Começou por partir vidros na Escola Dr. Manuel de Oliveira Perpétua e acabou a marcar golos em vários campos. Falamos de Hugo Santos, o “Bexiga”, natural do Arrimal, que, agora, aos 40 anos terminou a carreira, numa altura em que era um capitão acarinhado da Mendiga. Esteve à conversa com O Portomosense no Pavilhão Gimnodesportivo da Mendiga e, além do trajeto desportivo, partilhou histórias pessoais. Mas vamos ao início e aos vidros partidos. «Na preparatória tinha a tendência de jogar à bola e parti vários vidros nas janelas», recorda, entre risos. Foi nestes jogos entre miúdos que o amor pela bola começou. “Bexiga” perdeu o pai com apenas um ano e a mãe (que faleceu quando o jogador tinha 23 anos) não tinha possibilidade de pagar os estragos. «Na altura, o presidente do conselho diretivo, via tanto vidro partido e fez-me uma proposta, perguntou-me se não queria ir treinar à Associação Desportiva Portomosense (ADP)», lembra Hugo Santos, que dessa forma fez esquecer os danos que ia fazendo.

O futebol foi, assim, a sua primeira casa. Esteve na ADP até aos 17 anos, quando passou a jogar nos seniores: «Quando subiu à Segunda Divisão B, vieram bons jogadores e apesar do treinador me convocar, deixava-me sempre de fora, era normal, tínhamos um plantel enorme com bastantes craques», conta. Foi neste momento que chegou um convite para jogar no Amiense. «Fui ganhar 350 euros, com 17 anos já é qualquer coisa», lembra. Esteve quatro anos no clube de Amiais de Baixo, onde foi construindo amizades e onde ainda hoje tem muito trabalho (com a sua empresa de jardinagem).

«Entretanto apareceu um homem maluco, que o meu avô conhecia por ser negociante de gado, e que comprou os direitos do Benfica do Ribatejo. Na altura o campeonato distrital de Santarém era muito forte, com ordenados monstruosos e o senhor pensou em juntar uma equipa com jogadores de vários clubes e veio falar comigo», começa por explicar. Hugo Santos foi fazer alguns treinos a clubes desta região e o agente propôs que se tornasse seu jogador. «Andei a pensar o que fazia à minha vida, estava a estudar e fui adiando. Entretanto começa o campeonato, mas tive de ir cumprir os seis meses de tropa. O senhor foi impecável, dava-me 50 euros para vir ao treino, para estar com a equipa mesmo sem jogar», recorda. Quando a tropa terminou, Hugo Santos profissionaliza-se: «Ofereceram-me mil euros por mês para treinar de manhã e à tarde e só fazer aquilo. Foram os seis melhores meses da minha vida, ele tinha uma quinta com piscina, cozinheira, limpeza, só precisávamos de jogar à bola», frisa. No entanto, a experiência foi curta e devido a desavenças com adeptos, o clube acaba.

Torneios “informais” levaram-no à Mendiga

Hugo Santos regressa ao Amiense, mas é também neste momento que começa a ser convencido a juntar-se à Mendiga. O clube «tinha ido para a terceira divisão e eu jogava muito com a malta daqui, nos torneios de verão. Um dia, o patrocinador desses torneios disse que se ganhássemos um em Alcobaça nos pagava uma semana no Algarve e assim foi», recorda. «Foi nessa semana que começaram a dizer-me “tens de ir jogar com a gente”», acrescenta.

O casamento entre Hugo Santos e a Mendiga ainda não tinha chegado: «Ligavam-me todos os dias da ADP, que estava na terceira divisão, já não tinha aqueles craques e pediram-me que os fosse ajudar». “Bexiga” foi, mas pouco tempo depois, o coração falou mais alto. «Tive de vir embora, porque o amor à Mendiga já estava a passar tudo e mais alguma coisa», salienta. Porém ainda lhe faltava uma outra experiência antes de ficar de “pedra e cal” na Mendiga, neste caso o Alqueidão da Serra. «O Amiense era um clube bairrista e tinha curiosidade de perceber como era o Alqueidão, que parecia ser também», explica. Assim que assina, tem uma lesão grave no joelho que o leva a ser operado. Por essa razão, o ainda presidente do Alqueidão da Serra decide não o inscrever para aquela época. «Eu pedi-lhe para não fazer isso, a recuperação correu muito bem e em janeiro (seis meses depois da época começar) já estava a treinar e não podia jogar», recorda. “Bexiga” ficou um ano e meio no clube, mas esta situação acabou por levá-lo de volta à Mendiga. «Vim e nesse ano fomos campeões, subimos à segunda divisão e depois houve outros clubes a convidar-me mas já era difícil tirarem-me daqui», admite.

