Arcas congeladoras para não estragar comida, várias triplas a carregar telemóveis e carne assada a sair

12 Fevereiro 2026

Jéssica Moás de Sá

Sábado, 30 de janeiro, dois dias depois da Kristin nos ter deixado sem luz, em muitos casos sem água, sem rede e sem chão, em Mira de Aire já se «sentia fome», dizia-nos Fernando Gomes, vereador socialista do executivo municipal. «Estamos todos a fazer o nosso melhor e temos que ter iniciativa. Percebi que havia muita necessidade, já havia fome, presenciei aqui isso mesmo ontem. Comprei muita comida e nunca pensei que faltasse para hoje e fui comprar mais. As pessoas vinham com fome e perguntavam-me se podiam levar uma bifana para casa para terem para o jantar», testemunhava-nos neste dia. As fichas triplas com telemóveis a carregar faziam um carreiro: «Vi velhinhos a carregar o telemóvel, todos contentes, para poderem ligar para o Algarve, para o estrangeiro, para os filhos, todos felizes por poderem voltar a falar e dizerem como estavam», contou-nos ainda. 

Para Fernando Gomes, neste momento, não fazia sentido «ter um gerador em casa para» conforto próprio «quando o vizinho está sem nada». «Era impossível estar em casa com a minha luz, sabendo que estas pessoas estão a passar mal», frisava. Os geradores “alimentavam” também as várias arcas e frigoríficos que o espaço tinha. «Não são suficientes, mas quando as arcas estão completamente congeladas nós desligamos e passamos para outras, para mantermos os alimentos das pessoas. As pessoas trazem os sacos identificados para quando houver luz novamente poderem vir buscar a comida delas», explicou. O vereador identificou ainda outro dos problemas que se chegou a verificar na freguesia: «Tive conhecimento que ontem havia falta de medicamente precisamente por não haver comunicações e não conseguem pedir o stock necessário».

O vereador disse também acreditar que o executivo municipal, nomeadamente o presidente da Câmara, Jorge Vala, estava a trabalhar para resolver as questões.  «Sem comunicação é difícil conseguir perceber tudo o que está a ser feito, mas acredito que todos estão a fazer o melhor que conseguem. É impossível qualquer vereador ou funcionário camarário, estar acomodado no sofá enquanto isto está a acontecer. É muito trabalho para fazer e é difícil chegar a todo o lado», sublinha. Fernando Gomes disse mesmo «ter visto no terreno os autarcas» a darem o seu melhor.  

Fotos | Jéssica Moás de Sá

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