Foto: Jéssica Moás de Sá

São de perto e de longe, vão dos 8 aos 80 anos, são amantes de concertina ou nem por isso, são comerciantes, visitantes, tocadores em grupo ou individualmente, são instituições e associações. São diferentes, mas todos cabem no Encontro Nacional de Tocadores de Concertina. A estrela principal é a concertina, mas o encontro não se encerra apenas neste instrumento, vive da envolvência que o Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros permite, vive da gastronomia, vive do comércio e vive sobretudo de uma multiplicidade de pessoas que procuram uma tarde convívio.

O Encontro Nacional de Tocadores de Concertina atingiu no passado dia 28 de setembro a maioridade em termos de anos de existência porque a nível de qualidade, dizem os entendidos, há muito que atingiu esse patamar. São 18 edições que entre si têm vindo a verificar um crescimento em termos do número de pessoas que conseguem envolver anualmente e a edição deste ano não foi exceção. A organização é da responsabilidade do Centro Cultural da Barrenta e o presidente, Ricardo Pereira faz um «balanço muito positivo a todos os níveis» desta edição. Uma das novidades foi a implementação de um contador de carros na entrada da aldeia que tinha como objetivo ter uma noção do número de carros que passaram pelo Encontro. «Foi a nossa primeira experiência com o contador, pode ter uma margem de erro, mas estamos a falar de 3800 carros, se fizermos uma média de três pessoas por carro, considerando que cada autocarro conta como carro único, vamos dar na casa dos 10 mil visitantes», explica Ricardo Pereira. Estes números «dos melhores sempre», aos quais se juntam cerca de «70 a 80 grupos de concertinas» e o feedback de quem por ali passa dá «um orgulho enorme à organização». Apesar da grande afluência «o controlo do estacionamento e do trânsito foi eficaz» devido a uma parceria com os escuteiros. O presidente frisa que há quem «faça 400 quilómetros» para marcar presença no encontro, que o «promovem e que voltam ainda com mais pessoas».

O segredo está, na opinião de Ricardo Pereira, na forma como a organização «consegue acolher todas as pessoas, a dedicação que cria em todos os passos» e também «o cuidado» que é tido na «forma como é servida a comida e é feita a limpeza em todos os espaços». A envolvência «muito agradável a nível paisagístico» é também «uma grande vantagem», refere Ricardo Pereira. O dirigente associativo e também ele tocador de concertina reconhece que hoje este encontro «é uma referência de marca no país» e que há quem «viva e trabalhe o ano todo a sua concertina para se apresentar na Barrenta».

De muitas pessoas vive também a organização, a quem Ricardo Pereira deixa «um agradecimento muito forte». O responsável explica que vai «fazer chegar circulares a todos os grupos de tocadores» e a todos os que colaboraram, «desde alunos, familiares, amigos», que «em 99% dos casos são voluntários», a expressar, precisamente, a gratidão pela presença e pela colaboração.

Música que é remédio

«Entre amigos», é assim que se sentem os tocadores de concertina que marcam presença neste Encontro. Quem o diz é Susana Teixeira, presidente do Rancho Folclórico “Os Minhotos”, de Ribeira da Lage, no concelho de Oeiras, um grupo formado por «pessoas do Minho que quando vieram para Lisboa morar deram continuidade às suas raízes». Foi a primeira vez que marcaram presença na Barrenta, a convite de Ricardo Pereira. «Nós também queríamos fazer um encontro mas é difícil fazer algo assim, porque isto é espetacular», assume Susana Teixeira. Representada esteve também a Escola de Concertinas José Cláudio e Catarina de Brilha, que tem polos em vários locais: Carregado, Torres Vedras, Rio Maior, Sertã e Ansião. Esperámos que uma desgarrada, «numa sombrinha» escolhida propositadamente no meio da rua terminasse, para falar com o presidente da escola, José Cláudio. O tocador explica que este foi dos poucos encontros onde estiveram e onde se tocava na rua, além das apresentações de palco. É precisamente este fator, acredita José Cláudio que permite um «espírito de espontaneidade e criatividade» que não encontra «em muitos outros». «O meio envolvente é cativante e todos são muito divertidos», expressa o presidente da escola.

Ricardo Brito e Bruno Alves têm menos idade que este encontro. Com apenas 17 anos e sem estarem ligados a nenhum grupo atualmente, quiseram estar presentes com as suas concertinas. São amigos e tiveram a família como principal influência para começarem a tocar, mas mantiveram-se porque gostam mesmo da sonoridade do instrumento. Sabem que há ainda muitos jovens que não se identificam com este mundo, no entanto notam que «cada vez mais jovens se ligam a esta tradição e marcam presença nas festas e romarias». «Muito bom» é assim que descrevem o Encontro da Barrenta.

Maria do Céu tem 60 anos, é do norte do país mas vive na Benedita há quase 30 anos e para ela este «é o melhor encontro que há». Mais do que um encontro de concertinas, considera também que é «um encontro de amigos em que há diversão ao máximo» e onde está presente «todos os anos». Eduardo Matias, residente na Corredoura, freguesia de Porto de Mós foi pela primeira vez e apesar de ter sido avisado para a quantidade de pessoas, confessa que nunca pensou «que fosse um evento com esta dimensão». Acredita que esta é uma forma de trazer «muitas pessoas à terra com muita qualidade a nível nacional». Já Ângelo Santos, natural de Ourém e residente em Alcobaça é também na qualidade que se centra. Lembra que há muitos campeões de concertina portugueses e que nem sempre «são valorizados». Ouve música desde pequeno por causa do pai e foi de ouvido que aprendeu a tocar algumas modas. Acredita que hoje, «os jovens tocadores têm mais qualidade» porque aprendem música e não tocam apenas de ouvido. Habitualmente vem à Barrenta com amigos porque é aqui, nas concertinas e na música que encontra o seu «remédio».