Bispo de Leiria-Fátima quer abuso sexual de crianças na ordem do dia

6 Março 2023

Isidro Bento

O bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, admite que o escândalo dos abusos sexuais na Igreja portuguesa possa levar a uma diminuição de peregrinos no Santuário de Fátima, no entanto, considera que «o pior era não fazer nada». Em declarações aos jornalistas, à margem do encontro anual de hoteleiros, o responsável disse não temer essa situação porque «o que interessa é resolver o problema dos abusos».

«Todos crescemos na vida quando procuramos soluções e procurar soluções significa também começar por fazer diagnósticos, por reconhecer aquilo que está mal, por encontrar caminhos e mudar» defendeu afirmando que foi isso que a Igreja fez quando decidiu criar uma comissão independente para o estudo dos abusos sexuais de crianças. «O que me preocupa é que as coisas sejam tratadas como devem ser tratadas e que nos empenhemos, todos, a erradicar este problema que não é só da Igreja mas do país e do mundo» sublinhou.

«Fátima tem como marca Maria que vem falar às crianças. Não digo que eram crianças abusadas mas hoje os pais delas, assim como o meu, se calhar teriam ido parar à cadeia por exploração de trabalho infantil e não iam à escola e Maria disse-lhes: “Vão à escola”. Fátima surge num contexto de guerra e dentro de uma pandemia, é para crianças pobres, é para crianças que não vão à escola, é para crianças em situação frágil», recordou o prelado afirmando, nesse contexto, que o Santuário tem de continuar a guardar um lugar especial na sua atividade mas também no seu discurso para as crianças, especialmente agora que se conhece a dimensão de um problema que «custa, dói e envergonha».

«Mesmo que consigamos erradicar os abusos da Igreja, a nossa missão e preocupação tem de ir mais longe: Fazer com que as crianças em todo o mundo tenham de comer e de vestir, tenham escolas, mas também carinho, cuidado e proteção e isso é bom que Fátima o diga com toda a clareza em nome da Igreja portuguesa e no momento que estamos a viver», frisou.

José Ornelas adiantou que a Conferência Episcopal vai reunir e «à luz dos novos conhecimentos e das indicações e conselhos e propostas que o grupo de peritos fez, ver como pode melhorar o serviço, a atenção e a compreensão deste fenómeno para o evitar o mais possível». No seu entender, isso passa pela «formação e prevenção» com «a preparação de pessoas que sejam capazes de ajudar as nossas crianças a defenderem-se» e também com um «alerta social».

Perante uma Igreja e uma comunidade, «feridas, tristes e revoltadas», José Ornelas espera que «sejam tomadas atitudes que levem à superação dos problemas», lembrando mais uma vez que «os abusos sexuais de crianças não são só um problema da Igreja» e por isso não podem ser resolvidos apenas no seu interior, «é necessário que todos os que têm a ver com crianças, se juntem para que este drama possa ser o mais possível ultrapassado», realçou.

Foto | Isidro Bento

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