Quem por estes dias decidir vaguear pela Barrenta, decerto irá dar de caras com alguma das 50 obras de manifestação artística, muitas delas temporárias, espalhadas por vários pontos daquela aldeia serrana e que fizeram mais de dois mil quilómetros até aí chegarem. Vieram da conhecida “cidade das luzes”, Paris, dentro da bagagem de Tiago Martins, o mentor da iniciativa Barrenta, Aldeia Artística – Street Art e também a pessoa que reuniu as obras, oriundas de diferentes países, de forma a evitar deslocações e possíveis propagações do vírus da COVID-19.

Por esta altura, provavelmente, estará a pensar que o jovem de 28 anos está ligado ao mundo das artes mas engana-se. Tiago Martins trabalha no setor do petróleo e do gás na capital francesa e não tem qualquer ligação à street art, a não ser uma enorme paixão como apreciador. «A Barrenta é conhecida pelas concertinas e eu também quero ajudar a minha aldeia. Não sei tocar mas faço o que posso com aquilo que sei», explica. Apesar de nunca ter vivido naquela aldeia, pertencente à União de Freguesias de Alvados e Alcaria, o jovem natural de Paris, assume uma ligação «muito forte» à Barrenta que pode ser justificada com o facto de «quase toda» a sua família aí residir, o que o leva a deslocar-se lá «três a quatros vezes» por ano.

«Durante o Estado de Emergência em Paris, decidi arrumar a casa e encontrei um sticker [autocolante] de uma exposição de street art em que estive», conta. Resolveu então guardá-lo para quando fosse à Barrenta e assim, poder concretizar o seu objetivo de «dar vida à aldeia e facilitar o acesso a obras de forma gratuita». Depois de refletir melhor sobre a ideia que acabara de ter, rapidamente chegou à conclusão que apenas um sticker «não tinha graça nenhuma». A partir daí, contactou artistas que o colocaram em ligação com outros, mas não sem antes falar com alguns habitantes da Barrenta «para avisar o que ia fazer».

Tiago Martins confessa que ficou «admirado e encantado» com a quantidade de «respostas positivas» que recebeu por parte de «mais de 50 artistas de 15 países» de todos os cantos do mundo que disseram “sim” ao seu pedido. «Desde um simples e pequeno autocolante, a um poster maior, colagens, passando pelos azulejos, tecido ou obras mais insólitas, interativas e poéticas», o parisiense recebeu de tudo um pouco. Em meados de agosto foi até à Barrenta e com o apoio da namorada, espalhou cultura pelas ruas da aldeia, numa tarefa que demorou mais tempo do que o inicialmente previsto.

Este projeto artístico não tem para já data de término e a razão principal é que Tiago Martins não conseguiu expor nessa semana tudo o que lhe tinham enviado. «Por causa da pandemia, muitas obras chegaram atrasadas. Fiquei um bocadinho frustrado porque tenho algumas muito bonitas que vêm do outro lado do planeta e que foram feitas de propósito para a Barrenta», assume, adiantando que, agora, «sempre que for a Portugal» o seu objetivo é ter alguma coisa para aí colocar.