Face ao evoluir da situação epidemiológica no concelho de Porto de Mós, as Grutas de Mira de Aire em estreita ligação com a Câmara Municipal voltam, uma vez mais, a disponibilizar as Casas da Gruta para acolher elementos das «forças de saúde e de segurança» e outras que estejam ao serviço da comunidade.

Desde o dia 15 de janeiro que os 13 bungalows do complexo turístico estão a funcionar «em exclusivo» para esse fim e até à passada segunda-feira, dia 1, já tinham albergado nove pessoas. Carlos Alberto Jorge, presidente do Conselho de Admnistração, esclarece que esta iniciativa é dirigida a pessoas que necessitem de fazer quarentena ou isolamento profilático, mas que devido a uma «série de condicionalismos» não o consigam fazer nas próprias habitações. «Quando o teste dá negativo vão embora mas antes de voltarem a ser ocupados, todos os bungalows são desinfetados com ozono», garante.

Nas Casas da Gruta já pernoitaram vários infetados, na sua maioria bombeiros, como foi o caso do comandante dos Bombeiros Voluntários de Mira de Aire, Hélder Gonçalves que, juntamente com outros «camaradas do corpo de bombeiros», decidiu recorrer a este apoio, após ter tido contacto com uma pessoa que testou positivo à COVID-19 e devido a «precauções familiares». «Necessitámos de cumprir isolamento até à obtenção dos resultados dos testes», conta. «Após ter testado positivo, optei por regressar ao domicilio, tendo a família ficado também em isolamento», explica.

Apesar de a sua «curta» passagem pelas Casas da Gruta, Hélder Gonçalves mostra-se satisfeito com as «excelentes condições» que aí encontrou. «Para além do conforto que as habitações nos proporcionam, as casas estão devidamente equipadas e são bastante soalheiras e arejadas», descreve. Uma das vantagens, recorda, é a possibilidade de ter acesso ao espaço exterior, sem que haja «contacto direto» com as restantes pessoas. O comandante da corporação de Mira de Aire considera essas condições «bastante importantes» e que ganham outro relevo numa situação de quarentena porque, acredita, «atenuam» de forma significativa a «sensação de impotência, ausência e solidão». «Psicologicamente é fundamental poder ter estes momentos de distração, não só para que se possa respirar ar puro e apanhar sol, que ajuda na recuperação, mas também para manter a mente distraída, minimizando assim a sensação de isolamento», sublinha.

Voluntários da Família Militar prestam apoio a lares

Arminda Coutinho, de 52 anos, auxiliar da ação médica da Família Militar, foi uma das nove pessoas que estiveram alojadas nas Casas da Gruta. O seu caso foi um bocadinho diferente dos restantes, uma vez que a sua estadia não se deveu à obrigação de fazer quarentena, mas sim à necessidade de ter um local onde pernoitar durante os 10 dias em que esteve a prestar apoio Lar do Abrigo Familiar Casa de São José, devido a um surto que assolou a instituição. «Quando aconteceu esta situação da COVID-19, a Família Militar disponibilizou-se para ajudar os lares que precisavam de ajuda, porque as funcionárias começaram a ficar doentes e automaticamente tinha que haver alguém para trabalhar», conta a voluntária, natural de Lisboa. Nesse período, a sua rotina foi quase sempre a mesma. Entrava às 13h30, almoçava, e depois tinha início o seu serviço de apoio aos idosos.

Findo o período de trabalho, Arminda Coutinho regressava àquele que foi o seu refúgio durante o tempo que esteve a prestar auxílio no lar: um T1 com «instalações boas» onde recarregava as forças para o dia seguinte. Aproveitava o tempo livre para «descansar o mais possível» mas gostava ainda de «ver televisão» e «ler as notícias no Facebook». Uma vez terminada a sua missão partiu para um lar em Cela (Alcobaça). Porém, a voluntária não esquece um dos momentos mais dramáticos que viveu em Mira de Aire: a morte de uma utente. «Morreram lá vários, mas quando me chamaram para ir ver se a senhora estava viva e eu constatei que ela tinha acabado de falecer… Foi a situação que me marcou mais», recorda, com a voz embargada.

A pandemia levou a que, nos últimos tempos, a vida desta voluntária tenha sido transformada num enorme corrupio. Antes de passar por Mira de Aire e mais recentemente por Alcobaça, Arminda Coutinho esteve a dar apoio a um lar em Reguengos de Monsaraz e posteriormente em Óbidos. Sobre a sua passagem pela vila mirense, a lisboeta desdobra-se em elogios: «Tive condições excelentes em todos os aspetos: alojamento, comida, trabalho, instalações do lar e uma ótima relação com a diretora técnica e a Irmã». No entanto, o seu entusiasmo altera-se por completo quando recorda a experiência que viveu em Óbidos. «Fiquei a pernoitar dentro do lar. As condições não eram muito boas, cheguei a ter o quarto inundado e houve um dia que me levantei de madrugada para ir à casa de banho e cai», lamenta.

No final do ano passado, foi tornado público que a Pousada da Juventude de Alvados iria também «albergar profissionais de saúde» que «necessitassem de fazer quarentena» e que, no limite, poderia funcionar como uma estrutura de «segunda retaguarda» para albergar doentes que o Seminário de Leiria já não conseguisse suportar. O Portomosense falou com a responsável pela Pousada, Joana Mendes, que afirmou que, até esse momento, o espaço ainda não recebeu ninguém.