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Canil de Porto de Mós: Número de adoções não chega para atender aos pedidos de ajuda

6 Dezembro 2021
Jéssica Silva

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Jéssica Silva

6 Dez, 2021

O Centro de Recolha Oficial (CRO) de Animais de Companhia de Porto de Mós abriu portas há um ano e já nessa altura estava praticamente lotado, sobretudo com os 24 animais que transitaram das antigas instalações. Um ano depois, o problema da falta de espaço mantém-se e a explicação é simples: A taxa de adoção não chega para fazer face ao número de solicitações. Desde que foi inaugurado, a 9 de novembro de 2020, o canil de Porto de Mós recolheu 147 animais, dos quais apenas 105 foram adotados (73 cães e 32 gatos). Esta discrepância leva a que esteja quase sempre cheio e inviabiliza uma maior recolha de animais. «Nós temos uma lotação limitada e não podemos exceder muito, aliás já estamos a excedê-la», revela Pedro Cavaca, médico veterinário municipal.

O canil de Porto de Mós dispõe de um total de 17 boxes que podem acolher até dois cães cada, um número que Valéria Pessegueiro, enfermeira veterinária, reconhece que «por maior que fosse, nunca seria suficiente para recolher as centenas de animais que nascem todos os anos nas ruas». «Até encher, vão-se colocando mas a partir do momento em que está cheio só entram animais à medida que saem. Aumentando o número de celas não aumenta o número de animais que são adotados», explica. Pedro Cavaca defende que é preciso haver uma mudança de mentalidades e que se nada for feito o abandono de animais vai continuar a existir. «Enquanto não houver uma legislação diferente e uma maior fiscalização não são os CROs que vão resolver essa situação. Humanamente é impossível. Se não adotarem não há hipótese», alerta.

No CRO existe, ainda, o gatil comunitário, que alberga os animais todos juntos, sem que haja uma box individual para cada um, e onde estão hoje 11 gatos (nove fêmeas e três machos). As características desse lugar tornam-no «muito propenso» à propagação de doenças infectocontagiosas, como já aconteceu três vezes este ano, o que «condicionou muito» a entrada de gatos. «Quando temos um surto às vezes estamos meses sem poder receber», revela Valéria Pessegueiro. «O ideal» seria que os animais quando entram, fizessem quarentena durante 15 dias, antes de serem misturados com os outros, mas a inexistência de um espaço específico para o efeito acaba por não ajudar a resolver o problema. «Nós temos uma pequena enfermaria mas não é suficiente para isso porque é utilizada para o recobro e quando os animais estão doentes», explica.



CRO queixa-se da falta de pessoal

Ao longo deste primeiro ano de existência, o CRO tem-se debatido também com problemas de natureza estrutural. Pedro Cavaca queixa-se da falta de funcionários no canil que neste momento só conta com dois efetivos e que têm de cuidar, diariamente, de mais de 37 animais. «Os voluntários são úteis mas eles não conhecem os cães e se se misturam pode ser perigoso», reconhece. «Nem todos os animais se dão bem uns com os outros e nós formamos grupos consoante o comportamento deles entre eles», acrescenta a enfermeira veterinária.

O drama da rejeição

Se há coisa a que, infelizmente, os funcionários do CRO já se vão habituando é à rejeição das pessoas para com os animais algo que, muitas vezes, acontece logo no primeiro contacto. Pela experiência, Valéria Pessegueiro assegura, sem dúvidas, que as pessoas continuam a priorizar o aspeto físico dos animais em prol de tudo o resto e que há muita gente que durante a visita ao canil «parece que está numa montra a escolher roupa». «Eu conheço os animais e a sua personalidade, sei que são uns cães espetaculares mas as pessoas nem dão oportunidade de chegar à jaula e dar uma festa ao animal para ver como é que ele interage», admite. Esta fixação pela aparência física leva a que, no momento de se adotar um animal, as pessoas prefiram «não ouvir» os conselhos de quem está diariamente no canil o que acaba muitas vezes por trazer desilusões no futuro. «Todos os animais em que as expetativas não corresponderam à realidade, as pessoas foram avisadas», garante.

Há um ano a trabalhar no CRO, a enfermeira veterinária já assistiu a tudo o que se possa imaginar mas, ainda assim, não se mostra imune ao sentimento da rejeição: «Não é fácil viver isto todos os dias porque eu sinto a rejeição das pessoas para com os animais e parece que me estão a rejeitar a mim», confessa. Valéria Pessegueiro dá o exemplo de sete cães de caça que transitaram do antigo canil e que até hoje, ninguém quis adotar: «São os que ficam para último porque apesar de serem muito queridos para quem conhecem, as pessoas que cá vêm ver um animal querem que seja o animal a escolhê-las e estes não fazem isso. Estes animais provavelmente nunca vão sair daqui», lamenta.

“Os animais não são um bibelô”

Embora na grande maioria das vezes o CRO já não tenha capacidade para recolher os animais que estão na rua «em perigo de morrerem», ainda há quem pense que pode «desfazer-se» do seu animal doméstico porque este «está velho, roí os sapatos ou destrói a casa» e que o canil terá espaço para o acolher: «Eu gostava que as pessoas de Porto de Mós viessem mais vezes cá para recolher animais e não tanto para os deixarem», admite, acrescentando que as devoluções só não acontecem mais porque o canil não consegue receber ou porque as pessoas têm vergonha de dizer.

Se com os confinamentos derivados da pandemia, se assistiu a um ligeiro aumento no número de adoções de animais, a verdade é que essa situação não durou muito tempo e nalguns casos até regrediu. «A pandemia foi um pau de dois bicos porque é muito giro ter cães, é um entretém, mas depois começaram a trabalhar e deixou de o ser. Notámos que houve muita gente a vir buscar mas passado uns tempos já estavam a querer entregá-los. As pessoas pensam que isto é um bibelô para as crianças brincarem e não é», critica Pedro Cavaca.

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