A Assembleia Municipal de Porto de Mós aprovou por unanimidade, na sua última sessão, uma moção na qual os deputados manifestam a «elevada preocupação com o facto de em pleno século XXI termos munícipes neste concelho que continuam sem um dos cuidados essenciais, o acesso à saúde», o que, no seu entender, configura uma situação de desigualdade.

De acordo com a moção proposta pelos deputados do PSD, os cuidados de saúde, no país, têm evoluído de forma diferente e Porto de Mós é um bom exemplo disso «visto que temos populações com uma boa vigilância do seu estado de saúde e outros sem acompanhamento».

Apesar dos esforços realizados ao longo dos anos por elementos dos diversos órgãos autárquicos «a situação em alguns casos mantém-se na mesma e noutros tem vindo a agravar-se», o que na sua opinião é um «autêntico atentado à igualdade no acesso aos cuidados de saúde». Para os deputados municipais este facto prende-se «com a inexistência de uma reorganização da UCSP de Porto de Mós, passando pelo desenvolvimento de uma USF, indo de encontro ao preconizado pela reforma dos Cuidados de Saúde Primários».

Na moção é recordado que «não temos médico [nem enfermeiro] de família na freguesia de Mira de Aire e na União de Freguesias de Arrimal e Mendiga» deixando, assim, «esta comunidade desprovida de cuidados de saúde». Por isso, embora o governo refira que nenhum cidadão está sem médico de família «sabemos que isso não é verdade, tendo a prova disso no nosso concelho», sublinha-se.

«Mais uma vez vimos a população de zonas com um índice de envelhecimento elevado, com uma grande dispersão a nível territorial, com necessidades de saúde exigentes e expressas a ser das mais afetadas» refere o documento acrescentando que mais do que resposta a situações pontuais, o que se pretende é que «seja encontrada a melhor solução para esta lacuna que afeta gravemente a nossa comunidade e que esta seja tida o mais rapidamente possível». Assim, apesar de manifestarem a sua «mais profunda consternação e repúdio por esta situação», os deputados municipais reafirmam a «disponibilidade para colaborar em tudo» o que esteja ao seu alcance, mas insistem que não vão compactuar com a mesma, até porque «o diagnóstico está mais que delineado (…) por isso, neste momento precisamos de soluções para a resolução do problema, evitando assim que o mesmo se perpetue».

A moção aprovada com o voto favorável das três bancadas vai agora ser remetido à ministra da Saúde e aos deputados da Assembleia da República.

“UCSP não aprecia propriamente as nossas sugestões”

Desde 2010 já passaram por Mira de Aire, seis médicos, sendo que três nem sequer chegaram a ocupar o lugar durante um ano e um quarto que só lá esteve uma semana. A denúncia é do presidente da Junta, Alcides Vieira, que mais uma vez levou o assunto da falta de médicos à Assembleia Municipal (AM).

Mas mais do que preocupado com o histórico desta situação, Alcides Vieira mostrou-se bastante apreensivo com o presente já que Mira de Aire conta «com dois médicos que vão dando o cuidado possível aos seus ficheiros e o apoio diminuto aos utentes do terceiro ficheiro», mas que «irão gozar férias como é normal» e nesse caso, diz o autarca, «vamos ter dois meses ou talvez mais em que um médico vai dar atenção a três ficheiros e é óbvio que não tem capacidade de o fazer e que dará mais atenção ao seu». Além disso, reforçou, «se alguém chegar ao centro de saúde e for aconselhado a deslocar-se a Porto de Mós não há neste momento qualquer tipo de transporte público».
O autarca mirense não escondeu também a revolta pela forma como tem sido feita a gestão dos ficheiros e deu o seu próprio exemplo: «como estou no terceiro sou sempre penalizado, eu e os outros 1500 utentes. Não percebo por que é que os médicos não trocam de ficheiro uns com os outros, afirmou, lamentando estar «há mais de 10 anos sem médico de família ou ir a uma consulta e encontrar lá uma pessoa e seis meses depois, outra».

Outro dos autarcas que anseia por uma resolução é Jorge Paulo Carvalho, da União de Freguesias de Arrimal e Mendiga. Há mais de três meses que a União de Freguesias, com um ficheiro de 1704 utentes, está sem médico e por isso o autarca aproveitou para questionar o presidente da Câmara se já há alguma novidade neste processo uma vez que a coordenadora do ACES Pinhal Litoral lhe terá dito que «não reune com presidentes de Junta, só com presidentes de Câmara.

Para o presidente da Junta do Alqueidão da Serra, Filipe Baptista, «o problema é de falta de recursos, sim, mas também, às vezes, na forma como os mesmos são organizados». «Vejo que em determinadas alturas, com um pouquinho de organização, com os mesmos meios, poderíamos chegar mais longe», disse sublinhando que estamos a cair numa situação em que só tem direito a saúde, quem tem poder financeiro e nós não podemos pactuar com essas coisas».
«No Alqueidão temos um médico mas esteve sempre muito ligado à COVID e passar receituário não é ver nem cuidar da saúde dos doentes. Nós estamos há algum tempo sem médico que nos veja», frisou.

Cristiana Rosário, a quem coube apresentar a moção que mais tarde seria aprovada por todos, disse que os constrangimentos levantados pela questão da COVID-19 só vieram «agravar a desigualdade dos nossos munícipes no acesso à Saúde». Para a deputada do PSD «é surreal que em pleno século XXI existam várias freguesias sem médico», afirmando, ainda, que nesta questão «todos estão do mesmo lado, não há aqui partidos» mas um problema que afeta toda comunidade.

Quem também não poupou nas críticas e nos lamentos foi o presidente da Câmara. Jorge Vala disse que ao longo destes tempos tem tentado várias formas de obter resultados mas que «estes dependem muito de vontades e no que diz respeito à organização de recursos se não houver vontade dos profissionais que localmente coordenam a saúde, dificilmente conseguiremos obter resultados no imediato, até porque a coordenação da UCSP de Porto de Mós não aprecia particularmente as propostas e sugestões que o município vai dando». O autarca referiu que em Arrimal/Mendiga não falta só médico mas também enfermeiro e administrativo e que em Mira de Aire vai ser começada agora uma intervenção de vulto feita a pensar na população e nos profissionais de saúde mas da parte de quem coordena a nível local e regional vão tendo «respostas muito frias, muito pouco sugestivas no que diz respeito ao que é mais importante que é a resolução dos problemas».

Jorge Vala acredita que o problema não se resolve apenas com a abertura de concursos porque nos últimos anos, de facto, houve vários com lugares reservados para Porto de Mós mas depois das pessoas cá estarem, passado pouco tempo vão embora. Olhando para a realidade de várias freguesias o edil diz que a situação é dramática e admite ir subindo na hierarquia até que, finalmente, as respostas que chegam da área da saúde sejam satisfatórias.