As novas tecnologias vieram revolucionar a nossa vida e torná-la mais fácil, mas há exceções. No caso da rede de iluminação pública, os clientes dispõem de uma boa ferramenta para comunicar as avarias, no entanto, a tecnologia só por si não resolve tudo e as queixas são mais que muitas.

Quem quiser reportar a avaria de um candeeiro de iluminação pública ou uma lâmpada fundida na sua rua pode fazê-lo através de uma aplicação informática simples e intuitiva, o sistema permite, inclusive, identificar num mapa o poste em questão. No entanto, feita a “reclamação”, nada garante ao cliente que a resolução seja rápida. Usando uma expressão na moda, pode-se dizer, segundo a experiência dos presidentes de junta do concelho de Porto de Mós que “tem dias”.

A culpa não será da tecnologia disponibilizada pela responsável pela rede, a E-REDES, porque essa funciona, mas do sistema a “jusante”: algo não estará a funcionar bem quando para o mesmo tipo de avaria há situações resolvidas nos 10 dias que a empresa dá como prazo e outras que ao final de semanas ou meses ainda aguardam resolução.

A experiência de Alcides Oliveira, presidente da Junta de Mira de Aire, confirma o cenário traçado e o autarca usa, inclusive, a mesma expressão: «Tem dias. Há dias em que somos logo ouvidos e outros em que temos de insistir meia dúzia de vezes». O porquê disto acontecer não sabe: «Não nos é dada qualquer explicação».

“Particulares são mais ouvidos que as Juntas”

De Mira de Aire para Porto de Mós o cenário pouco ou nada muda, o que leva Manuel Barroso, o presidente da Junta, a defender que «a E-REDES devia estar mais próxima da população e das autarquias». Até agora «as coisas têm sido resolvidas a cerca de 70%, no entanto, há algumas que se arrastam de forma incompreensível, tivemos, por exemplo, um poste derrubado durante quatro meses. Por acaso nunca aconteceu nada mas poderia ter havido problemas graves porque esteve sempre em carga», explica. O autarca e elementos da sua equipa, têm optado nas situações mais urgentes por contactar pessoas do seu conhecimento pessoal que integram as equipas ao serviço da E-REDES mas reconhecem que isso não é solução.

Sandra Martins, da União de Freguesias de Alvados e Alcaria, num sentimento partilhado com outros autarcas, gostava que a empresa interagisse mais e de forma mais célere com as Juntas. Tal como o próprio presidente da Câmara já o sublinhou por diversas vezes, a autarca considera que, «por norma, a E-REDES resolve muito mais depressa uma reclamação feita por uma pessoa a título pessoal, do que se for a Junta ou a Câmara». Sandra Martins lamenta também a falta de disponibilidade para acolher contributos das autarquias, explicando que deu uma volta pela freguesia, apontando todas as avarias e a sua localização. Depois comunicou à E-REDES que tinha esse levantamento feito e, numa das vezes, prontificou-se a acompanhar os técnicos ao próprio local mas foi-lhe sempre dito que a empresa «não funcionava assim e que devia mandar um e-mail». Vencida mas não convencida, lá enviou o e-mail tendo sido depois informada que a situação seria resolvida em 10 dias, o que não aconteceu de nada lhe valendo as reclamações posteriores.

“Cheguei a ter 40 a 50 focos de luz apagados”

Filipe Batista, da Junta do Alqueidão da Serra, diz não saber «o que fazer mais». Já chegou a ter «40 a 50 focos de luz apagados» e disso deu conta, tanto através da aplicação como pelo telefone mas a demora na resolução foi uma constante. No seu entender, isso tem também muito a ver com a empresa subcontratada porque «há freguesias servidas por outras empresas onde as coisas são muito mais rápidas».

Na freguesia da Calvaria de Cima, não há meia centena de luzes apagadas mas 18. O levantamento está feito pelo novo presidente da Junta, Luís Silva, mas o autarca tem pouca esperança na sua plena resolução: «Vêm mudar duas lâmpadas, deixam 10 queimadas, e entretanto fundem-se mais duas», diz em jeito de lamento. O responsável, tal como outros seus colegas, afirma não perceber «o porquê de não se resolver tudo de uma vez» e defende que «deveria haver uma equipa para cada concelho». Assim, frisa, «estamos a pagar e somos mal servidos».

