Não gosta de rótulos, nem de ser considerado artista plástico e a justificação é simples: aquilo que faz é tão vasto que, acredita, não pode ser reduzido a uma única definição. Aliás, Rui Basílio (ou simplesmente Basílio) confessa que ainda hoje a sua maior dificuldade é caracterizar o seu trabalho e talvez por isso ainda não tenha conseguido encontrar uma definição que encaixe na perfeição. Considera até provável que nunca a venha a encontrar, mas não se importa, é feliz assim.

Apesar desta indefinição quanto à sua profissão, a verdade é que depois dos trabalhos com que nos tem presenteado nos últimos tempos já restam poucas ou nenhumas dúvidas sobre a habilidade e versatilidade de Basílio que não se coíbe de recorrer a técnicas e tipos de materiais diferentes. Trabalhos de uma criatividade gigante que impressionam até os mais céticos. Mãos Divinas, a pintura feita em redor da torre dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós; Cantoneiros, um projeto concebido através de calçada portuguesa; Caboqueiro, realizado no festival Stone Art e, mais recentemente, Muros de Pedra Seca um mural criado junto ao miradouro de Chão das Pias, são apenas alguns exemplos de trabalhos da sua autoria que se observam em Porto de Mós. Mas o seu portfólio é bastante mais vasto. Engloba também projetos de interior, além de outros feitos em desenho e que podem ser vistos na página basílio.pt.

Viver permanentemente na “zona de desconforto”

Nasceu em Évora mas quis o destino que a sua vida passasse por Porto de Mós, para onde se mudou quando tinha apenas 3 anos, e onde tem o seu ateliê. Hoje, aos 31 anos, Rui Basílio é aquilo a que se pode chamar de artista completo, de uma versatilidade fora do normal. Um eterno perfecionista que, por não ser especializado em nenhum tipo de material, vive permanentemente fora da sua zona de conforto. «Acordo todos os dias preocupado sobre o que se vai passar hoje e deito-me ansioso para ver o se vai passar amanhã», desabafa.

Para quem esteja do lado de fora, facilmente se questiona sobre como é que alguém consegue viver assim mas a realidade é que Basílio já não sabe viver de outra forma. Tem-se adaptado à «zona de desconforto»: «Para todas as pessoas que optem por esse estilo de vida profissional acaba por ser natural. É exigente e rigoroso no dia a dia mas depois olhamos para trás e num curto espaço de tempo consegue-se ver evolução», reconhece.

A cada novo desafio, a reação é sempre a mesma: «Porque é que me meti nisto?», confessa, entre risos. Mas rapidamente essa expressão de inquietação dá lugar a uma série de ideias que pretende colocar em prática. Embora possa causar estranheza, Basílio assume que essa dificuldade inicial faz parte do seu processo criativo e que já está intrínseca à sua forma de abraçar cada projeto. «Acredito que é aí que esteja a diferença porque a maioria das pessoas talvez não se submeta a essa exigência e no final, em princípio, não surge um trabalho tão primoroso», realça.

E quem pensa que artista que se preze tem logo uma boa ideia, desengane-se. Aliás, ela até surge mas essa é a que «a maior parte das pessoas iria ter» e que, por isso, é logo excluída. «É a partir daí que a ideia vai sair “fora da caixa” e se consegue marcar um bocadinho a diferença», explica.

“Sempre tive o bichinho dentro de mim”

Era ainda gaiato (como se diz no Alentejo) quando a sua mente começou a despertar interesse para tudo o que estava ligado às artes e, ainda hoje, Basílio recorda um episódio «curioso» que sustenta isso mesmo. «Fugi dos meus pais na praia, estive desaparecido uma hora e durante esse tempo estive a ver uma escultura», conta. «Essa situação fica na memória não só pelo susto mas também por uma criança que ficou uma hora quieta a olhar para alguém que estava a fazer esculturas. Agora apercebo-me que sempre tive esse bichinho dentro de mim», acrescenta.

Frequentou o Instituto Educativo do Juncal e já nessa altura eram as disciplinas que envolviam a vertente artística que mais o fascinavam e onde tirava as melhores notas. Chegado ao fim do ensino secundário, Basílio não teve dúvidas sobre o percurso que queria seguir. Inscreveu-se na licenciatura em Design Industrial na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, a que se seguiu um mestrado em Design de Produto, ainda por terminar. A decisão de deixar esse plano em stand-by não se deveu ao desinteresse, muito pelo contrário. «Tentei arranjar trabalho porque sentia-me um bocadinho inútil na sociedade», recorda.

Passou a fazer parte do setor dos Moldes mas nem por isso se desligou da sua verdadeira paixão. «Quase todos os dias antes de me deitar gostava de desenhar, era uma forma de sair da rotina», recorda. Hoje, olhando para trás, pensa que talvez cometeu um erro em não concluir a tese de mestrado mas, por outro lado, reconhece que nessa altura «não estava maduro o suficiente» para terminar esse capítulo da sua vida académica. «Sinto que quando voltar à tese irei ter uma bagagem muito superior àquela que iria conseguir ter na altura», considera.

“Sei onde quero chegar”

Ao longo do tempo em que esteve a trabalhar, foram surgindo «novos pontos de interesse» e com eles novas oportunidades de mostrar o seu trabalho e há dois anos Basílio decidiu embarcar numa aventura por sua conta e criar o seu ateliê na Fonte do Oleiro. Tem consciência de que não trabalhar numa cidade é mais um desafio que tem de enfrentar, a juntar aos muitos com que um artista ainda hoje tem que saber lidar. «Há muita gente que pensa que se não temos profissões convencionais, não trabalhamos ou andamos a brincar com a vida e não sabem que se calhar estive 12 horas à frente de um computador a trabalhar num projeto», frisa.

E planos para o futuro? «Quero tentar ser um dos artistas portugueses mais requisitados e mais falados com um tipo de trabalho melhor», responde. Outra das ambições é criar mais postos de trabalho – atualmente conta com uma pessoa – mas sem «massificar». «É um passo de cada vez mas sei onde quero chegar», conclui.