Os cartazes #madeininteligênciaartificial estão a crescer como a terra fértil dá batatas ali entre fevereiro e maio. É vê-los aí a passear pelas “redes” ou afixados, todos muito iguais, todos com a mesma identidade, todos a gritar o mesmo. O flagelo chegou às festas das aldeias. Em pleno “querido mês de agosto”, mês das festas de verão, das quermesses, dos festeiros e juízes, quarentões e cinquentões, jogos tradicionais e missas que honram o padroeiro, mês que celebra aquilo que distingue as terras, mês em que a identidade de cada povo surge à superfície de forma mais marcada, tudo isto vai em precisa contracorrente aos cartazes da chamada escola “vamos à IA que ela faz”.
Temos saudades daqueles cartazes feitos de forma menos artística, misturando cores que qualquer designer diria que não se conjugam, onde o tipo de letra nem se consegue bem ler… mas que foram feitos com um ingrediente fundamental: entrega, amor à terra, disposição de tempo. Não queremos nada muito estilizado, a não ser que feita por especialistas, não queremos figuras desenhadas, nem caras a sair de formas geométricas, queremos voltar a saber apenas a que horas abre o restaurante e o bar. E claro, se há filhoses com café da avó.
Temos saudades, falo no coletivo acreditando que nisto do sentir nunca estamos sozinhos, dos cartazes que são apenas e só daquela festa, daquele evento, daquele padroeiro ou padroeira e daquela comunidade. E o amargo de boca não vem dos cartazes, é mais profundo do que isso, vem de uma ideia que é transversal a tudo: já poucos querem ser exatamente aquilo que são. Hoje todos podemos ser uma caricatura feita pela IA, mimetizada em cada foto de perfil.
Quando umas calças passam a ser moda, as ruas enchem-se delas. Quando os tons neutros nas casas começaram a ser tendência, perdem-se as casas com molduras de fotografias antigas, que em casa dos avós, preenchiam toda uma cómoda. As jarras coloridas, com detalhes pintados à mão, minuciosamente, já não dão cor a um parapeito e uma estante de livros deu lugar a um móvel bem monocórdico bege. E se é válido acharmos a neutralidade bonita, sabemos que ela elimina dos nossos lares aquilo que lhes dá substância – a vida nela vivida, a sua história.
Se fizermos a pergunta a nós mesmos: estaremos a viver a vida desenhada pelas nossas próprias convicções? Ou estaremos nós também a deixar que alguém construa por nós os cartazes da nossa vida?


