O artesanato que há décadas foi sustento de parte significativa das famílias, é, hoje, para muitos, talvez a maioria, um passatempo com o qual conseguem um rendimento extra, ou um complemento à reforma. Mas há também quem faça mesmo do artesanato, profissão, como é o caso de Esperança Vitória e Joaquim Leal.

Com o atelier Victoria Handmade aberto na Corredoura, Esperança Vitória produz com a sua irmã, cestas de junco mas bem diferentes do modelo tradicional. O projeto que tem dado visibilidade a Porto de Mós e viajado mundo fora teve o seu embrião «há, talvez, 40 anos», altura em que a artesã começou a aprender a tecer com seus pais. «Era uma pequena miúda que tinha de subir a um tijolo para chegar ao tear e conseguir fazer os primeiros cantos, as laterais das cestas», conta, revelando que era um trabalho com o qual, na altura, não se identificava. Os motivos são os mesmos pelos quais os mais novos, na sua maioria, não pretendem enveredar nas artes e ofícios tradicionais: «É um trabalho árduo e que exige fisicamente de nós, mas o mais importante é chegar ao fim do mês e ser remunerado pelo que se fez, algo que dificilmente os jovens conseguem hoje com as artes que aprenderam com os pais», explica.

Trabalhar a tempo inteiro nesta arte era coisa que Esperança, quando adolescente, nunca pensou que pudesse vir a acontecer porque nessa altura apenas ajudava no «sustento da família e não havia um vencimento, nem os direitos associados», lembra. Apesar de ter seguido por «outras situações profissionais», a artesã conta que depois do falecimento da sua mãe decidiu que a sua vida precisava de «uma reviravolta».

Com o mote de dar «uma roupagem completamente distinta» às tradicionais cestas de junco, Esperança pensou que poderia vir a «surpreender as pessoas, visto que apenas estavam preparadas para a cesta tradicional, dentro de um contexto rural, como peça de levar o almoço e o lanche para os campos, ou para o piquenique», optando agora por trazer à região a ideia de uma «mala de senhora», com a intenção de «dar uma valorização acrescida» e uma «nova identidade» a uma peça tradicional.

Embora a artesã se depare, ainda nos dias que correm, com indignação de algumas pessoas no que toca ao preço das peças, que podem custar até 350 euros, revela que o seu mercado é «essencialmente português». Vitória reconhece que adquirir um artigo com tal custo «não é para todo o português», mas contrapõe, reiterando que se trata de um «trabalho diferenciado e artesanal, 100% feito à mão e singular».

Qual o segredo do sucesso? «É trabalharmos todos os dias, com muita humildade, transparência e dignidade. Mostrarmos às pessoas o carinho e empenho que temos por cada peça que sai das nossas mãos», sublinha. Estes valores, espera Vitória, mostram a importância de «comprar ao artesão», para que desta forma haja uma «sustentabilidade e continuidade de uma arte». Ainda assim, revela «esperança numa nova geração», que saiba, não apenas como fazer, mas também «saber vender e ter uma estratégia montada para a sobrevivência no agora e no futuro», referindo-se, por exemplo, ao comércio online. Vitória conclui que «o artesão é a primeira pessoa que tem de se valorizar, para depois querer que os outros o valorizem», para que desta forma as pessoas «entendam os valores e dedicação que estão por trás de uma peça feita à mão».

Menos otimista, o oleiro Joaquim Leal, natural da Moitalina, dá-nos um panorama mais “negro” do artesanato em Portugal. «Agora é já tudo mecanizado, há máquinas para fazer todo o tipo de louça. Os jovens já não ligam a nada disto», desabafa, opinando que «seria bom se houvesse pessoal para manter este tipo de tradições», mas que «infelizmente não há».

O profissional de olaria, que, no Chão Pardo, onde vive, fabrica as peças e vende ao público, explica que trabalha neste ofício desde que se lembra, já que aprendeu «com o pai e a avó» e começou a trabalhar «depois de ter saído da escola, que naquele tempo era até à 4.ª classe». Antigamente, refere Joaquim Leal, o artesanato como a olaria «era o sustento de muitas famílias, vivia-se de tudo o que se fazia». Hoje, acrescenta, «está muito complicado, as pessoas não dão valor ao trabalho artesanal», mencionando, como um dos motivos, o facto de ser «trabalhoso e difícil». O artesão portomosense diz ainda que «há muita concorrência do Norte e não deixam aumentar os preços», afirmando mesmo que a trabalhar com artesanato «só se ganha para a sopa e pouco mais». O oleiro afirma também que se «alguém pondera fazer um curso de olaria é para ser apenas um passatempo». «Depois não têm futuro, e com um curso nunca mais se veem a trabalhar na roda como eu trabalho», justifica.

Manusear o barro ou a argila «demora muitos anos para se aprender», garante, acrescentando que «os jovens hoje em dia querem empregos limpos e ganhar bons ordenados». Joaquim Leal diz, ainda, que ser oleiro é «de facto uma profissão bonita, difícil de aprender, mas bela», concluindo que se «houvesse pessoas que dessem valor às artes e ofícios, e os artigos tivessem saída, possivelmente quereriam aprender».