Quando em março do ano passado ouvimos “vamos todos ter que ficar em casa”, o choque foi geral. Não sabíamos bem o que nos estava a acontecer, porque era novo, uma realidade desconhecida até então. Agora, o verbo confinar já faz parte do nosso dicionário, quase como respirar. Por parte do Governo, ouvimos frequentemente também o alerta de que estamos a chegar a um ponto em que deixámos de dar dimensão aos números de infetados que todos os dias chegam até nós através da comunicação social. É por isto tudo que fomos tentar perceber, junto de dois portomosenses, cidadãos comuns, se de facto, está ser mais fácil gerir este segundo confinamento.

“Com este confinamento parcial não vamos melhorar”

Francisco Santos, pintor, recua ao primeiro confinamento geral e admite que para as artes plásticas, o impacto acabou por não ser negativo, até pelo contrário. «As pessoas estavam em casa e começaram a ver os trabalhos com mais atenção, através da internet e como tiveram, por exemplo, menos gastos com as férias e outro tipo de coisas, investiram em arte», explica. O artista diz que «praticamente todos os meses» tem vendido trabalhos que lhe «garantem o sustento». Francisco Santos é também professor de arte «há seis anos no Conservatório de Música de Fátima» e essa atividade também não tem estado parada. A única coisa de que abdicou, foi de promover alguns ateliês. Continua a sair de casa para dar asas à imaginação no seu espaço em Porto de Mós. Ainda assim, apesar de ter conseguido continuar com a sua vida, acredita que estamos «pouco preparados» para lidar com um novo confinamento e sobretudo «que esquecemos rápido o passado, prova disso são os números», diz.

«É verdade que já há algum conhecimento de causa, mas de qualquer forma não estamos nem nunca estivemos preparados, continuamos um pouco à nora, nós e a classe política, que não sabe bem o que fazer», sublinha. O pintor discorda também de algumas medidas, nomeadamente o facto das escolas continuarem abertas. «É uma estupidez, são milhares e milhares de alunos, todos os dias na rua, a andarem em transportes públicos, a irem às aulas e depois vão para casa todas as noites, não faz sentido nenhum», afirma o artista, que acredita que as escolas só não fecharam porque «o Governo não tinha condições para pagar aos pais para ficarem a tomar conta dos filhos». Francisco Santos volta a frisar que isto acontece «por falta de preparação a todos os níveis, porque nunca se teve nada assim pela frente, estamos impotentes a tentar arranjar uma solução que ninguém conhece». Na sua opinião este confinamento agora «é parcial e com muitas exceções» e por isso, «não vai ser suficiente» para colmatar o aumento exponencial de casos, tanto no concelho, como no país. Francisco Santos compreende que «as pessoas estejam muito desgastadas», mas frisa «que têm de perceber que têm de fazer este esforço» para mudar o rumo da pandemia. O pintor lembra também que é importante que as pessoas «não fiquem presas à ideia que a vacina vai salvar, porque mesmo com a vacina, a pandemia só deverá normalizar daqui a uns meses», defende.

“Trabalhei o verão todo para agora conseguir aguentar”

Glória Carreira tem um estabelecimento aberto com 21 anos de história, no centro da vila de Porto de Mós. «Foi em choque» que recebeu a notícia pela primeira vez de que teria que fechar o seu negócio e agora, apesar de já ser uma medida esperada, «é igualmente com choque» que encara tudo isto, porque, frisa, «é deste rendimento que vivo, mais nada». Apesar disso, a proprietária admite que desta vez se preparou monetariamente para aguentar este segundo confinamento: «Trabalhei o verão todo, 16 horas por dia, estive quatro meses sem folgas, para agora estar preparada monetariamente, mas mesmo assim vai ser muito difícil», explica. Se não se tivesse preparado «tinha que pedir dinheiro como da primeira vez para ter comer em casa e pagar as contas obrigatórias», frisa. «Agora salvaguardei-me, não fiquei com stock nenhum, vendi tudo o que tinha, trabalhando mais», salienta Glória Carreira. A gerente refere ainda que o facto de não ter atualmente funcionárias e de não ter que pagar renda do espaço, são aspetos fundamentais para “aguentar o barco”: «Não tenho funcionárias, tenho uma que está de baixa há um ano, foi a minha sorte, se não não tinha dinheiro para pagar o lay-off nem a Segurança Social e se tivesse que pagar renda, também já tinha fechado».

A nível físico, Glória Carreira diz-se «esgotada» e confessa que «merece ficar em casa agora, pelo menos, 15 dias ou um mês», porque não tirou qualquer «dia de férias durante todo o verão», mas não mais do que isso: «Torna-se impossível sem apoios do Governo». «Da primeira vez faltaram os apoios. Eu tive que pagar os impostos todos tal e qual, sem estar a faturar nada e não recebi nada por parte do Estado, agora eles dizem que vão dar alguma coisa aos sócios-gerentes como é o meu caso, mas não sei», recorda. A juntar aos meses em que não trabalhou e esteve sem qualquer apoio, o estabelecimento esteve fechado «mais 14 dias» porque Glória Carreira esteve em contacto com uma pessoa infetada, o «que ainda dificultou mais as coisas».

Apesar de reconhecer que financeiramente é muito complicado encerrar o negócio, a verdade é que admite que é necessário para combater a pandemia. «Na minha opinião deviam fechar mesmo tudo durante um mês, porque o vírus tem de parar», frisa. No entanto, Glória Carreira acredita que tem um estabelecimento seguro: «Eu gastei quase 500 euros em preparação para receber as pessoas, tive todos os cuidados».