Foto: Jéssica Moás de Sá

Um amor que nasceu em França

No dia 28 de maio de 2018, Maria Alves e António Ferraria celebraram meio século de matrimónio, com direito a renovação de votos. Uma festa onde juntaram toda a família e alguns amigos e que foi marcante nas suas vidas: «Adorámos esse dia», contam. Para trás, estão muitas recordações de uma vida vivida em conjunto.

Foi em França, na Gare d’Austerlitz, em Paris, que os olhos deste casal se cruzaram pela primeira vez. António Ferraria já vivia em França há dois anos, mas Maria Alves chegou nesse dia, pela primeira vez, a terras gaulesas. O pai de Maria Alves não se sentia confortável em deslocar-se a Paris sozinho e foi aqui que o que viria a ser o futuro genro entrou. Foi com ele buscar a sua filha que chegava de Portugal. As famílias do casal eram vizinhas em França e já se conheciam. Mas para Maria Alves e António Ferraria este era o primeiro contacto que foi, logo, «amor à primeira vista», admitem.

Pouco tempo depois de se conhecerem, começaram a namorar, namoro que durou um ano até que o enlace se desse. Uma gravidez antes do matrimónio foi muito «julgada» pelos pais do casal, o que fez com que o casamento tivesse que ser realizado quando Maria Alves soube que estava uma filha a caminho. Casaram em França, numa «festa pequena com cerca de 25 pessoas»: «Optámos por casar em França porque foi na altura da guerra no Ultramar e diziam que o meu marido tinha fugido ao serviço militar e depois eu não queria vir para cá grávida, tinha receio do que iam dizer», conta Maria Alves.

O casal teve ainda outro filho e foi precisamente por influência dos dois filhos que Maria e António voltaram para Portugal: «Só viemos porque os nossos filhos queriam vir para a escola cá, senão teríamos ficado lá». Maria Alves confessa mesmo que «gostava muito» de viver em França e que por ela ainda hoje lá estaria. Neste casamento de mais de 50 anos, os filhos foram uma peça fundamental: «Os filhos cada vez nos uniram mais», frisam.

O regresso a Portugal «foi um começar de novo». O casal embarcou nalguns projetos, como a abertura de um café e mais tarde com uma fábrica de azulejo. Nem tudo correu bem, uma vez que a fábrica acabou por falir, mas em nenhum momento o casal sentiu que estes acontecimentos estivessem a enfraquecer a sua união: «Os momentos maus só enfraquecem um casal se não existir um sentimento muito forte», acredita Maria Alves.

Aos casais com menos anos de namoro ou casamento, deixam alguns conselhos para manter a relação: «Tem de haver muita compreensão de parte a parte. Aceitarem as diferenças um do outro». Um exemplo disso são as tarefas domésticas, conta o casal. «As tarefas não nos afastam, porque eu nunca faço conta com ele para isso. Já houve um tempo em que me chateava com isso, hoje já não», frisa, entre risos, Maria Alves. O marido tem uma justificação: «Eu só não faço as coisas, porque não faço tão bem como ela». Uma «desculpa», conta a mulher com um sorriso nos lábios, que já dura «há 50 anos».

Em António Ferraria a esposa vê como principais qualidades o facto de ser «trabalhador, paciente e um pai muito amigo dos filhos». Já Maria Alves, aos olhos do marido, é «uma ótima cozinheira, muito organizada e que sabe bem o que quer». Hoje em dia já não se imaginam um sem outro e sem as rotinas que têm juntos. Os 50 anos de matrimónio já ninguém lhos tira e no futuro, querem somar mais anos de união.

Uma vida de cumplicidade

Foi muito cedo, com cerca de 10 anos, que Euclides Santos viu pela primeira vez Maria Carreira. Era à janela que a mirava, quando passava com o pai, vinda do Alqueidão da Serra, para chegar ao moinho junto ao castelo, de Porto de Mós onde moíam o grão. O pai de Maria Carreira era carcereiro na cadeia, também junto ao castelo e era por cima do edifício que tinham a casa onde viviam. Viram-se, apenas assim, durante alguns anos até Euclides Santos ir para França, confessando que já nessa altura “catrapiscava” a sua futura mulher. «Eu via-a, só não falava com ela porque tinha medo, o pai dela estava na cadeia e eu ainda ia lá parar também», brinca Euclides.

Já depois de estar em França, Euclides voltou duas vezes a Portugal e em ambas foi ter com Maria ao armazém onde trabalhava, já com intenções «mais sérias». «Um dia disse-lhe que ainda ia ser minha mulher», conta, rindo. Euclides Santos voltou para França, mas não sem antes convencer Maria Carreira de começarem a “namorar” por correspondência. Ainda se lembra de um poema que lhe disse nessa altura: «Ouve lá, tu queres receber o peito do meu coração, para o peito do teu coração para que o peito do teu coração venha unir no fundo do peito do meu coração, diz-me sim ou não». Maria disse que sim, um sim que ainda hoje se renova.

Namoraram por carta durante algum tempo, até que Euclides voltou em agosto de 1966 e o matrimónio realizou-se a 18 de dezembro desse mesmo ano. O marido ainda foi para França sozinho, depois do casamento, mas passado apenas uma semana arrependeu-se de ter deixado em Portugal a sua mulher e voltou para a vir buscar. Foram para França juntos e foi lá que nasceu o primeiro filho do casal. Entre idas e vindas, entre Portugal e França, nasceu uma segunda filha. Só se estabeleceram definitivamente em Portugal depois da mãe de Maria adoecer.

A vida não tem sido fácil para este casal, que perdeu genro e nora precocemente. Tiveram que, juntos, ser um suporte e apoio para os filhos e netos. Classificam esse como um dos momentos mais complicados e admitem ter chorado muito em silêncio, mas também terem sido «o apoio um do outro». Encontram um no outro «a melhor companhia», e para onde «vai um, vai o outro». As decisões, tomam-nas «em conjunto, algo que toda a vida foi assim». O segredo para mais de 50 anos de um casamento feliz, explicam, é «conseguir ultrapassar as dificuldades juntos e haver amor. Apesar dos problemas, conseguir estar em sintonia».

São ainda hoje apaixonados um pelo outro e tentam demonstrá-lo. «Eu ainda lhe digo muitas vezes que é bonita e que gosto muito dela», conta Euclides. Na mulher encontra várias qualidades: «É uma boa mãe, boa esposa e boa avó. Sempre me estimou e é uma excelente cozinheira». Maria Carreira partilha a admiração, dizendo que o marido sempre foi «muito bom» com ela e que «não podia ser melhor pai» do que é. Têm a certeza que sempre foram «leais» um com o outro e é esse também, para eles, o conselho fundamental para que os casais se mantenham juntos. O casal tem a certeza que se «não houver amor, não há felicidade» e sinal de que neste casal há amor é dizerem que «sempre houve felicidade».