Não é incomum que, no decorrer do nosso dia-a-dia, ouçamos dizer que os jovens são inconscientes, que não são como os jovens de antigamente, que só pensam em si… No entanto, nesta altura de pandemia, há cada vez mais relatos, nas redes sociais por exemplo, de pessoas mais velhas que se mostram muito resistentes às recomendações para ficar em casa. O Portomosense falou com duas jovens, ambas estudantes, que escolheram ficar em isolamento voluntário para proteger os seus familiares.

Beatriz Carvalho, de 19 anos, estuda História Moderna e Contemporânea, em Lisboa. Depois de saber que não ia ter aulas presenciais, optou por, em conjunto com o irmão – que já trabalha, mas que nesta fase está em casa –, fazer isolamento voluntário, primeiro na capital e depois, regressando a Porto de Mós no dia 17, mas mantendo-se afastada dos seus familiares: «Não queremos arranjar quaisquer complicações, principalmente para os meus avós, mas também para o meu pai que trabalha no atendimento ao público, num café [que entretanto já fechou], nem para a namorada dele que é professora e contacta com alunos», afirma Beatriz Carvalho. Quando saiu de Lisboa, nomeadamente de Algés, o sítio onde mora, diz que achou as pessoas «demasiado normais, a fazer as vidas tranquilamente, a andar nos transportes tal e qual… Era muito raro ver pessoas de máscara», conta. Já na chegada a Porto de Mós, considera que havia «menos pessoas» na rua, «mas ainda assim, eram muitas». Onde notou mais diferença foi no número de estabelecimentos abertos, nomeadamente na Avenida de Santo António.

“Não quero infetar ninguém”

Ana Almeida tem uma realidade semelhante a Beatriz Carvalho, estuda em Lisboa, neste caso Medicina. A portomosense, de 21 anos, começou por regressar a Porto de Mós, no entanto, depois de ser obrigada a ir a Lisboa por causa de uma consulta, decidiu ficar por lá, já que contactou «com algumas pessoas». Em conjunto com o namorado, decidiram tomar outra opção, deslocarem-se ambos para uma casa de férias em Vila Real de Santo António no Algarve. Ana Almeida justifica a escolha da seguinte forma: «Eu moro no centro de Lisboa, se quisesse dar uma volta a pé ou ir a um supermercado, ia contactar com muito mais pessoas do que contacto aqui. Pensámos que seria mais seguro estar cá», adianta. «No Algarve há muito mais gente no verão, agora muita gente não está cá, vêem-se muitos apartamentos fechados, há poucas pessoas na rua… No outro dia, fui andar de bicicleta, havia algumas pessoas a fazer desporto mas ninguém se cruzava, há mesmo muito poucas pessoas na rua», conta.

A jovem revela que ambos os «pais têm mais de 60 anos» e o pai «tem hipertensão arterial, portanto está num grupo de risco pelos dois motivos». «Não quero infetar ninguém se se passar alguma coisa comigo, portanto só regressarei se e quando tiver a certeza de que não tenho nada», sublinha.

Ao contrário de Beatriz Carvalho, Ana Almeida diz que no local onde mora, «ao pé do Campo Mártires da Pátria», uma zona «bastante central» em Lisboa, «via-se pouca gente na rua». Havia «uma fila muito grande no supermercado porque não deixavam entrar as pessoas todas ao mesmo tempo», mas na opinião da jovem portomosense, «as pessoas andavam na rua mais para irem às compras».

Na opinião da estudante de medicina, as pessoas da sua faixa etária «estão a tomar as precauções que devem» e, para si, «o problema são as pessoas que não estão tão a par das notícias ou não frequentam tanto as redes sociais e não percebem o quão alarmante é a situação». «Sei que há muitos idosos que continuam a andar na rua, a fazer a vida deles. Percebo que estar em casa não é fácil para ninguém, mas acho que a minha geração está mais ciente dos riscos que corre e dos riscos que as outras pessoas correm se nós sairmos de casa», termina. Seja qual for a sua situação, faça como estas duas jovens, fique em casa.