Foto: Catarina Correia Martins

A 30 de junho de 1989 era inaugurado o Centro Comercial Jardim (CC Jardim). Situado na Avenida de Santo António, o segundo centro comercial a abrir na vila de Porto de Mós tinha ao dispor dos comerciantes 42 lojas, de tamanhos diferentes, divididas por dois pisos, com a peculiaridade de ter uma cobertura transparente, que permite a entrada em abundância de luz natural, e com direito a porteiro para todo o espaço. Hoje, restam menos de duas dezenas de lojas abertas, outras ainda ocupadas, mas sem atividade. O espaço, mesmo com quase 31 anos, «está cuidado», mas, aparentemente, não é atrativo para os comerciantes.

Fátima e Martinha Morgado, irmãs, proprietárias de um cabeleireiro desde 1990, têm uma das lojas abertas há mais tempo ininterruptamente. Na altura, optaram por abrir o salão naquele espaço porque era «o que estava mais atual» e «não havia muitos espaços» que pudessem comprar. Durante todos estes anos, mantêm os clientes e dizem que não sentiram «a diferença à medida que as outras lojas foram fechando», facto que atribuem a trabalharem «num ramo diferente» e a terem «fidelizado os clientes».

Martinha Morgado não consegue encontrar uma razão clara para haver tantas lojas fechadas, no entanto afirma que «são muito pequenas e grande parte delas pertencem a pessoas que, na altura, compraram, já tinham meia idade ou mais, porque tinham dinheiro para investir. Depois, com lojas tão pequenas, começaram a pedir rendas muito elevadas». Além disso, explica Fátima, «quem quer abrir [um negócio] agora, tem tendência para ir para lojas de rua, por terem mais visibilidade». «Se não há muita coisa aberta no centro comercial, perde-se um bocado o ritmo de ir aos sítios», afirma. No entanto, para as irmãs esta é uma realidade que se verifica «de norte a sul do país, até em sítios mais movimentados que Porto de Mós, em cidades»: «Este tipo de centros comerciais o que tem? Um sapateiro, uma costureira, uma florista, um cabeleireiro… O mesmo que tem este aqui», conta Fátima Morgado.

A acrescentar a estes fatores, há outros que, na opinião de Fátima condicionam a opinião de quem visita o CC Jardim: «As pessoas não são muito cuidadosas, encerram definitivamente a loja e deixam o lixo todo lá. Têm a loja fechada, têm lá meia dúzia de coisas, não limpam não arrumam…», conta. «Temos aqui um problema com os miúdos da escola, passam aqui muito tempo, fazem lixo, não respeitam o espaço, vêm comer, deixam caixas no chão, cinza, fumam cá dentro, como é [um espaço] reservado, não se vê na rua», afirma.

Nenhuma das irmãs acredita que o CC Jardim possa voltar à vida que teve nos primeiros 10 anos de atividade. No entanto, Fátima Morgado deixa uma sugestão: «Não sei se os donos das lojas estão dispostos a isso, mas há pessoas que são pintoras, por exemplo, que podiam ter aqui exposições, pelo menos a loja estava limpa. O dono emprestava a loja ou alugava por um valor simbólico, a pessoa limpava a loja e tinha a sua exposição, de pintura, artesanato… Não quer dizer que estivesse aberto, mas estava lá dentro e tinha os contactos [dos artistas]».

“Já esteve pior”

Nelson Pereira, sapateiro, é o comerciante, que ainda se mantém, há mais tempo instalado no CC Jardim. «Praticamente até ao ano 2000, esteve tudo ocupado. Depois é o ciclo dos centros comerciais em que as grandes superfícies vieram tirar um bocado o movimento, apesar de que este centro comercial continua a trabalhar relativamente bem», refere. Nelson Pereira conta ainda que este foi «o segundo centro comercial de Porto de Mós e o primeiro local onde se podia comprar pão quente na vila». «Isto era uma vida completamente diferente, deu um movimento muito grande», lembra. Por estar no centro da vila e perto do local onde, à sexta-feira, se realiza a feira, Nelson Pereira recorda também que, «há uns anos, notava-se perfeitamente quando os autocarros chegavam. Hoje, as pessoas vêm a Porto de Mós ou vão a outro sítio qualquer, em qualquer dia da semana, a sexta-feira já não é como antes».

