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Aplausos e interrogações chegam à reunião de Câmara após inauguração da Real Factory

21 Junho 2024
Isidro Bento

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Isidro Bento

21 Jun, 2024

Foi sob o aplauso unânime das dezenas de convidados e de quem se quis juntar à festa que a 13 de junho abriu portas no Juncal a Real Factory – Porto de Mós Creative Hub, até agora conhecida como Casa dos Calados. A intervenção no conjunto de imóveis dominado pela antiga casa agrícola revelou-se uma «clara e bastante agradável surpresa», como muitos, nessa tarde, confessaram a O Portomosense.

As obras de reabilitação e o arranjo dos espaços exteriores levadas a cabo segundo um projeto do arquiteto Rafael Calado foram, de facto, muito aplaudidas. Aqui e ali ouvimos críticas à alteração do nome e «à mistura de termos portugueses com ingleses» e e ao facto de «referir Porto de Mós e esquecer o Juncal». Alguns interrogavam-se também se o projeto «não será demasiado arrojado para o nosso meio» mas reparos à parte o que dominou foi o aplauso e o ambiente festivo. Horas depois, em reunião de Câmara e quando nada o fazia prever, gerou-se uma certa crispação. Os discursos ganharam um cunho político inédito até essa hora e por pouco o estado de graça não teve morte súbita e a festa um final menos feliz.

“Parabéns por cumprir o que outros não fizeram”

Olga Silvestre, deputada municipal do PSD, foi a primeira a intervir no período dedicado ao público e começou por dar os parabéns ao presidente da Câmara por ter cumprido «o que há várias dezenas de anos estava por cumprir». «Felicito-o pela coragem e por sonhar e cumprir o que vários presidentes prometeram e nunca cumpriram. Contra alguns mas apoiado por muitos, a Casa dos Calados é hoje um ícone para a freguesia do Juncal e para o concelho, mas esta é a sua marca de água, prometer e cumprir», afirmou.

Joaquim Santiago, filho da terra e também ele deputado municipal (neste caso, do PS) disse tratar-se de «um dia de festa» e dirigindo-se ao presidente da Câmara deu-lhe os parabéns por esta obra, «a sua grande bandeira», não deixando, contudo, de afirmar que «vamos tirar conclusões com o tempo e ver se realmente é o que se fala e o que se diz».

Artur Louceiro, o presidente da Junta do Juncal, enalteceu a inauguração «que é importante para a freguesia e para o concelho» e fez votos para que «como todos pensam e querem» este edifício tenha «um futuro risonho e venha a dar à vila a dinâmica de que neste momento precisa». O autarca aproveitou para lamentar «não estar no protocolo umas pequenas palavras que fossem à Freguesia» na cerimónia de inauguração.

Vítor Raimundo, também ele natural do Juncal, enalteceu a intervenção numa casa que frequentou «quando novo» e onde os pais trabalharam. Antes de dar «os parabéns ao executivo», deixou o desafio para que «o terreno que foi comprado na rua de baixo seja também arranjado porque esta casa vai receber visitantes e atividades e precisa de algum estacionamento».

“Queria deitar abaixo e fazer estacionamento”

Em resposta, o presidente da Câmara, Jorge Vala, depois de agradecer os elogios ouvidos aos munícipes, dirigiu-se a Joaquim Santiago frisando que «há três anos desconfiou do projeto, achou que nunca ia para a frente e até chegou a dizer que bem era deitar-se isto tudo abaixo e fazer um parque de estacionamento». «O facto é que temos aqui a casa reconstruída. É uma realidade suportada em 85% por fundos comunitários e este apoio que não estava inicialmente previsto, só aconteceu porque tornámos a obra realidade e aquilo que tem acontecido, infelizmente para o senhor e outros como o senhor, é que nós estamos a fazer e isso faz a diferença», acrescentou.

Quanto à questão do protocolo referida pelo presidente da Junta, classificou-a como uma «clara minudência» e disse que «até lhe fica mal trazer [para a reunião de Câmara] esta questão porque não é habitual haver intervenções por parte dos presidentes de Junta neste tipo de cerimónia».
No período Antes da Ordem do Dia, Rui Marto (PS) admitiu que gosta sempre de visitar o Juncal mas que nesse dia o gosto era «redobrado». O autarca socialista disse que poderia também «estar aqui a “desenterrar” muitos mortos» mas que o dia era de festa e, por isso, iria cingir os seus comentários ao espaço recuperado. «Certamente que ninguém sai daqui a dizer que o espaço não está bonito e agradável. Muitos de nós faríamos muitas das coisas que aqui estão e não faríamos outras tantas mas isso é próprio e obrigação de quem tem a competência de decidir, portanto, não vem daí qualquer mal ao mundo», reconheceu.

“Definam-se metas, projetos e orçamentos”

Pese embora a avaliação positiva, Rui Marto, considerou que «esta beleza toda, esta organização e espaço são, apenas, um pequeno passo». «Não chegámos a lado nenhum hoje, ao contrário do que muita gente nos quer fazer crer. Demos foi um passo no sentido certo para daqui para a frente nascer um projeto. Recuperar uma obra, qualquer um faz, agora recuperar e dar vida a essa obra é que já não é para todos», sublinhou.

«Estamos todos esperançados que essa seja uma realidade e que daqui a algum tempo se possa reconhecer o bom trabalho que foi feito nesta área. O que se pede é definição de metas, de projetos e de orçamentos e não andarmos aqui sistematicamente a lançar fogos para aqui ou para acolá e dizer que foi um sucesso», defendeu.

Se o pedido for satisfeito, Marto garante que o PS irá apoiar «a disponibilização de uma verba» suficiente para que a Real Factory seja espaço de «dinâmica e de desenvolvimento e ajude o tirar de algum marasmo nesta freguesia e neste concelho». Para o vice-presidente da Câmara, Eduardo Amaral, o dia da inauguração correspondeu a «um momento importante não só para a vila do Juncal mas para todo o concelho porque este é um espaço que certamente irá criar um conjunto de dinâmicas e de oportunidades que há muito ansiávamos e Porto de Mós não tinha», considerou. «Foi um projeto de partilha, de continuidade e certamente no futuro será um projeto de ambição que é isso que queremos para conseguir implementar aquilo a que nos propomos», concluiu.

Com emoção na voz, o vereador juncalense Marco Lopes confessou-se «feliz» e «sem palavras», reconhecendo que «a realização deste projeto é muito importante» para si.

“Alguns têm esperança que corra mal”

Em resposta ao vereador do PS, Jorge Vala disse que «a casa não se constrói a partir do teto mas de baixo e este é um projeto que foi desenvolvido de baixo e que evoluiu a par com o de arquitetura». O responsável autárquico disse que «a pressa é inimiga da qualidade» e que se está a trabalhar, sem pressas, tendo já várias entidades como parceiras, nomeadamente, a Startup Portugal e a Startup Leiria.

Jorge Vala anunciou a assinatura de um protocolo com a Comunidade Intermunicipal para que a empresa de capital de risco Leiria Crescimento possa impulsionar alguns dos empresários que se venham a instalar aqui. A Real Factory é, na sua ótica, «um processo pensado, estruturado e com uma dinâmica diferente» o que, reconhece e aceita, «habitualmente proporciona desconfiança e dúvida». No entanto, o autarca mostra-se convicto de que «dentro de algum tempo essas dúvidas serão dissipadas e a esperança que alguns têm de que corra mal possa ser contrariada com um projeto ambicioso, com futuro e uma realidade diferente não só para a freguesia do Juncal mas também para a região de Leiria».

Fotos | Isidro Bento

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