentos de marketing associados a grupos hoteleiros e a mais algumas empresas para nos patrocinarem. Numa semana já tínhamos tudo pronto para avançar», recorda.

André Venda faz um balanço «muito positivo» da experiência que teve nos seis hotéis por onde passou: «Estamos sempre a dizer que os outros países estão mais bem preparados, mas, muito sinceramente, surpreendeu-me bastante o nível de acessibilidade em alguns hotéis», sublinha. O portomosense tem apenas a apontar «pequenas falhas» que, acredita, podem ser resolvidas «em cinco ou 10 minutos» e dá como exemplo o chuveiro e as toalhas que «não estão à mão de quem está em cadeira de rodas» ou a inclinação do espelho que apenas permite observar a testa e faz ainda um reparo ao layout do quarto: «Eu não conseguia chegar ao roupeiro ou mesmo que conseguisse, depois não conseguia colocar a roupa pendurada no cabide porque estava demasiado alto».

André Venda critica a inação das pessoas que assumem o discurso de que «as coisas têm que ser adaptadas mas acabam por não fazer nada». Por isso, não se limitou a fazer auditoria, quis ir mais longe: assumiu o compromisso, perante os grupos hoteleiros, de ser ele próprio a resolver algumas situações a custo zero. «Já recebi algumas respostas, alguns querem ser mesmo eles a resolver, outros querem que eu tome a iniciativa de tentar deixar lá a minha marca pessoal», revela.