Círculo Cultural Mirense: O que dizem os homens das mulheres…

26 Março 2026

Texto

Isidro Bento

Artigo disponível na edição em papel d'O Portomosense e para assinantes digitais.

Do que falam os homens quando falam de mulheres? Depende dos homens e do contexto em que tudo acontece. No caso da conversa promovida pelo Círculo Cultural Mirense, para assinalar o Dia Internacional da Mulher falaram de muitas coisas mas sempre em tom respeitoso, elogioso até, e a realçar os pontos em que as mulheres se evidenciam. Como se referiu, com humor, no dia seguinte, em idêntica tertúlia, mas agora só com mulheres como oradoras, os cinco homens convidados tiveram particular cuidado na abordagem do tema. Se algum tinha “queixas” sobre a forma de ser das mulheres, guardou-as para si e até se percebe, dizia alguém: «Além do dia ser delas, estando os homens em minoria na sala lembra o mais elementar bom-senso e a sabedoria popular que “cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”».

Humor à parte, a tertúlia Homens a falar de Mulheres deu pano para mangas, não porque, como se referiu atrás, os convidados tivessem arriscado “pôr o pé em ramo verde”, recorrendo a outra expressão popular, mas por todos terem muito para dizer sobre um tema que qualquer um deles, mesmo assim, admitiu ser complicado. A tertúlia que juntou, no Clube União Mirense, o empresário, Luís Micaelo, o escritor e cronista, Sérgio Guerreiro, o financeiro, João Diogo Santos, o treinador de futsal, André Pereira, e o comandante dos Bombeiros de Mira de Aire, Hélder Gonçalves, durou mais de duas horas terminando já de madrugada. Jorge Vila Verde, o moderador de serviço, bem disposto e fazendo jus à profissão de advogado, ainda fez uma ou outra pergunta mais “complicada” mas os elementos da tertúlia não se deixaram apanhar. Não se esteve sempre no registo politicamente correto, mas a imagem da Mulher também nunca saiu beliscada nas suas múltiplas vertentes, muito pelo contrário.

Tertulia Mulheres Circulo Cultural Mirense Isidro Bento | Jornal O Portomosense

No dia seguinte, mudaram-se os oradores e o local, tendo-se mantido o tema. A tertúlia Mulheres a falar de Mulheres teve lugar na Casa da Cultura, em Mira de Aire, e desta vez foram chamadas à liça cinco mulheres: Sara Santos (com formação em terapias não convencionais), Isolda Rosário (empresária), Maria José Vieira (jovem dirigente nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”), Cristina Vila Verde (advogada, com forte ligação ao movimento associativo) e Fernanda Mendes (senhora com 88 anos de idade).

No início da tertúlia, Sara Leitão fez uma apresentação sobre a Mulher em Portugal e no mundo, em diversas áreas e dimensões. Depois entrou-se no espaço de tertúlia propriamente dito, conduzido pela presidente da direção do Círculo Cultural de Mira de Aire, Magda Reis.

Algumas perguntas coincidiram em termos genéricos com as dos homens mas as respostas foram, naturalmente, diferentes. Outra grande diferença é que embora o “palco” tenha sido para as convidadas, a dada altura, e como Magda Reis já preconizara, a conversa acabou por se generalizar à plateia. Das cerca de dezena e meia de mulheres presentes terão sido poucas, se é que houve alguma, aquelas que ficaram de fora da conversa. Umas mais que outras acabaram por enriquecer a tertúlia com achegas assentes na sua vida pessoal e naquilo que pensam sobre os assuntos colocados em cima da mesa ou que lá chegaram pelo desenrolar normal da conversa. E aqui tanto foi apreciada a opinião da jovem “de 20 anos”, como da senhora, já avó, “de 80 anos”.

O número de homens que marcaram presença foi bastante reduzido mas, mesmo assim, isso não impediu um deles, um cidadão estrangeiro, de dar também a sua opinião e esta, como todas as outras, foi bem recebida.

