Quem se lembra da crise provocada pela II Guerra Mundial, que originou o racionamento que o Governo da época efetuou, dum modo especial entre 1944 e 1948, por todo o país? Também o nosso concelho viveu nesses anos as agruras da escassez de alimentos, mormente do azeite, mas já poucos se lembrarão desta fase da vida difícil dos portugueses, a que Porto de Mós não esteve alheio.

Como grande produtor de azeite, o nosso concelho viu este bem precioso ser racionado, razão por que muito dele foi comercializado em contrabando, às escondidas pela calada da noite e por caminhos pouco ou nada frequentados. Também o pão, o açúcar, o arroz eram adquiridos através de senhas e em quantidades entendidas como suficientes para cada família.

Vem isto a propósito da aquisição de material antigo, que a Câmara Municipal de Porto de Mós concretizou recentemente, onde se inclui bastante documentação da Comissão Reguladora do concelho de Porto de Mós, onde se encontram fichas de racionamento.

Racionamento marca uma época

São mais de dois milhares e meio de documentos, nomeadamente fichas de racionamento referentes a cada uma das, na altura, 13 freguesias do concelho.
Como curiosidade aponta-se que as fichas correspondentes às freguesias de Alcaria, Alvados, São João e São Pedro, vão de 1944 a 1948, as de Alqueidão da Serra, Arrimal, Calvaria, Juncal, Mira de Aire e São Bento, incluem fichas de 1944 a 1947, Mendiga e Serro Ventoso de 1944 a 1946 e Pedreiras tem somente fichas referentes ao ano de 1944.
Ainda neste capítulo encontra-se correspondência diversa da Delegação de Porto de Mós da Intendência Geral de Abastecimentos, da década de 1940 a 1950, fichas de consumidor, senhas de racionamento, carta de racionamento do pão, uma relação dos retalhistas do concelho, inquérito às condições de racionamento do pão de padaria, por freguesia e modelos genéricos de envelopes da Intendência Geral dos Abastecimentos.

Outros documentos

Além da documentação relacionada com o racionamento, outro material igualmente importante, foi adquirido pela autarquia portomosense.
Assim, encontram-se no acervo, um lote de mais de duas dezenas de fotografias da procissão do Senhor dos Passos e outras, presumidamente da década de 1940 a 1950 do século passado, uma fotografia emoldurada da Ponte Nova, agora Ponte de São Pedro, datada de 1939, assim como correspondência dispersa de empresas comerciais do concelho e uma folha da Cooperativa do Pessoal da Empresa Mineira do Lena, referente ao ano de 1948.
Encontra-se ainda neste lote de material antigo, um conjunto de documentos relacionados com a venda, em 1958 pela SEOL, das caldeiras e dos turbogeradores da Central Termoelétrica de Porto de Mós, a uma empresa de Torres Novas, atualmente inexistente.
A este acervo junta-se ainda correspondência relacionada com a indústria resineira, de 1955 a 1959, uma máquina calculadora que esteve ao serviço da Comissão Reguladora do concelho de Porto de Mós e uma amostra de garrafa de azeite da empresa portomosense Narciso, Alves & Companhia Lda., datada de 1978, inspecionada pela Direção-Geral de Fiscalização Económica.

Para memória futura

Este material, adquirido ao antiquário Félix Reis, de Alqueidão da Serra, tem por objetivo «aumentar o acervo patrimonial histórico do nosso concelho», como explica o vice-presidente e responsável pela Cultura da Câmara Municipal de Porto de Mós, Eduardo Amaral, acrescentando que «recuperar a memória coletiva é garantir o acesso à informação».
O autarca adianta que este material foi adquirido porque «havia o risco de se perder um património tão valioso, que representa uma época da nossa história, relacionada com a Segunda Guerra Mundial».

armindo vieira | texto