No dia 1 de janeiro de 2022, além de ter começado um novo ano civil, começou também um ano fulcral na candidatura de Leiria a Cidade Europeia da Cultura, ou melhor, como a Rede Cultura 2027 intitula, o ano “CCCapital”, três cês de “Convocar, Candidatar e Curar”. É já no próximo mês que os representantes desta candidatura vão estar perante o júri e por isso este mês de fevereiro está a ser importante para revelar «o tema e os eixos de programação». Quem o diz é o coordenador desta candidatura, Paulo Lameiro. «Até aqui foi feito um trabalho dirigido à Rede Cultura e ao conjunto de municípios que suportam e promovem esta candidatura, a partir de agora estamos a fazer o lançamento da candidatura propriamente dita, procurando passar para a comunidade aquilo que é o eixo temático da nossa candidatura», explica.

“Curar o Comum” é o lema da candidatura e Paulo Lameiro desvenda como foi construído: «Resultou de pelo menos três anos de trabalho na comunidade, de auscultação dos atores culturais de todo o território» por parte da rede. Numa «segunda fase, a escuta» foi feita pelo grupo de cinco redatoras do Bid Book (o dossiê de candidatura), que foi apresentado em novembro último e que vai ser então defendido nos dias 8, 9 e 10 de março. Há duas palavras-chave nesta lema, “curar” e “comum”. «O comum é entendido de múltiplas formas mas há dois olhares principais, o comum porque acreditamos que a cultura importa a todos, não é uma cultura de elite. Por outro lado, comum no sentido de tudo aquilo que é de todos, não é de ninguém em particular, o espaço público, as infraestruturas culturais e as ideias são de todos efetivamente», esclarece. Quanto à palavra curar tem origem «num território que tem águas de cura, em Monte Real, em Caldas da Rainha, é um território de peregrinação, de acolhimento, de cuidar do outro mas também curar porque nas artes existe a figura do curador, alguém especialista a cuidar das obras de arte». Há também o paralelo com a ideia da própria arte curar: «A arte num processo terapêutico, como diz a expressão “quem canta seus males espanta”».

Perante o júri, cada candidatura pode ter «um máximo de 10 pessoas» que terão 45 minutos para “defender” ideias. «Vamos ser questionados sobre a real capacidade que a rede tem de implementar esta candidatura, se temos know-how, recursos humanos com experiência, vias de transporte para receber as pessoas, alojamento para grandes eventos. Depois haverá um momento em que o júri vai devolver ao grupo perguntas mais concretas mais específicas das dúvidas que teve na leitura do Bid Book». No dia 11 de março é divulgada a decisão de quem passa à próxima fase.

Paulo Lameiro confessa que a “comitiva” está confiante, mas mais do que isso está entusiasmada. «Agora, o entusiasmo é crescente em torno das ideias porque até aqui havia um conceito abstrato da rede, agora começam a conhecer-se os verdadeiros motivos e os programas que corporizam esta vontade», frisa. «As pessoas não têm ideia mas uma programação desta natureza tem que ter parceiros europeus, não vamos fazer programação apenas com os atores do território, foi preciso conquistar grandes instituições europeias, artistas de nome, que fazem parte do nosso programa. Tivemos de lhes falar da história da Criança do Lapedo [uma inspiração desta candidatura]», salienta.

A importância de uma distinção destas

Que benefícios pode trazer para um território esta distinção? Paulo Lameiro considera que são vários. «Este é o maior evento cultural da comunidade europeia», começa por referir. Depois, segue-se um impacto cultural: «Há um reforço não só das verbas, que são muito importantes, mas há uma programação muito articulada e muito mais intensiva e transversal que permanece nessa cidade mesmo quando deixa de ser cidade capital europeia». O coordenador dá o exemplo de duas infraestruturas, símbolos de duas cidades portuguesas mas também do país, que foram construídas aquando da distinção destas cidades como capitais europeia, o Centro Cultural de Belém em Lisboa e a Casa da Música no Porto. Paulo Lameiro reconhece, porém, que as atuais candidaturas não são tão centradas em grandes obras. «Já não se investe tanto em infraestruturas, mas investe-se em práticas, nas pessoas, o que fica não se vê tão facilmente, mas sente-se pela ação cultural». «Depois de uma cidade ter sido Cidade Europeia da Cultura, as pessoas passam a consumir mais cultura, a ler mais, a ouvir mais música, a ver mais dança e teatro, a ter mais curiosidade sobre arte contemporânea», acrescenta ainda.

Há também impactos ao nível «económico e turístico». «Há um mercado novo, outros atores económicos que vêm para o território, há atores económicos do território que se desenvolvem para outras áreas, há muitas pessoas da Europa que visitam, portanto tudo o que é hotelaria, restauração, tudo o que são percursos, a relação com a Natureza, sentem o impacto», conclui.

Os seis eixos de ação da candidatura explicados pelo coordenador:

RECONHECER – «Importa não somente pensar na obra nova ou no projeto novo, mas valorar, dar luz, iluminar o que já é feito no nosso território»;

RELIGAR – «Porque ainda temos uma prática cultural demasiado isolada, quer seja por diferentes atores culturais, quer seja por diferentes áreas culturais, importa que possamos estabelecer mais pontes»;

TECER – «As pontes não podem ser somente estradas que ligam, têm que ser trabalhadas, construídas e processadas. Importa pois que saibamos construir o processo pelo qual nos religamos»;

CUIDAR – «Não é apenas o curar, é a derivação para o cuidar do outro, do Planeta, do tempo, cuidar todas as variáveis que importam para que possamos neste território, nesta comunidade, exercer e praticar a cultura que estamos a construir»;

SUSTENTAR – «A nossa candidatura não coloca o seu foco a construir grandes auditórios ou grandes centros culturais, acreditamos que temos de ser sustentáveis e isso passa por aproveitar infraestruturas que temos, por exemplo, pode ser uma pedreira, estamos a falar num território com tantas feridas abertas na pedra, se calhar temos de saber aproveitar espaços que outros tempos nos obrigaram a abrir»;

IMAGINAR – «Pensar sempre na imaginação, no futuro e o criar sempre. Claro que é importante ter um olhar contemporâneo e ser capaz de o usar e imaginar».

Foto | Inês Neto Silva