Em Serro Ventoso, Carlos Cordeiro, farto de esperar, não esteve com meias medidas. Tinha «o Chão das Pias com 50% da iluminação pública apagada e outros pontos da freguesia também com alguns problemas», o que o levou a comprar mais de uma dezena de candeeiros fotovoltaicos. Pagou entre 600 a 700 euros por cada um mas considera que resolveu o problema. «Não sei quanto tempo irão durar mas se forem 10 anos será excelente», diz, defendendo que o presente e o futuro passam cada vez mais pelas energias renováveis.

Pedro Pragosa, da Junta das Pedreiras, descreve em poucas palavras a experiência e o sentir dos 10 autarcas: «A E-REDES é eficiente ao nível da comunicação e no registo das avarias mas ineficiente na resolução». Também estreante no cargo, Luís Ferraria, em São Bento, conta que a sua Junta tem tido «uma luta grande mas as coisas estão a ser minimamente resolvidas». Menos críticos, Francisco Baptista, na União de Freguesias de Arrimal e Mendiga, e Artur Louceiro no Juncal, outros dois novos autarcas, confirmam que «há situações que demoram mais algum tempo a ser resolvidas mas para já, as coisas estão a funcionar mais ou menos bem».

Concelho tem boa cobertura de iluminação pública

Se todos os candeeiros estivessem a funcionar, o concelho estaria bem servido em termos de iluminação pública, o problema é que muitos passam demasiado tempo avariados ou com lâmpadas fundidas. Esta a convicção dos presidentes de Junta ouvidos pelo nosso jornal. Demoras à parte há, contudo, situações em que, de facto, é premente o reforço da rede.

Em Mira de Aire, Alcides Oliveira tem duas ruas identificadas, uma é a que liga a zona industrial à vila. «O presidente da Câmara disse-me que já está paga mas a E-REDES nunca mais se decide a pôr as luminárias», diz.

Nas Pedreiras, Pedro Pragosa quer que a freguesia cresça de forma harmoniosa mas essa estratégia estará em causa quando a iluminação pública tarda em chegar a alguns locais onde antes não havia habitação ou que agora são mais frequentados. Nesse sentido, identifica como prioritária a ligação do centro escolar tanto ao Casal da Luísa como ao Casal da Fonte e à Cruz da Légua e Tremoceira. Já para Rua do Barreiro, que conta com sete casas e um cruzamento perigoso, «estão pedidos postes há oito ou nove anos» mas até agora sem resposta.
Filipe Batista, aponta o troço entre a rotunda do Major quase até à Estrada Romana, no Alqueidão da Serra, como um dos que necessita de reforço de iluminação porque «é zona de passagem de peregrinos e escolhida para caminhadas». Outro a necessitar de atenção será o que liga os Casais dos Vales ao Covão de Oles. Ali, «nem sequer há linhas porque em tempos foram furtadas mas ainda no Natal foi lá atropelada uma pessoa».

Em Alvados e Alcaria, a situação que Sandra Martins considera mais urgente é relativa à zona do hotel. Fora do aglomerado urbano, a mais preocupante é a da Estrada do Campo, entre a saída da EN 243 e o interior de Alvados, no entanto, a autarca diz entender que não haja aí iluminação pública tendo em conta que «seria um gasto enorme».

Por São Bento, a luta por uma melhor iluminação pública tem sido grande mas começa a dar os seus frutos de acordo com Luís Ferraria. «Na Pia Carneira, que estava praticamente às escuras, o problema ainda não está resolvido mas já se notam diferenças». Com a mudança dos postes de locais «onde não estão a servir para nada, para outros onde fazem falta», o autarca espera melhorias consideráveis, apontando os Covões Largos como exemplo disso.

Olhando para a freguesia de Porto de Mós, Manuel Barroso encontra «vários pontos onde havia necessidade de colocar mais luzes» mas reconhece que, no conjunto, seriam suficientes se estivessem bem divididos: «Se calhar há zonas que não precisavam porque dificilmente alguém lá circula e outras em que faz falta», refere. O autarca não critica quem antes de si assim o decidiu mas defende que é tempo de se fazer uma reavaliação.

Foto | Isidro Bento