“A Mendiga é uma das minhas famílias”

Com algumas interrupções, Hugo já tem «por volta de 16 anos» de Mendiga, sete como capitão. Esta é «uma das famílias» que tem e que muito o ajudou a viver de uma forma mais apoiada, tendo em conta as perdas familiares. Considera que o balneário da Mendiga é «brutal»: «Para estar nas distritais é preciso gostar mesmo disto. Todos têm um emprego e depois ainda treinam. É preciso haver um bom grupo e realmente há um grupo espetacular na Mendiga», salienta. Os clubes distritais já conseguiram pagar ordenados «muito altos» e por isso, nos balneários «existiam diferenças entre os jogadores». Na Mendiga, «não há isso, são todos iguais», até porque o clube não tem possibilidade de pagar e por isso, quem está na equipa está «por amor». «É verdade que a Mendiga não paga, mas tem transporte para quem é de longe e é uma maravilha, não precisamos de trazer roupa, temos os nossos cacifos, comida em todos os treinos, depois dos jogos fora vamos sempre jantar, ajudam muito e às vezes há equipas que pagam um certo valor mas depois os jogadores têm de pagar tudo do bolso deles», sublinha.

Para chegar aos 40 anos em forma, aponta dois fatores: o emprego exigente fisicamente e o facto de sempre ter treinado de forma intensa «independentemente se jogava ou não». Chegou a hora de parar e para isso também tem uma boa razão: ter sido pai. «Quando me perguntavam quando ia parar, respondia sempre que era quando tivesse um filho e assim foi», diz. As mazelas com que com ficou da lesão no joelho «facilitaram» o processo: «Desde janeiro que já não treinava, fiz uma ressonância e o médico disse-me que já nem valia a pena operar e chegou a falar-me de uma prótese e eu aí pensei logo em abandonar, tinha a minha filha prestes a nascer».

É precisamente na filha que se quer centrar no futuro: «Já ando no futebol há muito tempo e ganhei muita coisa, mas perdi outras, o tempo para estar descansado com a família, agora quero usufruir da minha filha e da minha mulher, acabar a minha obra [está a remodelar a casa dos pais] para me mudar». Ainda assim, o futuro deverá passar pela Mendiga, não como jogador, mas na equipa técnica. «Já fui aliciado para fazer parte do clube, não será na direção porque a minha ligação tem que ser dentro daquele retângulo [campo]. Não sei se tenho perfil para treinador, mas talvez adjunto», antevê. Independentemente de vir a estar ou não na estrutura técnica, prevê um futuro positivo para o clube, que tem uma direção com «gente nova» e dinâmica, um plantel também ele «com miúdos com muito valor e humildes» a que se juntam «jogadores experientes e ainda com alguns anos pela frente».

“Bexiga” porquê?

Quando numa aula de Educação Física, na Escola Dr. Manuel de Oliveira Perpétua, estava a chover, a professor optou por explicar aos alunos a história do futebol. «Fomos para dentro da sala e a professora contou que as bolas antigamente eram feitas de bexiga de porco», começa por contar. Hugo Santos estranhou: «Professora, eu tenho matança do porco em casa do meu avô e nunca se aproveitou bexiga nenhuma». A informação ficou-lhe na cabeça e usou-a para a tradicional composição que a professora de Português pedia à segunda-feira. «A composição dizia “lá vai a bexiga no ar, passou a bexiga para…”, a palavra mais utilizada do texto era “bexiga”», lembra, entre risos. E assim começou e não deixou de ser chamado “Bexiga”.

Fotos | Jéssica Moás de Sá