Que a Barrenta é tipicamente conhecida como a “aldeia das concertinas” já ninguém tem dúvidas mas desde o ano passado que a pequena aldeia, pertencente à União de Freguesias de Alvados e Alcaria, tem estado nas “bocas do mundo” por outros motivos. Com o surgimento do projeto Aldeia Artística, a Barrenta transformou-se num lugar onde é possível ver, apreciar e contemplar street art (arte urbana). Pinturas, azulejos, pequenos autocolantes, posters e tecidos passaram a embelezar as paredes de casas, muitas delas já corroídas pela passagem do tempo, devolvendo-lhes a vivacidade de outrora.

Foi graças a Tiago Martins, um português nascido em Paris, que aquela aldeia do concelho de Porto de Mós deixou de ter a aparência, tal como a conhecíamos até então. Apesar de nunca ter vivido na Barrenta, guarda daí grandes memórias e desde muito cedo que a sua paixão fê-lo querer despertar a atenção de outras pessoas por esse lugar recôndito, que atualmente é povoado por cerca de 40 pessoas. E por que não provocar essa curiosidade através da arte? Tudo começou em 2020, quando ao arrumar a casa, encontrou um autocolante duma exposição de street art, onde tinha estado há uns anos e foi aí que a ideia de contrastar a realidade da «típica aldeia rural» com a arte da cidade começou a florescer. «Porque é que uma aldeia não pode ter arte urbana também?», questiona. Decidiu, então, arregaçar as mangas, dar asas à imaginação, tornando, assim, a aldeia onde vivem os pais num lugar diferente e inesquecível para quem o conheça. De França trouxe na bagagem mais de 50 obras (muitas delas, temporárias) vindas de todos os cantos do globo. Dessas, apenas 10 subsistiram. «Até estou admirado por terem sobrevivido tantas. Eu já sabia que ia ser assim», reconhece.

“A Barrenta não é uma aldeia como as outras”

Um ano depois, a ideia de que as pessoas conheçam a “sua aldeia” manteve-se, mas, desta vez, o principal impulsionador do projeto decidiu inovar, trazendo quatro artistas (dois de Lisboa, um da Batalha e outro do Porto) até à Barrenta para pintarem diretamente nas paredes. O maior de todos tem quase 10 metros de comprimento e dois de largura e onde está retratada, como não podia deixar de ser, o maior símbolo da aldeia: uma concertina «gigante». Effe, o autor da obra, veio de Lisboa e demorou quase dois dias a concluir a pintura do instrumento musical. «A ideia é mesmo chamar atenção de a Barrenta não ser uma aldeia como as outras e as pessoas terem curiosidade e nunca mais se esquecerem da Barrenta», sublinha. Outro dos murais esteve a cargo de Thiago Goms, um artista brasileiro a viver em Lisboa há vários anos que pintou uma personagem azul deitada. Já Befa, um lusodescendente com raízes em Braga foi o responsável por pintar dois bonecos que estão a tocar concertina e guitarra. No último dia, um artista que faz parte do projeto Aldeia Artística, da aldeia da Torre (Batalha), pintou uma figura muito especial que permitiu criar uma ligação entre as duas povoações. «Eles estão a pintar um rebanho de cabras na aldeia deles e aqui na Barrenta estão duas cabras que “fugiram” desse rebanho», conta Tiago Martins. A pintura do animal foi feita propositamente na parede de uma casa específica. «A filha da senhora, entretanto falecida, ficou muito emocionada porque a mãe tinha muitas cabras», revela.

“O objetivo é que conheçam cada recanto da Barrenta”

Nesta segunda edição da iniciativa e à semelhança do ano passado houve espaço para obras mais pequenas, no entanto, agora, Tiago Martins decidiu ser mais «seletivo». «Pedi aos artistas para fazerem obras personalizadas, que tenham uma ligação direta com a aldeia, para que que não sejam obras um bocadinho esquisitas que nada têm a ver com a Barrenta», explica. Durante dois dias, Tiago e a sua namorada estiveram a colocar nas paredes da aldeia mais de 30 obras, oriundas de países como Alemanha, Rússia, EUA, Canadá, França e Espanha. «Há muita coisa para descobrir, algumas até estão um pouco escondidas. O objetivo é que as pessoas andem às voltas e possam descobrir cada recanto da Barrenta», confessa. Das peças de arte, contam-se algumas feitas em gesso, madeira ou croché, tipos de material que o lusodescendente espera que possam vir a perdurar (ainda) mais no tempo. «Agora as pessoas podem vir no inverno, a chover ou até a nevar que haverá sempre algo para ver», garante.

Embora assuma que há sempre «quem não ligue muito», o lusodescendente acredita que a maioria dos habitantes da aldeia gosta do que vê e que inclusive tem recebido muitas mensagens a parabenizarem-no pela iniciativa. Se o projeto se se mantiver, Tiago Martins promete ter ideias novas, para continuar a suscitar a curiosidade nas pessoas mas admite que daqui em diante irá priorizar a qualidade em prol da quantidade. «Tudo isto envolve muita energia da minha parte, então no futuro irei ter menos obras mas com mais interesse, de maior qualidade», refere.