Foto: Catarina Coreia Martins

Assim que o carro d’O Portomosense passou o portão do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO) de Porto de Mós e Batalha, da Cercilei, ouviu-se dentro do edifício: «Chegou o jornal!». Fomos recebidos com olhares curiosos que rapidamente se transformaram numa mão esticada acompanhada da frase: «Sou o Rodrigo, como te chamas?». Era Rodrigo Coelho, um dos utentes do CAO, que logo de seguida se prontificou a chamar a diretora técnica, Raquel Pereira, com quem tínhamos marcado encontro. «O Rodrigo é o nosso relações públicas», disse-me em tom de brincadeira, referindo-se ao rapaz, sempre curioso, que faz questão de cumprimentar todos quantos chegam.

Na sua companhia iniciámos, então, a visita guiada pelas instalações. A sala verde, da Jardinagem, foi a primeira das quatro salas de atividades ocupacionais que conhecemos. A monitora que tem à sua responsabilidade as atividades ligadas a esta temática, explicou que, muitas vezes, vão para a rua, porque a área assim o exige. No entanto, também em sala trabalham com materiais provenientes da natureza, adiantando que estão já a trabalhar em pequenos presépios e no postal com que vão participar no concurso dinamizado pela Câmara Municipal. Seguiu-se a sala das Atividades de Vida Diária, cujo objetivo é que aprendam a fazer coisas simples do dia-a-dia, da forma mais correta. Atar os atacadores, comer ou fazer a cama são algumas das atividades trabalhadas. A sala laranja é dedicada à Cozinha. Apesar de a comida ser confecionada pela Associação Desportiva Portomosense, todas as restantes tarefas inerentes às refeições são responsabilidade dos utentes. Põem as mesas, que no final levantam e lavam a louça, deixando tudo pronto para a refeição do dia seguinte. Além disso, o edifício dispõe de uma pequena cozinha com eletrodomésticos que permitem a aprendizagem de pratos mais simples, como sobremesas ou aperitivos. Chegámos por fim à sala da criatividade a que todos chamam Criativ’Arte. As técnicas e os materiais usados são inúmeros e o resultado final está espalhado por toda a parede. Tecidos, telhas, telas, tintas, trapilho, lã, casca de ovo, a imaginação é mesmo o limite.

Os cerca de 30 utentes são divididos por estas quatro salas de acordo com os seus gostos e competências e trocam todos os anos ou, por vezes, de dois em dois anos. Quando chegam à nova sala, «a primeira abordagem, é conhecê-los, perceber o que gostam de fazer, perceber as competências que têm», explica Raquel Pereira. Depois escolhem um trabalho «em comum» e, de acordo são-lhes atribuídas tarefas. O grande objetivo é «pegar no seu ponto forte, naquilo que são capazes de fazer e ser mais exigentes», revela a diretora técnica que acrescenta que «é isso que eles gostam, não gostam de se limitar àquilo que sabem fazer, querem tentar fazer mais».

A importância do reconhecimento

Era manhã de quarta-feira e, por isso, dia de teatro. No corredor já estava o cabide com os vários fatos e adereços, o cenário pintado pelos utentes encontrava-se montado, a música preparada e os atores quase a postos para nos apresentar Branca de Neve e os Sete Anões. Foi ali mesmo que parámos. A história adaptada foi apresentada com todo o empenho, vestiam fatos a rigor, havia ainda o narrador que ia verbalizando os traços gerais do enredo e música a condizer. No final, o narrador, João Pereira, apresentou cada um dos atores e, em conjunto, agradeceram os aplausos. A vontade, a seriedade e a satisfação com que apresentaram a peça para o jornal e para a diretora técnica foram as mesmas com que o fariam para um grande público.

Foto: Catarina Correia Martins

O Rodrigo, o jovem que nos cumprimentou logo que chegámos ao CAO, era um dos sete anões em “palco”, e explicou a O Portomosense que, de todas as tarefas que envolve a encenação de uma peça, o que mais gosta é de representar. Quanto às falas que precisa de decorar, refere que «se for preciso» consegue fixá-las rapidamente, mas «tem que ser repetidamente, treinar muitas vezes». «Já fizemos vários teatros, o da Carochinha e do João Ratão, a história do Coelho Branco e falta referir a história do Macaco de Rabo Cortado, que deu muito trabalho e fez muito sucesso», explica Rodrigo. Nas apresentações ao público, «o pessoal gosta [das peças]». «Até posso dizer que no encontro da Cercilei, [que envolve o CAO de Porto de Mós e Batalha e também o de Leiria], toda a gente adora», acrescenta.
De acordo com Raquel Pereira, as apresentações à comunidade são «importantes» porque os jovens do CAO «sentem-se bem e gostam quando há uma atividade fora, querem sempre participar». A diretora técnica acrescenta que «eles não estão escondidos. Pelo contrário, estão envolvidos na comunidade»: «Temos vários eventos para que somos convidados porque somos aceites, as pessoas conhecem-nos. Sobretudo aos que moram aqui em Porto de Mós, toda a gente os conhece e cumprimenta», afirma.

A Cercilei, nomeadamente o CAO de Porto de Mós e Batalha, proporciona também atividades na comunidade, como é o caso da natação, das aulas de música ou das idas ao ginásio, em que os utentes vão acompanhados de um auxiliar ou de um técnico mas que são depois orientados pelos técnicos de cada uma das entidades parceiras, em conjunto com a restante comunidade. Além disso, «temos uma tarde em que fazemos socialização»: à vez, cada sala escolhe o que quer fazer naquela tarde, «às vezes querem ir à biblioteca, outras querem ir ao parque dar um passeio e, outras ainda, querem ir ao café», explica Raquel Pereira.

“Proximidade muito grande” com os pais

No CAO estão 30 utentes, com idades compreendidas entre os 20 e os 60 anos, mas quando é preciso ajuda para alguma atividade, este número cresce. Os pais são uma “peça-chave” na Cercilei: «Nos vários eventos que fazemos, mesmo quando são festas solidárias, não conseguíamos fazer isto sem os pais. Eles é que contribuem com as coisas, se houver uma festa solidária, eles é que confecionam e trazem a comida. Se tivermos que fazer cabazes, os pais mandam os produtos. Nunca conseguiríamos fazer muitas das coisas sem eles. A família é uma das nossas bases», finalizou Raquel Pereira.