De acordo com o Portal da Queixa, no primeiro trimestre deste ano, foram registadas 1377 reclamações relativas a esquemas de burla e fraude, o que representa um aumento de 34% face a período homólogo do ano passado. Apenas desde o dia em que foi decretado o Estado de Emergência no país, a 19 de março, registaram-se 356 reclamações, numa média de 16 queixas por dia. Entre as principais burlas denunciadas estão aquelas feitas através da aplicação MBWay.
Frederico Inácio, do Chão Pardo, na freguesia do Juncal, foi um dos visados. Recentemente, foi-lhe retirada a quase totalidade do dinheiro que tinha na conta – sobraram-lhe 68 cêntimos – através de um esquema que envolvia esta aplicação. Frederico Inácio colocou à venda, numa plataforma online, «um esmagador de uvas e passada meia hora de ter colocado o anúncio, um senhor telefonou». O alegado burlão mostrou-se interessado no produto e quando lhe foi sugerido que o pagasse no ato da entrega, recusou, dizendo que não seria o próprio a levantar o artigo e que, por isso, preferia pagar por transferência. Alegou, no entanto, que ao fazer uma transferência “normal”, o dinheiro levaria «três ou quatro dias» a entrar na conta do vendedor e «que se pudesse pagar naquele mesmo dia, mandava uma transportadora buscar o produto no dia seguinte».

Frederico Inácio diz que «nunca» suspeitou de nada. O suposto comprador «disse que ia fazer uma transferência na hora», nunca tendo referido o nome da aplicação MBWay, e pediu que Frederico Inácio se deslocasse a um terminal multibanco. A partir daí, foi dando as indicações para que Frederico Inácio fizesse o registo na aplicação: «Pediu-me para colocar lá o número de telefone dele, depois deu-me seis dígitos e disse que passados cinco minutos me ligava a confirmar a transferência». Francisco Inácio diz que não está «bem dentro do assunto» e que «nunca tinha feito uma transferência», por isso nada lhe pareceu estranho. Cinco minutos depois, o suposto comprador voltou a ligar: «Disse-me que devia haver algum erro porque não estava a conseguir fazer a transferência. Perguntou-me se eu tinha outro cartão, outra conta para onde ele pudesse tentar. Respondi-lhe que não», lembra. Nesse momento começou a suspeita de que algo não estava bem. Como estava ainda perto do multibanco, foi verificar o saldo da sua conta e constatou que lhe restavam apenas 68 cêntimos. «Telefonei logo para ele outra vez, ele disse que não podia ser, que não tinha sido ele e perguntou-me quanto é que eu tinha na conta. Quis gozar com ele, já que ele estava a enganar-me, e disse-lhe que tinha 10 mil euros. Respondeu-me que se os tivesse lá, tinha ficado sem eles. E desligou a chamada», revela.

Frederico Inácio foi para casa, cancelou o cartão e apresentou queixa. No dia seguinte, foi «ao banco explicar a situação, eles já conheciam muitos casos destes», mas Frederico Inácio garante que «nunca tinha ouvido ou lido nada sobre esta burla», por isso, pediu à mulher que fizesse uma publicação no Facebook, queria garantir que, se pelo menos uma pessoa lesse a publicação, era «menos uma a ser enganada». Crê que nunca vai «recuperar o dinheiro». O banco não se responsabiliza já que toda a ação foi executada pelo próprio Frederico Inácio: «Eu fiz um grande erro, é verdade, mas a falta de informação também me enganou. Os bancos podiam fazer um folheto a explicar estas burlas, podiam ter um bocadinho mais de responsabilidade», considera.

Os conselhos da PSP

O comandante André Antunes, do Comando Distrital de Leiria da PSP, disse a O Portomosense que se tem «registado um crescendo acentuado de denúncias relativas a burlas praticadas com recurso à aplicação MBWay», e acrescentou que este «fenómeno criminal» é uma realidade a nível nacional, mas que «também tem registado um incremento no distrito de Leiria». De acordo com as declarações do comandante, antes de se combater a situação através «dos mecanismos de investigação criminal», há que «sensibilizar a população» para a prática deste crime, para que possa prevenir-se, deixando assim alguns conselhos: o primeiro prende-se com a obrigação de «não ceder a qualquer tipo de abordagem que implique deslocações a terminais multibanco ou ATM, porque estes equipamentos são, além de potenciadores destas burlas MBWay, também propícios ao cometimento de outros crimes. Estas burlas implicam sempre a deslocação a um terminal multibanco», afirma. Por outro lado, é também importante perceber como funciona a aplicação e «tomar consciência de que, em tese, funciona com mecanismos de credenciação que são seguros, implicam que o utilizador, quando se regista, se autentique através da sincronização da sua conta bancária com um determinado número de telemóvel. Depois de feito o registo inicial, garante que haja uma acessibilidade controlada apenas pelo utilizador do telemóvel associado à aplicação». O grande problema surge do desconhecimento da aplicação que, aliado a «manobras de discurso próprias dos burlões», leva a que as pessoas se desloquem ao multibanco para realizar a operação que dá controlo total ao burlão sobre a sua conta bancária.

O comandante André Antunes refere que «caso aconteçam as burlas, o importante é que as pessoas denunciem, comuniquem às autoridades, com o máximo de pormenores que consigam reter do crime de que foram alvo, porque são esses pormenores que vão ajudar na investigação». Se há uma suspeita, mas a pessoa consegue interromper a operação, «ainda assim não deixou de haver tentativa» e é também «muito importante» apresentar queixa, uma vez que esse testemunho «vai cimentar prova nalguns outros processos». «Muitas vezes os criminosos são os mesmos, praticam este tipo de crime quase como modo de vida e de forma reiterada. O mesmo suspeito pode estar indiciado em vários crimes e todas essas conexões processuais vão poder cimentar a prova que está a ser trabalhada nesse sentido», explica.