As mulheres vistas pelo olhar dos homens…

 

– As mulheres decidem melhor, pensam mais nas coisas. São tudo menos fraquinhas ou “mariquinhas”. Por vezes sofrem muito mais mas recuperam mais rápido.
– Há mulheres muito competentes, assim como há o contrário. A diferença que se nota é ao nível da sensibilidade do toque feminino, humano, e do tal sexto sentido mas também há algumas desprovidas disso.
– As mulheres têm a tendência para serem mais protetoras, para sentirem mais as dores dos outros, portanto, quando se juntam num grupo não será por mal mas por se sentirem mais seguras.
– Um homem aceita uma tarefa sem mais questões, já uma mulher diz que não sabe se vai conseguir mas vai tentar.
– As mulheres estão no futebol porque amam aquilo enquanto que muitos homens é mais pelo dinheiro. Uma mulher questiona muito mais que um homem porque ficou no banco ou determinada decisão do treinador ou do árbitro. No futebol são capazes de fazer exatamente o que os homens fazem, só que recebem muito menos e têm menos oportunidades porque ainda se investe pouco no futebol feminino.
– A mulher julga o homem pelo crescimento numa parte que ele nunca percebeu que devia crescer: na humanidade, na empatia, no poder chorar e poder abrir-se sem qualquer tipo de vergonha e pudor.
– Para percebermos um bocadinho do universo feminino é preciso também saber calçar os sapatos delas.
– As mulheres estão a aproveitar muito bem o empoderamento e a liberdade que têm de fazer o que quiserem da sua vida.
– As quotas não deviam existir mas o sistema legal tem de responder àquilo que a sociedade não responde e enquanto houver tanta discriminação faz sentido manter as quotas para as mulheres.
– A valorização da mulher, conseguida nas ultimas décadas, está em risco com as gerações mais novas.
– As mulheres tendem a decidir melhor que os homens embora estes sejam mais rápidos a tomar decisões. Por seu turno, elas demoram mais tempo a resolver os conflitos.
– A mulher quando diz que está tudo bem, quer dizer exatamente o inverso. Não está nada bem mas ela entende que não tem de explicar, é o homem é que tem de perceber o que se passa.
As mulheres nunca se esquecem de nada.
Neste momento o maior problema das mulheres são os homens.

O que dizem as mulheres… das mulheres?

 

– As mulheres são mais minuciosas, pensam em todos os pormenores, esquematizam. Querem fazer as coisas melhor, com mais cuidado. Há sempre algo a acrescentar. Esse cuidado também tem a ver com o facto de ainda, em muitas situações, terem de provar que efetivamente tem capacidade de fazer e bem feito.
– Nós vivemos numa “bolha” protegida e quando nos lembramos que em alguns países há meninas a casar aos sete ou aos oito anos de idade e a ter filhos aos 10, ou que há mulheres que vivem tapadas dos pés à cabeça ou outras que durante o seu período menstrual são afastadas das restantes pessoas, percebemos que, afinal, ainda se justifica assinalar o Dia da Mulher.
– A igualdade está consagrada na Constituição mas 50 anos depois continua por cumprir e essa é uma luta que não pode ser só das mulheres.
– As quotas para mulheres no trabalho e na política são um “penso rápido” porque o que interessa são soluções duradoras, de longo prazo. Se forem criadas as devidas condições as quotas acabam por deixar de fazer sentido e extinguém-se por elas.
– As mulheres ainda encontram muito assédio no trabalho e na escola e só agora começaram a entrar no mundo da tecnologia porque antes não se sentiam confortáveis num ambiente completamente masculino.
– As mulheres são seres com as mesmas faculdades e capacidades que os homens portanto devem ter tratamento igual.
– Se meninos e meninas brincassem com as mesmas coisas não haveria tanto preconceito e tanta diferença entre homens e mulheres.
– Não é obrigatório que a mulher tenha sempre sucesso. É obrigatório que tenha as mesmas condições para viver a sua liberdade.
– As mulheres precisam de ter uma rede de apoio porque muitas vezes além do seu trabalho têm de cuidar dos filhos e dos pais.

Fotos | Isidro Bento

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