Primeiro, chegaram as cabras bravias, uma raça autóctone portuguesa muito presente no Gerês e em Trás-os-Montes, que se distingue pela elevada rusticidade e que se adapta na perfeição a zonas agrestes e de clima igualmente adverso. Três anos depois, em junho de 2019, às 100 bravias juntaram-se cerca de 50 vacas cachena e barrosã, duas raças que, tal como as bravias no caso dos caprinos, se adaptam na perfeição a zonas altas e agrestes em termos da orografia do terreno e das condições climáticas. Umas e outras, em áreas distintas dos baldios sob a “alçada” da Junta de Freguesia de Serro Ventoso, cumprem a mesma função: limpam o mato e com isso ajudam na prevenção de incêndios florestais. Fazem-no «de forma exemplar», nas palavras de Carlos Cordeiro, o presidente da Junta local, e por isso o autarca não tem dúvidas que o título de “sapadoras”, lhes é inteiramente justo.

Depois da «experiência espetacular» inicial, a Junta presidida por Carlos Cordeiro, decidiu testar uma nova solução de limpeza de terrenos com recurso a animais, e desta vez, a escolha recaiu em vacas e com isso ganhou mais um parceiro. Se para trazer o projeto das cabras sapadoras teve (e tem) na associação Vertigem, da Bezerra, o parceiro ideal, no caso das vacas, o desafio foi lançado a Jorge Alves, engenheiro agrónomo e criador, residente em Mira de Aire, e a empresas a que está ligado, que de pronto o aceitaram, convictos de que, desta forma, é possível controlar o crescimento dos matos e ajudar a prevenir os incêndios. Seis meses depois, Junta e criadores não têm dúvidas de que o projeto que tem assentado arraiais nas serranias da Bezerra, «está a resultar bastante bem». À conversa com o nosso jornal, Jorge Alves explica que as vacas sob a sua responsabilidade não são as únicas a pastar nos baldios de Serro Ventoso e que ao gado bovino se juntam também cabras e ovelhas, e que, cada um por si, contribui para a limpeza desses mesmos terrenos. «No caso das vacas, além de limparem os matos e ajudarem a regenerar as pastagens, o que não comem, pisam, portanto, os terrenos por onde passam ainda ficam mais limpos». Mas mais que entrar em campeonatos para saber quais os animais que limpam mais e melhor, o criador deixa no ar a ideia de que, tal como defende o presidente da Junta, estamos perante uma boa solução para ajudar na prevenção dos incêndios florestais e aí, neste caso, cabras e vacas, em tempos e de formas algo distintas, complementam-se na mesma missão.

É muito mais barato usar cabras e vacas que máquinas

Carlos Cordeiro assume que o projeto nasceu com um intuito prático mas também de sensibilização da população e dos próprios poderes públicos concelhios e nacionais. Acreditando que pela via da pastorícia intensiva se conseguiria limpar a floresta de uma forma mais simples, natural e, acima de tudo, muito mais barata quando comparada com aquilo que se gasta na utilização de máquinas e tratores, o autarca decidiu lançar mãos à obra «com o apoio dos parceiros certos» e hoje, sublinha, «os resultados estão aí para o demonstrar. Penso que não restam dúvidas para ninguém que estamos perante uma boa solução e só espero que mais gente siga o nosso exemplo, sejam particulares ou entidades públicas», desafia.

«É engraçado que no sítio onde, há um ano, fizeram faixas de contenção com recurso a máquinas e tratores e onde foram gastos 80 a 100 mil euros, hoje praticamente nem notamos que aquilo foi feito porque a erva já está grande, mas nos sítios por onde as vacas andaram nota-se bem. O que elas não comem, pisam. Não tenho números concretos mas acredito que num mês deitem abaixo o mato numa zona de cinco hectares. Portanto, fica muito mais barato que de dois em dois anos andar a investir no mesmo espaço, 100 mil euros», reforça.

A utilização de cabras e vacas tem, no entender do autarca, «uma mais-valia que não se esgota na limpeza, a baixo custo, e de forma pouco poluente, de extensas áreas florestais. Há que ter em conta que tanto as cabras como as vacas produzem carne e que esta é depois introduzida num mercado que, todos sabemos, ainda não é autossuficiente em Portugal, portanto é só vantagens. O dinheiro que se gasta numa máquina entra como gasóleo, sai no escape e nunca mais se vê, esfuma-se. A vaca come, limpa a floresta e ainda se reproduz e dá um vitelo, é certo que uma ou outra pode morrer mas nunca morrem todas», sublinha.

O presidente da Junta de Serro Ventoso diz que tanto num caso como noutro não inventou nada, limitou-se a aprender com os exemplos que vinham de trás, e se no passado não muito distante a pastorícia muito contribuiu para a limpeza de terrenos e daí não haverem tantos e tão graves incêndios florestais como hoje, então, fará sentido que os poderes públicos incentivem o incremento dessa prática, nomeadamente concedendo apoio financeiro a quem a queira desenvolver.

Dizendo não compreender «por que é que a nível nacional ainda há tão poucos comandantes de bombeiros e outros responsáveis da Proteção Civil a vir a público defender esta mesma ideia quando os resultados estão à vista», o autarca espera que exemplos como o da sua Junta, que já fizeram várias páginas de jornal e foram notícia noutros órgãos de comunicação social regional e nacional, cheguem ao coração e à razão tanto do cidadão comum como do poder local e central, e que uns e outros vejam os benefícios de projetos desta natureza. Não se trata, esclarece, de tornar cada português num criador de cabras ou vacas, ou num pastor, mas fazer com que todos percebam que a pastorícia é uma das alternativas que deve ser colocada em cima da mesa quando se pensa nas melhores formas de prevenir os incêndios florestais.