Foto: Joaquim Dâmaso

No mundo frenético da sociedade atual e com a presença cada vez mais assídua das novas tecnologias no quotidiano, há quem considere que observar crianças a brincar na rua começa a ser, cada mais, uma miragem. Foi com o objetivo de travar esta tendência e impulsionar novamente a brincadeira das crianças no espaço social que surgiu o projeto Brincar de Rua, pela mão da Ludotempo – Associação de Promoção do Brincar.

A cidade de Leiria foi o local escolhido para desenrolar esta ideia e ir ganhando forma, até finais do ano de 2016, altura em que foi lançado o primeiro projeto-piloto. A atravessar uma fase de expansão, o programa, apesar de ser «tendencialmente nacional», está a intervir em territórios da região Centro e tendo em conta esta política de crescimento, chegou o momento do Brincar de Rua atuar em Porto de Mós.

O Portomosense foi tentar perceber quais os contornos deste projeto que funciona durante o ano letivo, e falou com o seu coordenador, Francisco Lontro, que explicou como é que são selecionados os locais onde decidem integrar o Brincar de Rua. «Normalmente quem nos chama, são pessoas da comunidade, pais, que querem que os miúdos sejam mais saudáveis e felizes», refere Francisco Lontro. Depois de se estabelecer um contacto com o Município e este demonstrar apoio, o projeto avança.

Sobre o objetivo do projeto, Francisco Lontro é perentório: «A ideia é possibilitar que os miúdos possam voltar a brincar na rua, em segurança» e adianta que «não há nada de fantástico neste movimento para além da magia natural dos miúdos».

Este projeto, que funciona a pensar nas crianças que têm entre 4 e 12 anos, não subsiste sem peças que são cruciais e indispensáveis: os Guardiões de Brincar que são voluntários, pessoas da comunidade, que monitorizam e acompanham o grupo de crianças num local onde estas possam brincar sem perigo. A sua principal função é zelar pelo «bom funcionamento do grupo», pelo «bom ambiente» e ainda pela «segurança dos miúdos».

A brincadeira está de volta às ruas

Por esta altura e até ao próximo dia 9, a vila de Porto de Mós está a atravessar a fase de recrutamento dos Guardiões. Depois da equipa perceber se os candidatos têm perfil, vão fazer uma formação no dia 14 de setembro. Quando houver cinco crianças e dois guardiões disponíveis, estão então reunidas todas as condições para que se forme um Grupo Comunitário de Brincar, nome dado a uma «micro-comunidade» que se reúne sempre no mesmo local, à mesma hora e no mesmo dia da semana, e que junta um mínimo de cinco crianças e máximo de 15, que são supervisionadas por dois Guardiões de Brincar.

Os pais que queiram inscrever os seus filhos, podem fazê-lo a partir do dia 12. Francisco Lontro sublinha que, caso a criança não tenha autonomia suficiente é desaconselhável participar porque desta forma «está-se a contrariar a dinâmica do Brincar de Rua» que defende que a brincadeira seja «um movimento a partir da criança e não um movimento que o adulto prepara para a criança». O objetivo do Brincar de Rua é que as crianças brinquem ao que quiserem e é sobretudo um momento para «elas se encontrarem com elas próprias» e para encontrarem «miúdos que possam ter os mesmos interesses ou não».

O coordenador refere que «o respeito pela individualidade de cada um é a essência do Brincar de Rua» e por isso, num grupo comunitário de brincar podem haver 15 brincadeiras diferentes a decorrer ao mesmo tempo.

A importância de brincar

Apesar de o ato de brincar ser reconhecido como um fenómeno universal e um direito legítimo, qual é afinal a importância de as crianças brincarem na rua? A sociedade mudou, e com ela foram alterados alguns hábitos, nomeadamente, a saída das crianças para rua com o objetivo de brincarem e socializarem. A psicóloga e terapeuta familiar, Elisabete Ferreira, salienta que «a rua é uma parte da socialização, senão a mais significativa no desenvolvimento humano» e alerta que caso uma criança não vivencie essa experiência terá «mais dificuldade na sua inserção social, na sua identificação e na recolha de informação inclusiva».

«As crianças estão paradas, não se vêem na rua, é um vazio», atira Elisabete Ferreira. Esta começa a ser uma realidade cada vez mais marcante nos dias de hoje e o que muitos pais argumentam é que «quando chega ao fim mais um ano letivo, os filhos necessitam de descansar». No entanto, segundo a psicóloga esta ideia é errada e defende que se «deve estimular as crianças» porque se não esse período de paragem terá efeitos secundários «nefastos», tornando o retomar das rotinas mais difícil.

Elisabete Ferreira defende que as atividades não organizadas são «as mais importantes na construção da personalidade», ou seja, é de extrema importância que a criança possa ir ao parque sem que haja nenhuma orientação específica e esta é uma característica que norteia o projeto Brincar de Rua.