Sem «nunca pensar muito na idade», António Alves, de 60 anos, saiu de Porto de Mós rumo ao palco do The Voice Portugal com o objetivo de mostrar os seus dotes musicais, no programa que avalia as melhores vozes. Depois de superados os castings pré-programa, o cantor lírico decidiu levar à prova cega uma música de Ruggero Leoncavallo que deixou os jurados impressionados. No momento de escolher o mentor, o concorrente não teve dúvidas: Áurea. A prestação valeu-lhe um passaporte para a fase seguinte, as “batalhas”, emitidas a 1 de novembro. Catarina Archer e António Alves tentaram agradar ao máximo a mentora, que acabou por escolher a professora de canto, deixando o portomosense pelo caminho.

Apesar de confessar que ao longo da vida «sempre gostou de cantarolar», o tenor, também professor da Universidade Sénior, conta que só há 10 anos descobriu o canto lírico e começou a ter aulas de canto. «A música nunca me largou», atira. Apesar da sua participação no programa ter chegado ao fim, António Alves, conhecido por ser um homem dos “sete ofícios”, não quis abandonar o programa sem deixar uma mensagem de incentivo à sua geração que tende a acreditar que, devido à idade, já não há espaço para a concretização de sonhos. «Há pessoas dessa geração que estão cheias de vitalidade. No entanto muitas não sabem o que fazer com o tempo: se se entretêm ou se fazem alguma coisa que nunca tiveram oportunidade de fazer», destacou.

Segundo o regulamento do concurso, os candidatos podem inscrever-se a partir dos 15 anos, não existindo uma idade limite para participação. Porém, António Alves rapidamente percebeu que «era o mais velho de todos», num universo em que a esmagadora maioria dos participantes tinha entre 20 e 30 anos. Apesar de garantir que sempre se sentiu «muito bem» no programa, o portomosense admite que depois de ver a transmissão das atuações chegou a ponderar se tinha feito a escolha mais acertada: «Reparei que existia um desnível muito grande entre a minha aparência e a do resto do pessoal. Até pensei que tinha sido uma maluqueira. A idade acabou por se impor e ser demasiado evidente».

Esta não foi uma estreia na televisão para António Alves, que desta participação em específico fica com a sensação de dever cumprido: «Não me portei assim tão mal». Admite ter desafinado «um bocadinho», mas culpa os «nervos que também pesam». Olhando para trás, o cantor desabafa que do ponto de vista estratégico, escolher Áurea como mentora poderá ter sido «um erro» e se fosse hoje provavelmente teria tomado uma decisão diferente. «Acho que a Áurea é uma grande artista mas o seu campo de interesses não chega ao lírico. Depois de ver os vídeos, concluí que ela não percebeu muito bem a música que cantei. Se estivesse escolhido o António Zambujo provavelmente ainda lá estaria», constata.