O estado atual da área da beleza e estética é paralelo ao de muitos outros setores da sociedade, que sofreram os impactos económicos provocados pela pandemia de COVID-19. Os negócios estiveram fechados, o número de clientes nos espaços limitado e estes, sendo serviços que não se incluem nos bens de primeira necessidade, nem sempre são priorizados pelas famílias, é o que explica quem faz parte do setor.

Cabeleireira sentiu quebra de 70%

Há 11 anos que o amor trouxe Tatiana Mendes, natural de Pombal, para o concelho de Porto de Mós, mais precisamente para a localidade do Chão Pardo. Já nessa altura era cabeleireira, mas exercia a profissão em Leiria. «Passados uns anos engravidei e vim para casa porque tive uma gravidez de risco, mas as pessoas da terra sabiam que eu era cabeleireira e às vezes vinham perguntar se eu as desenrascava», conta. Nunca pensou, nem era seu objetivo, abrir um salão no concelho, até por «adorar Leiria» e por ter trabalhado e vivido lá durante muito tempo, mas vida trocou-lhe as voltas: «Foram aparecendo cada vez mais e mais pessoas a pedir-me para lhes arranjar o cabelo e durante um tempo eu continuei a trabalhar em Leiria, até que percebi que tinha muitos clientes interessados cá», recorda a cabeleireira. Foi então que decidiu construir um salão num anexo da sua casa e começar um novo projeto. «Acabei por perceber que era melhor, até porque tinha uma menina pequenina e assim pude criá-la e trabalhar ao mesmo tempo, foi esse também o objetivo», frisa.

A verdade é que as pessoas não deixaram de aparecer e Tatiana tinha já no seu salão vários clientes fiéis. Mas, tal como na primeira parte da história, a vida estava a reservar uma mudança repentina: uma pandemia, que veio trazer consequências bem visíveis. «Notei mesmo muita quebra, por volta de uns 70%», admite. «Os clientes que vinham semanalmente, já não o fazem. Sobretudo nas mulheres notei muita diferença, os homens até acabam por vir de igual forma, porque também só cortam o cabelo. No caso das mulheres, que fazem tratamentos diversificados, é que notei uma mudança drástica. As mulheres que pintavam o cabelo, por exemplo, agora, ou deixaram de pintar ou pintam com tintas mais baratas em casa. Ao salão só vêm mesmo quando já se notam muito as raízes», explica. Tatiana Mendes acredita que o motivo se divide em dois: «O medo do vírus e a falta de dinheiro». «São poucos», mas há clientes que a cabeleireira não vê desde que a pandemia começou.

Como não tem «que pagar renda do espaço», Tatiana Mendes acredita que tem a vida um pouco mais facilitada, embora admita que esta está a ser «uma fase muito difícil» para si e para o setor. «Tenho colegas da área que tiveram de fechar o verão todo porque não estavam a conseguir aguentar», conta. Os últimos dias, ainda assim, têm-se mostrado um pouco mais movimentados: «Noto que isto está a começar a mexer. Pode contribuir a aproximação do Natal, até porque já tenho alguns clientes marcados para esses dias», salienta a cabeleireira que mantém a esperança de que o futuro será mais risonho.

Um duro golpe no crescimento das empresas

Vanessa Frazão e Soraia Freire conheceram-se em 2018 e nesse mesmo ano abriram um salão de beleza juntas, na vila de Porto de Porto de Mós. «Fomos convidadas para ser festeiras na festa das Pedreiras, da nossa freguesia, que atualmente não é a minha, mas nasci e fui criada lá. Éramos festeiras durante um ano inteiro e teríamos que realizar várias festas. Foi assim que conheci a Soraia e percebi que tinha a mesma profissão que eu», conta Vanessa. Já trabalhava na área, em Porto de Mós, e costumava ir ao salão que hoje gere: «A rapariga que estava a ocupar o espaço onde estamos atualmente decidiu deixar a profissão para trabalhar na área para a qual se licenciou e como conhecia o meu trabalho, perguntou-me se não queria ficar com o espaço». Foi neste momento que Vanessa pensou em Soraia. «Durante o ano em que convivemos vi que ela trabalhava de uma forma muito parecida comigo, dei-me bastante bem com ela e foi assim que surgiu a ideia de a convidar a trabalhar comigo», recorda.

O Must – Oficina de Beleza, nome do espaço, tem vários serviços de beleza e estética, entre os quais, manicure, pedicure e unhas de gel, epilações e threading ou depilação a laser. O negócio, ainda relativamente recente, «estava a correr muito bem», inclusive, o objetivo era mesmo contratar mais uma colaboradora porque «já não» era possível «dar resposta à procura» por parte dos clientes. «Nós trabalhamos por marcação e tínhamos sempre a agenda cheia para o mês seguinte», contam. Por isso, é natural, que a chegada da pandemia não tenha sido um momento fácil para as duas profissionais: «Foi um bocado complicado perceber que de um momento para o outro tínhamos que fechar o espaço. Tivemos que contactar os clientes e dizer que íamos fechar por tempo indeterminado, foi muito chato. Houve clientes que já não voltaram quando reabrimos, ou por medo ou por questões financeiras, porque isto acaba por não ser uma prioridade», salientam. Soraia reforça a ideia: «Muitas pessoas não estão certas nos trabalhos, têm medo de ficar desempregadas e isso leva à contenção de custos. Isto não sendo uma coisa prioritária, é a primeira coisa onde cortam».

Há clientes que continuam a ir com alguma frequência, mas optam por fazer menos serviços. «Havia quem fizesse vários serviços, unhas, pés, rosto e de uma vez só faziam tudo e agora optam por fazer apenas um serviço», explicam. «Depende também do trabalho que a pessoa tem. Se tem um trabalho onde o rosto seja o mais visível, o rosto é o mais importante, se trabalharem com as mãos, acabam por continuar a cuidar das mãos. Se calhar as epilações acabam por ficar um bocado para trás, por não ser tão visível», acrescentam.

Não pensam, nem querem pensar, num cenário mais complicado no futuro, mantendo o espírito positivo. «Acho que agora já está a melhorar um bocadinho. Deixámos de ter alguns clientes, mas também há clientes novos que nos vão aparecendo e que vão completando algumas falhas. Está a melhorar aos poucos, agora vai depender de como a pandemia vai evoluir e das restrições impostas», salientam. Vanessa e Soraia dão um exemplo do impacto de algumas regras: «Temos tido algumas desmarcações por causa da limitação de circulação entre concelhos, porque temos muitos clientes de fora do concelho». Mas todos estes entraves não impedem as profissionais de afirmar: «Melhores dias virão».