Era um «Portugal a preto e branco», aquele em que se vivia quando a Banda Recreativa Portomosense (BRP) foi fundada. Corria o ano de 1808. Estávamos no terceiro dia de maio quando Porto de Mós viu nascer uma das mais importantes instituições de utilidade pública. Hoje a mais antiga do concelho, no que à Cultura diz respeito. Depois de 214 anos e tantas centenas de episódios da história ultrapassados (com sucesso), a BRP continua «viva e jovem» e tem contribuído para a «divulgação e ensino da música». «Esta é uma instituição que nos une, que leva o nome de Porto de Mós aos locais por onde passa e que faz felizes todos quantos nos ouvem e nos veem», referiu o presidente da BRP, Carlos Pascoal, na gala comemorativa dos 214 anos da instituição, que decorreu no restaurante A Azenha, no Juncal, no passado dia 29 de maio, na qual marcaram presença quase 120 convidados. A cerimónia teve início com um jantar, a que se seguiu a atribuição de cinco lembranças (pins musicais) aos músicos que já estão na Banda há mais de cinco, 10 e 20 anos. Como não podia deixar de ser, os músicos mostraram aquilo que de melhor sabem fazer e tocaram várias músicas.

«Esta é, provavelmente, a instituição que mais identifica o concelho de Porto de Mós e que mais se identifica com o todo do concelho», sublinhou o presidente da Assembleia Geral (AG) da BRP, Júlio Vieira, ao mesmo tempo que imaginava como seria o mundo no ano em que a Banda foi fundada: «Devia ser assim uma coisa a preto e branco, muito pobrezinha, e mesmo assim houve a inteligência e a capacidade para formar uma banda». Com mais de 30 anos de dedicação ao movimento associativo, Júlio Vieira fez uma viagem ao passado e partilhou com todos os convidados a forma como começou a sua ligação à BRP, onde «foi parar por acidente» há quase duas décadas, quando a Banda não participou na procissão do Senhor dos Passos por estar «sem direção», algo inédito. «Foi nessa altura que um grupo de colegas se juntou, com o Carlos Moleano à cabeça, e felizmente a banda pôde continuar o seu caminho», recorda.

Júlio Vieira aproveitou ainda para elogiar o «bom trabalho» desenvolvido pela atual direção – que tomou posse há um ano – sobretudo na resolução de questões que a «todos preocupavam». «Desde logo a questão das famosas quotas, eu já nem me sentia sócio pois já não sabia há quantos anos é que as tinha pago. Paguei uma palete delas mas ainda bem que assim foi, porque agora já me sinto sócio outra vez. Além disso, estávamos com problemas no estatuto de utilidade pública que felizmente já estão resolvidos», referiu. «Enquanto presidente da AG, para mim é um descanso enorme saber que a banda está muito bem entregue», concluiu.

Município quer dar um instrumento musical “por ano”

Entre os convidados da gala estavam os representantes de três freguesias, um dos quais o presidente da Junta de Porto de Mós, Manuel Barroso, que no seu discurso criticou a ausência dos restantes presidentes de Junta. «É pena que não estejam as 10 freguesias, porque eu acho que todas têm um papel muito importante, o papel de participar e de ajudar», considera.

O presidente da Câmara, Jorge Vala, foi outra das figuras que não quis faltar ao jantar comemorativo e revelou que será introduzido no regulamento a «possibilidade de atribuir, com caráter excecional, um instrumento musical por ano». «A BRP é a nossa banda. Queremos ser parte da sua evolução, na juventude, na maturidade e sobretudo para afirmar aquilo que é uma das mais antigas instituições do concelho de Porto de Mós, que nos orgulha muito e que, estou certo, vai evoluir para escola de música», afirmou. E quando essa altura chegar, acredita, terá «a possibilidade de fazer parte do ensino articulado do concelho». «Somos e queremos continuar a ser um parceiro importante da BRP. Temos a obrigação, mas também o gosto imenso de podermos fazer parte desta instituição», garante. O autarca realçou também o papel desempenhado pelo maestro da banda, Bruno Santos, e a sua influência na dedicação dos músicos: «Não é só um maestro, é o maestro. E quando se tem uma pessoa assim numa banda é fácil estes jovens associarem-se a ela e fazerem o espetáculo que ainda hoje aqui ouvimos».

Entre as várias individualidades presentes, estava também a presidente da Assembleia Municipal que enalteceu a importância desta instituição: «A Banda faz parte de nós todos, do nosso sentimento e da nossa identidade». Clarisse Louro não quis deixar de parabenizar os músicos e dirigindo-se diretamente a eles disse: «Vocês são muito bons. São o nosso orgulho, o orgulho de Porto de Mós e adoramos ouvir-vos».

Aos discursos da noite, seguiu-se o cantar dos parabéns à banda e o corte do bolo de aniversário, o último momento da gala.

Foto | Jéssica Silva