Clementina da Silva Vieira, Tininha como é conhecida, tem patente, até ao dia 15 de outubro, no Museu Municipal a exposição Croché de Visão Tátil. Da mostra constam 21 peças feitas por si, depois de cegar por completo em 2006. Com 90 anos, o croché ainda ocupa os seus dias no lar da Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós, onde vive atualmente.

Quirina Ladeiro é educadora social na instituição e disse a O Portomosense que a ideia da exposição surgiu por sugestão da diretora do Museu, Luísa Machado. «A Tininha ofereceu-lhe um trabalho em renda e ela ficou agradavelmente surpreendida, dada a sua condição física, por ela conseguir fazer aquilo tão bem feito», recorda. De acordo com Quirina Ladeiro, «quem vir uma toalha [ou qualquer outra peça] feita pela Tininha, não vai dizer que ela não vê para fazer o trabalho».

“Para estar ocupada, ponho-me a fazer renda”

Quisemos conhecer Clementina da Silva Vieira. Tininha revelou a O Portomosense como é que o croché entrou na sua vida e como se adaptou a continuar a fazê-lo, mesmo depois de perder a visão.
Por força das circunstâncias impostas pela pandemia e para evitar qualquer risco desnecessário, a entrevista que se segue foi realizada pelo telefone.

Quando é que começou a fazer croché?
Comecei a aprender com uma tia, tinha uns quatro ou cinco anos. Ela trabalhava para fora em costura e bordados. Já se sabe como os garotos são, nunca param, e ela sentava-me num banquinho, e ensinava-me a fazer renda para eu estar quieta.

Fez croché ao longo da vida toda?
Comecei a crescer e a fazer coisitas pequenas. Depois fiz o meu enxoval mais a minha mãe, e houve alturas em que ia fazendo um bocadinho de renda para fora, porque a vida não estava fácil. Fiz sempre vendo pelas revistas, agora é que já não pode ser assim.

Porque em 2006 cegou…
Nesse ano, perdi a visão na totalidade, [já no lar]. Quando vim para aqui, vinha a apalpar mas ainda tinha um bocadinho de vista.

O que fez com que começasse a perder a visão?
Eu tenho miopia desde pequenina, já tinha, com certeza, quando nasci, mas não deram logo por ela. Perceberam, já tinha uns anitos, porque eu deixava cair as coisas e não as apanhava. Fui ao médico e disseram que tinha miopia. Há pessoas em quem a doença estaciona mas a minha esteve sempre a avançar. Fui perdendo a visão, tomava comprimidos e um xarope, que era o que havia na altura. Mais tarde, já mulher [adulta], fui operada e estive cinco anos a ver bem sem óculos, mas depois apanhei uma constipação muito grande e tive que tomar um antibiótico que me estragou tudo outra vez. Daí para a frente, comecei a perder outra vez a visão até cegar.

Quando começou a ter mais dificuldade em ver, como se habituou a fazer croché dessa forma?
Um dia, em casa, já via mal, fui buscar linha e agulha. Estava sem fazer nada e pensei: “Deixa cá ver se eu sou capaz de fazer isto”. Comecei a fazer abertos e fechados que é o que se faz sempre primeiro, e percebi: “Até aqui consigo. Já não consigo é fazer coisas bonitas porque não vejo pelas revistas”. Então comecei a imaginar coisas na minha cabeça, conheço uma cadeira, conheço uma mesa, conheço um jarro, uma garrafa, os garfos, as colheres, e pus-me a tentar fazer essas coisas na renda. E fui fazendo. É assim que tenho feito.

Ainda hoje continua a fazer?
Tal e qual. Estou aqui parada, sentada, converso com os colegas, mas nem sempre estamos a conversar, ouço a televisão mas às vezes também já não tenho paciência, então, para estar ocupada, ponho-me a fazer renda.

Como se sente ao saber que as suas peças estão expostas no Museu Municipal?
Não vaidosa porque não o sou, mas sinto-me feliz. Apesar de não ver, sempre tive utilidade para alguma coisa, é isso que eu penso.