Na opinião do sapateiro, o CC Jardim «já esteve pior», considerando que «está a voltar a ter mais comerciantes» e lembrando os estabelecimentos que têm aberto recentemente, como é o caso de uma esteticista, o café e um escritório, no primeiro andar. Também a «loja das tatuagens veio dar um ânimo muito bom, trouxe muita gente nova, de fora e veio dar um movimento grande ao centro comercial».

A aposta no comércio tradicional

Carolina Macedo é tatuadora e responsável pela loja do CC Jardim, onde se podem fazer tatuagens. Aberta há quase três anos, conta que escolheu este espaço por várias razões: «Trabalhava em Leiria e fora da cidade e havia muita gente aqui da zona que ia para Leiria à procura [deste serviço]. Além disso, tinha muitos clientes de Lisboa e achei interessante escolher um sítio que fosse mais pacato, procurava uma coisa completamente diferente da cidade. Estava a ver Porto de Mós a desenvolver-se e as pessoas a tentarem não fugir tanto para as cidades grandes à procura de serviços e achei que era um bom ponto de partida», explica. Quis também apostar «no comércio tradicional que se estava a perder». Assume que «foi um tiro no escuro, porque podia não ter corrido assim tão bem», no entanto os clientes que já tinha e que sabia que «iam atrás» do seu trabalho, deram-lhe a segurança suficiente para arriscar.

O estabelecimento que foi, na sua opinião, de alguma forma, uma “pedrada no charco”, causou alguma estranheza «às pessoas aqui da zona, especialmente as mais velhas». «Às vezes ficam ali a olhar, acho piada, vou à porta e digo: “Pode entrar, pode ver, ninguém vai picá-lo, aqui é preciso pagar para ser picado”, brinca Carolina Macedo. Hoje «já começam a achar alguma graça» e já há «pessoas mais velhas a fazer [tatuagens]».

Além de conquistar os portomosenses, Carolina Macedo manteve os seus clientes e angariou novos «do país inteiro». Muitas dessas pessoas «nem conheciam Porto de Mós e, quando vêm, gostam muito». Há até quem venha «dormir na zona para tatuar no dia seguinte», revela.

Um feliz acaso

Stéphanie Carvalho, natural do Alqueidão da Serra, profissional da estética, é a mais recente “aquisição” do CC Jardim. Com espaço aberto desde o início do mês, o CC Jardim não foi propriamente uma escolha: «Tive de me vir embora de repente do sítio onde estava, levei tudo para casa. Depois, em conversa com uma amiga, falou-se do centro comercial, também estava a abrir a cafetaria, mesmo em frente a esta loja, e achei que podia ser um bom sítio», afirma Stéphanie Carvalho que, por questões de espaço, vai entretanto mudar de loja, mas manter-se no centro comercial. É claro que estar naquele local «é diferente de estar numa loja de rua», mas nessas «as rendas são muito mais caras».

Confessa que, antes de abrir o seu espaço, pensou que o CC Jardim «estivesse mais calmo» do que, na verdade, está. No entanto considera que esse movimento não aumenta o seu número de clientes: «Não é por isso que temos mais negócio ou deixamos de ter. As pessoas sabem que eu estou aqui e vêm cá por isso. Não noto que venham cá para ir a outra loja e, de repente, apareçam aqui. Isto não é um shopping onde as pessoas vão passear para ver o que há», conclui.

E o Centro Comercial As-Tiago no Juncal, será que é um desses? Qual será a vitalidade que ainda tem? Na próxima edição, atravessamos o IC2 e vamos até ao centro de uma das três vilas do concelho de Porto de Mós, o Juncal.