Foto: Raquel Carreira

Em 1982, Porto de Mós via nascer o seu primeiro centro comercial. Uma grande inovação, à época, nascia «na rua principal, comercialmente falando», a Rua 5 de outubro. Assim nos explicou Mariazinha Martins, antiga comerciante que, ainda antes de existir o Centro Comercial 82, tinha já uma loja naquele espaço e que, depois da abertura, teve também um espaço seu, desta feita, de decoração.

«Um centro comercial era uma novidade», lembra, e «no princípio, funcionou muito bem mesmo, as lojas abriram todas». Entre os comerciantes «não havia guerras», mas depois «algumas pessoas começaram a sair» e «nunca mais ninguém pegou» naquelas lojas. Hoje, há apenas duas lojas em funcionamento, uma florista e um café, e Mariazinha Martins diz que «as pessoas parece que têm medo» daquela rua. «A [rua] 5 de outubro está morta porque as pessoas que lá estiveram estabelecidas ou morreram ou foram para outro lado», considera.

Na sua opinião, a saída da farmácia para a Avenida da Igreja foi a primeira grande “machadada” no Centro Comercial: «Dava um movimento muito grande. Toda a gente conhecia a rua da farmácia». Além disso, «havia ali também a casa-velório… A rua tinha muito que fazer». Agora, «ficou deserta» e Mariazinha Martins questiona-se: «Quando é que esta rua se levanta outra vez?».

A antiga lojista sente-se também com alguma culpa pelo início da degradação do Centro Comercial. «Fui a primeira “nega”», diz. «Estive lá talvez uns três ou quatro anos. Foi para a loja em frente à minha um vendedor de discos, e para fazer reclame ao que vendia, punha música muito alta. Eu não aguentava aquela música todo o dia e, como tinha outra loja noutra rua, mudei-me», conta. «Talvez o meu passo de mudar para o outro lado não tenha ajudado. As pessoas consideravam-me com bom gosto e jeito para o comércio. E eu, uma pessoa que podia ajudar ali, fui para outra rua. Sinto, hoje, que talvez tivesse feito mal [ao Centro Comercial]», afirma. «Tenho muita pena de não poder dizer coisas bonitas acerca daquele centro», conclui.

A decadência do comércio de rua

Uma visão mais pragmática tem Rogério Almeida, fotógrafo, que além de cliente habitual, teve também uma loja no espaço. «Na altura justificava-se, porque não tinha a concorrência dos grandes centros comerciais, dos shoppings, não havia nada disso, o comércio de rua é que funcionava», diz. Considera por isso que, hoje, «dar a volta é difícil» e que a anunciada morte do comércio de rua é um problema «extensivo às grandes cidades». «A saída da farmácia também teve alguma influência, mas hoje, quem vai à farmácia, vai de carro, estaciona, avia-se e vai embora. Não é aquela pessoa que vai a pé para depois ir às lojas», afirma.

Na opinião de Rogério Almeida, o Centro Comercial 82 decaiu «porque não há gente. Se se fizer um estudo sobre a população de Porto de Mós, há muita gente cujos filhos foram para outras terras trabalhar. Estudaram, tiraram os seus cursos e aqui não há emprego para essa gente». «Porto de Mós tem um comércio que está condenado. Tem pouca gente porque não tem aqui nada para captar emprego», afirma. A par disso, Rogério Almeida considera que Porto de Mós não tem também nenhum atrativo a nível turístico, que possa chamar pessoas e movimentar comércios, restauração ou serviços.

Café é um dos dois estabelecimentos ainda a funcionar

Tanto Mariazinha Martins como Rogério Almeida são clientes habituais do café, aberto desde o começo, que ainda se mantém no Centro Comercial, apesar de ter tido várias gerência. Irina Khrobatyn é quem explora, há oito anos, o espaço. Ucraniana, veio para Portugal em 2001 e depois de passar por diferentes empregos, viu-se sem trabalho e procurou outras opções. Por ser altura de crise, não conseguiu e percebeu que uma escapatória possível seria abrir o seu próprio negócio.

Quando questionada sobre o porquê de ter escolhido aquele local, diz que a resposta é simples: «Precisava de trabalho. Já tinha tido uma experiência num café e como tinha gostado, pensei em abrir o meu», lembra. Foi junto de um agente imobiliário que encontrou aquele espaço. «Quando vi, percebi que era mesmo pequeno, não tinha luz, mas não pensei muito, porque precisava mesmo de trabalho», afirma.

Logo que abriu o negócio, procurou «fazer um contrato com uma marca de café» que lhe fizesse um letreiro luminoso para colocar no exterior do Centro Comercial «para ajudar a chamar pessoas». Além disso, «sempre que está bom tempo», coloca «uma mesa e cadeiras na rua para mostrar que há ali um café» e «ainda hoje» há pessoas que entram e que dizem que não conheciam o espaço. Quando começou a gerir o café, havia ainda algumas lojas abertas, mas pensa que não era daí que vinha a maioria dos seus clientes que, ressalva, se têm mantido ao longo dos anos. Tem clientes fiéis, como os bombeiros ou os moradores do prédio, mas também atende pessoas que se deslocam à fisioterapia ou que estão de passagem pela rua. E, entre risos, afirma, que se outras lojas abrissem, haveria sempre mais gente a ir ao seu estabelecimento. Considera que este é um «café de dias úteis», uma vez que é mais frequentado por pessoas que passam pela rua nos intervalos dos seus trabalhos ou quando se deslocam a algum serviço, aberto apenas durante a semana, como a fisioterapia ou os CTT.

E como corre o negócio num Centro Comercial praticamente vazio? «Quando comecei foi bom, depois houve uns tempos complicados em que até pensei em fechar, mas como o país estava em crise, pensei que talvez não conseguisse arranjar trabalho noutro sítio. Fui aguentando. Depois disso, melhorou um pouco e, ultimamente, tem-se mantido», responde. «Há dias melhores, outros piores, mas enquanto der para pagar as despesas e levar algum dinheiro para casa, vai valendo a pena», afirma, concluindo que «não tem razões de queixa». Irina Khrobatyn ressalva que gosta de «tratar bem as pessoas, de ter coisas frescas» e de «servir como gostava que servissem» os seus filhos, noutros estabelecimentos.

A par da florista, Irina Khrobatyn é uma das resistentes. No entanto, que futuro terá este Centro Comercial? A opinião de Rogério Almeida é que «quando aquelas fecharem, não vai para lá mais ninguém». Já Mariazinha Martins gostava que aquele espaço ganhasse outra vida e a sua convicção é que a única solução será a mesma pessoa comprar toda a área e dinamizá-la em “uníssono”. Quanto a Irina Khrobatyn, enquanto puder, vai manter o seu negócio.

Na próxima edição, vamos conhecer a história de outro centro comercial do concelho. A nossa “caravana” dirige-se para Mira de Aire, para conhecer o Centro Comercial Palmeira.