A mente e o corpo das mulheres não são vossa propriedade. A minha avó não pertencia ao meu avô e nós não devíamos precisar de proteção. Não quero que os meus amigos sintam necessidade de me defender, não devia ter que me preocupar com as minhas amigas em bares ou a caminho de casa sozinhas. Os nossos corpos não são objetos numa montra. Tal como as nossas mães lutaram, como puderam, muitas com medo, contra os homens do seu tempo, eu não me calarei contra as objetificações do meu tempo, desde o toque, aos olhares e à palavra. O acharem “ok” tratar as mulheres como tratam, é proliferação de uma mentalidade antiga, passada por gerações anteriores, gerações que não reconheciam que sem mulheres, não existia nenhuma sociedade.

Foram estas as palavras que Carolina Sepúlveda, de 25 anos, natural do Tojal de Cima, proferiu em vídeo, no âmbito da Campanha 54, dinamizada pela União de Freguesias de Marrazes e Barosa, concelho de Leiria. O vídeo, a preto e branco, é reflexo de um tema que não pode ser visto a cores, tal é o impacto negativo que tem na sociedade. A ideia desta campanha surgiu depois de um estudo realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos que concluiu que cada mulher tem, em média, apenas 54 minutos de tempo livre para si durante 24 horas. A secretária desta Junta local, responsável pelo projeto, que arrancou a 6 de outubro, Catarina Dias, diz que «tentando ir buscar essa pressão do tempo», surgiu a ideia de «poder fazer uma campanha que evidenciasse a problemática da violência contra as mulheres». O objetivo era que cada «um pudesse refletir sobre estas questões e que nos fizesse pensar que cada um de nós, nas nossas atitudes diárias, é veículo dessas agressões». Assim, foi lançado o repto a 54 pessoas, coletivas e instituições do campo artístico para que fizessem um vídeo de 54 segundos, que passariam durante 54 dias, um em cada dia, ininterruptamente.

A jovem Carolina, fotógrafa, aceitou o repto, lançado por Catarina Dias, que já conhecia «há alguns anos» por motivos profissionais. «Aceitei imediatamente porque é um tema que mexe muito comigo, como acho que mexe com a maior parte das mulheres». «É algo que se passou com as nossas avós, com as nossas mães e que se continua a passar agora. Maus tratos e abusos, quer de maridos, pais, tios, irmãos, do vizinho do lado, do homem do café e da rua. Sempre tive muita consciência que acontecia muito», frisa a portomosense.

Carolina Sepúlveda lembra-se do primeiro momento em que se sentiu violentada, nomeadamente por causa do corpo. As palavras são obscenas, mas devem ser ditas. «Foi um senhor no café, eu tinha apenas 13 anos, apareci com uma amiga, tínhamos estado na piscina e a nossa t-shirt estava molhada. Ele virou-se para mim e perguntou-me se tinha ido dar leite às vacas?», conta. Ainda uma criança, Carolina confessa que na altura não percebeu muito bem «o que estava a acontecer», mas a situação deixou-a «bastante constrangida» e nunca mais voltou ao estabelecimento. «Quando tu vês essas coisas a acontecer desde uma idade tão nova, em que tu ainda nem estás desenvolvida psicologicamente nem fisicamente, poderemos só imaginar o que acontece depois», salienta.

Entre a sua geração, as coisas estarão melhores? Carolina responde: «Eu acho que a nossa geração fala muito abertamente sobre isto, o que é uma mudança muito importante. Os comportamentos, infelizmente, acho que ainda não mudaram, existe muita violência. Existem provas de que cada vez existe mais violência no namoro desde tenra idade, muita dela psicológica e também um cyberbullying muito forte. Antigamente o que acontecia era que a violência ficava nas casas das pessoas que tinham vergonha de falar». Este tipo de marcas «perpetuam-se nas pessoas durante muito tempo, em alguns casos, não se chegam a apagar», considera.

Na opinião da portomosense, enquanto «não existir uma generalização do que é preciso ser falado» nada mudará. «É preciso que as nossas escolas e o nosso sistema de educação tenham psicólogos e que tenham aulas sobre estes assuntos. Há tanta coisa que pode ser falada. Há tanto ódio dentro das nossas cabeças que é mal direcionado para este tipo de situações», acredita. Carolina Sepúlveda, agora emigrada em Inglaterra, à procura de oportunidades na carreira, explora nas suas fotografias o corpo, acreditando que, é uma forma de exorcizar certas marcas que resultam de violências ao longo da vida.