Um dos temas marcantes da Assembleia Municipal de Porto de Mós, voltou a ser o estado da Saúde no concelho, nomeadamente, os problemas que continuam a subsistir em termos da prestação de cuidados à população. Filipe Batista, o presidente da Junta do Alqueidão da Serra, mostrou-se revoltado com a situação: «Não somos os culpados mas estamos a ser cúmplices do que está a acontecer. Estamos perante cuidados médicos que não existem, consultas que não existem ou que se fazem por telefone», denunciou dando como exemplo aquilo que se passa na sua freguesia.

«A senhora enfermeira, que obviamente tem de lutar pela vida e pela sua situação profissional, pediu transferência para a USF Novos Horizontes e foi-lhe concedida. Entretanto, enviei mais um e-mail e respondeu-me o novo diretor da UCSP e vejo que este senhor está de mãos atadas também. Ele próprio não sabe como resolver o problema», disse.

Para o autarca já não basta, cada um por si, «enviar e-mails, tirar fotos, tentar reuniões». «Não vamos passar desta situação se não nos juntarmos. Não vale a pena andarmos aqui a puxar cada um para seu lado e se há pessoas que têm alguma facilidade [em chegarem a quem tem poder de decisão] que a coloquem ao serviço de todos», sublinhou referindo que em grande parte das freguesias «estamos muito piores que há 10 ou 20 anos».

Em resposta, o presidente da Câmara, Jorge Vala disse que reuniu com o ACES Pinhal Litoral e que entre outros, apresentou este caso e na sequência disso «a diretora ligou ao médico e a resposta que obteve é que não é verdade, que tanto ele como a extensão de saúde estavam a trabalhar normalmente». Portanto, o ACES deu-se por satisfeito com a resposta e considera que no Alqueidão da Serra está tudo bem, disse o edil, acrescentando ainda que «há aqui qualquer coisa de anormal com o deixar destapada a nível de médico e de enfermeiro uma unidade que já está deficitária em termos de recursos humanos, a troco de se dizer que têm direito à mobilidade».

Poucos e completamente esgotados

O autarca anunciou que vai reunir com o secretário de Estado Adjunto da Saúde para o sensibilizar para a questão da falta de médicos que deixa sistematicamente «dois ficheiros sem médico de família», sendo que muitas das pessoas que pertencem a esses ficheiros «são idosas e com problemas de saúde».

«Não nos conformamos. Para alguns valerá a pena fazer barulho, mas para nós vale a pena tentarmos sensibilizar porque precisamos efetivamente de resposta ao nível de médicos e enfermeiros que não temos e as nossas equipas estão completamente esgotadas», frisou.

Segundo Jorge Vala, uma das razões para esse esgotamento tem a ver com facto de em Porto de Mós haver vacinação contra a COVID-19, seis dias por semana e «estar a receber auto-agendamentos de todos os concelhos do Pinhal Litoral, bem como da Nazaré, Alcobaça e Alcanena, ao contrário do que acontece noutros em que só se está a vacinar duas a três vezes por semana, precisamente porque as equipas estavam muito cansadas». Ora, para o presidente da Câmara, esta situação é «altamente injusta» e daí ter apelado ao ACES para que se encontre uma solução, até porque «estes profissionais além de descanso, vão precisar de gozar férias». Por outro lado, no caso dos funcionários da Câmara destacados para o centro de vacinação, o autarca explica que a substituição não é fácil nem pode ser feita de ânimo leve porque os novos elementos precisam de tempo para entrar na rotina.

Feito o apelo, a resposta do ACES não deixou o autarca mais descansado: «Enquanto durar o processo de vacinação e para permitir o descanso e o gozo das férias aos profissionais, a Consulta Aberta aos sábados, domingos e feriados passa a funcionar apenas das 8 às 14 horas».

“Não partidarizemos a saúde”

Na dupla qualidade de presidente da Assembleia Municipal e profissional de saúde, Clarisse Louro disse estar solidária com Filipe Batista e com os restantes presidentes de Junta. «Iniciámos o mandato com a falta de médicos de família, estamos a terminar e ainda se mantém», afirmou, frisando que «Porto de Mós tem um grave problema no âmbito da Saúde» e que «a organização e a gestão tem de ser feita de uma forma diferente». «É uma coisa que já não vai com reuniões porque uns dizem uma coisa e outros, outra», defendeu.

«A senhora enfermeira saiu porque foi convidada para ir para a USF e vai ganhar muito mais dinheiro e o mesmo aconteceu com o anterior coordenador da USCP. Bem ou mal, o sistema está assim organizado, não o conseguimos mudar. Só se poderá conseguir algo se toda a população se unir e arranjarmos uma estratégia comum porque senão daqui a dois ou três anos continuamos na mesma» disse, lamentando, ainda, que «em Mira de Aire, num dos ficheiros que já estava sem médico, tenha sido tirada também o enfermeiro de família», um «caso único a nível nacional».

Já Olga Silvestre, do PSD, disse que «realmente a saúde tem um grande problema mas o problema tem nome, chama-se governo socialista» e que enquanto este não cumprir a promessa de a cada português um médico de família, isso fica por resolver». Em resposta, David Salgueiro, do PS, acusou-a de «estar a partidarizar o problema da saúde» e desafiou-a, agora «na sua qualidade de deputada à Assembleia da República», a «que canalize todos os esforços para ajudar a resolver o problema como os eleitos do PS o têm feito ao longo dos anos. Fica-lhe muito mal essa postura», sublinhou de forma crítica.

“Se fez tanta pressão como na ALE, estamos mal”

Por sua vez, Mário Cruz, do AJSIM, disse que embora a responsabilidade da Câmara seja «muito mais reduzida que a do poder central» gostava de saber «que pressões foram feitas estes quatro anos» em relação à saúde, e isto porque, afirmou, «se forem as mesmas que a Câmara fez relativamente a um investimento que este executivo considerou absolutamente essencial (a construção da Área de Localização Empresarial), então estamos mal».

Respondendo aos dois deputados, Jorge Vala disse que não se tem poupado a esforços mas que se algumas vezes tem sido bem sucedido, outras nem por isso, daí defender que «neste propósito da saúde temos de estar todos unidos e mesmo assim não somos demais». O autarca devolveu as acusações de se estar a fazer política com a saúde sublinhando que não foi ele, no dia 8 de janeiro, «o pior dia para Porto de Mós» em termos de pandemia, que foi para Lisboa «tirar fotos com o secretário de Estado da Saúde», isto numa alusão a uma reunião realizada nesse dia entre o governante e responsáveis do PS local a propósito do estado da saúde no concelho, e tornada pública nas redes sociais.