Todos os dias temos sido confrontados com imagens que alertam para um “caos” nos hospitais, com filas de ambulâncias à porta e corredores cheios. Estas imagens surgem sobretudo nos hospitais centrais e nas cidades de maior dimensão, mas qual é a situação no Hospital de Santo André, em Leiria? O retrato que se segue é feito por profissionais de saúde que estão a viver esta luta, 24 sobre 24 horas.

Hugo Duarte, natural de Ribeira de Cima, freguesia de Porto de Mós, é enfermeiro precisamente do Serviço de Urgência e apesar de recusar uma imagem tão complicada para Leiria, onde «não existem filas de ambulâncias» reconhece, mesmo assim, muitas dificuldades. O profissional de saúde começa por explicar de que forma está a funcionar o serviço de urgência, dividido, desde dia 3 de janeiro, em duas áreas: a Área Dedicada para Doentes Respiratórios (ADR), onde se incluem doentes COVID-19, e a área dita de “urgência normal”, «para utentes que tenham por exemplo, um problema do foro ortopédico, que tenham tido um AVC». Devido à afluência, a ADR já foi, entretanto, alargada a outro espaço para «conseguir acolher mais doentes», explica o enfermeiro. Este novo espaço é composto «por uma área de enfermaria, uma sala de observação e foi criada outra sala contígua a esta, onde estão os doentes suspeitos de COVID-19 mas que continuam autónomos, não precisam de estar em macas, é como uma sala de espera grande». É nesta última sala que se coloca o primeiro problema porque os doentes respiratórios, com ou sem COVID-19 acabam por estar no mesmo espaço: «Isto tem vindo a escalar brutalmente e o número de utentes que tem entrado é bastante elevado e acumulam-se nesta área. Mas estes são doentes com problemas respiratórios, não podemos dizer que têm COVID-19, porque muitos entram na Urgência ainda sem terem feito teste, têm de ser rastreados e depois é que são encaminhados», salienta o profissional de saúde.

A seguir, vem outro problema, o escoamento dos utentes. «Podemos ter um doente infetado, mas que não tenha necessidade de oxigénio, ser só necessária medicação e podia ser rapidamente escoado para casa, se não estivéssemos a falar da COVID-19. O que acontece é que neste momento há uma grande dificuldade em que as famílias tenham os cuidados necessários e saibam todas as regras a ter com um doente COVID-19 em casa e por isso eles acabam por ficar na Urgência mais tempo, até a família ter a situação resolvida ou encaminhada para uma instituição», alerta Hugo Duarte. Por outro lado, o enfermeiro reforça que está a aumentar exponencialmente o número de «doentes dependentes com grande necessidade de oxigénio», o que tem obrigado a uma «capacidade elástica» por parte do hospital. «Parece que estamos sempre no limite mas vamos conseguindo sempre arranjar mais um espaço», refere, salientando, no entanto, que a falta de camas não é o maior problema: «Neste momento estamos a começar a ter falta de recursos humanos, o hospital tem contratado muitos profissionais, mas estamos a chegar a um limite em que já vamos buscar enfermeiros que acabaram a escola há poucos meses, diretamente para o trabalho». Apesar de afirmar que o hospital ainda tem espaço para admitir os utentes, o enfermeiro explica que «já houve a necessidade de ficar com a maca dos bombeiros retida dentro do hospital onde o doente aguarda».

As equipas de saúde, nomeadamente os enfermeiros do Serviço de Urgência, não estão sempre na ADR, vão rodando, entre si, entre esta área e a urgência que continua a tratar dos casos normais, sobretudo para evitar «a exaustão dos profissionais». Ainda assim, o fluxo de utentes a entrar para esta área dos doentes respiratórios tem obrigado a que os profissionais de saúde prolonguem os seus turnos na ADR.

“As escolhas sempre fizeram parte da medicina moderna”

A médica internista, Ana João, é também uma das profissionais que passou a fazer turnos na ADR. Há sete anos a trabalhar no hospital de Leiria, diz que têm «havido algumas confusões» na informação que por vezes é veiculada nos meios de comunicação, nomeadamente quando questionada se os médicos estão realmente a fazer escolhas relativamente a quais doentes tratar. «As decisões sempre fizeram parte, e essa é, por um lado, a magia do nosso trabalho e por outro lado, o motivo do desgaste das equipas de saúde. Tomar decisões é o que distingue um médico de qualquer outro técnico de saúde», começa por referir Ana João. A médica explica que a terapêutica não pode ser levada ao extremo em todos os doentes: «Nós sabemos que há doentes que simplesmente não vão beneficiar disso. Se pensarmos numa pessoa idosa, que já tem um grau de demência, que já não se apercebe do que se passa à volta, que está desnutrida, esse doente não vai beneficiar de medidas invasivas como entubar e meter sondas, porque o seu corpo já não aguenta. Estas coisas são altamente desconfortáveis e só trazem sofrimento. Estas escolhas sempre se fizeram na história da medicina moderna. Eu acho que se está a confundir bastante a população geral, porque neste momento se nós não investirmos num idoso com estas características já estamos a escolher doentes». A médica garantiu ainda que, até agora, «não deixou de entubar um doente por não haver vaga», embora admita que o hospital está a chegar «ao limite de recursos», com poucas camas nos «cuidados intensivos e intermédios». Ana João frisa também que em Leiria ainda está a ser possível «triar os doentes e alocá-los dentro da urgência para que não fiquem à porta numa situação desumana», admitindo que para isso, por vezes, não se conseguem «as distâncias de segurança ideais», mas é uma questão «de prioridades».

A médica assume que os profissionais de saúde estão «muito desgastados», destacando os enfermeiros da urgência que estão «no cuidado 24 sobre 24 horas». As equipas estão sempre «a ser desfalcadas», porque vão aparecendo alguns casos positivos entre os profissionais e todos os «dias estão a ser abertas camas novas para alocar mais doentes», o que obriga a que façam «mais horas», chegando a fazer 24 seguidas, sublinha. O aspeto psicológico é também afetado e lidar com a morte de uma forma ainda mais presente, não ajuda: «Por mais habituados que estejamos, é sempre difícil conviver com a morte e esta questão de os doentes morrerem sem receberem visitas é uma coisa que nos incomoda a todos. Não há rácio possível, nem sistema de saúde no mundo inteiro que consiga dar os cuidados mais humanizados que os nossos doentes mereciam», conclui a médica.