Durante três anos e sete meses, ininterruptamente, Dina Limas não viu televisão, não ouviu rádio, não participou em casamentos, nem frequentou festas. Estava de luto. Primeiro pelo pai, depois pela mãe e por último pelo irmão. Na comunidade cigana, da qual faz parte, o luto ainda é uma das tradições mais importantes. Acredita-se na vida após a morte e continuam a ser seguidos rituais em homenagem aos mortos. Por isso, ao longo do período que esteve a cumprir o luto, não havia espaço para diversão ou lazer. A força do luto sobrepunha-se a qualquer coisa. A sua vida passou a resumir-se à casa e ao local de trabalho e durante esse tempo o seu dia foi sempre dividido dessa forma. «Ia da feira para casa e de casa para a feira. Eram os únicos sítios para onde ia», recorda.

Embora com o passar do tempo o luto na etnia cigana tenha sofrido algumas mutações, ainda continua a ser bastante rigoroso, principalmente nos casos em que morre o pai, a mãe ou um irmão. “Carregar o luto” de alguém «mais chegado» significa vestir vestes negras e compridas, em que «só vê a cara e as mãos» e o resto está «tudo tapado». Dina Limas, de 54 anos, descreve todos os pormenores da indumentária da mulher nesses casos: «Usávamos sapatilhas pretas, meias de homem e saia sem bainha. Vestíamos camisas de homem mas tirávamos-lhe o colarinho e púnhamos um cós. Nas mangas tínhamos também um punho da camisa de homem que retirávamos e colocávamos um elástico. Usávamos também um lenço, uma echarpe, até às costas». Já os homens, até fazerem o luto, não podem cortar a barba e têm de usar um chapéu.

No seio da comunidade cigana, ainda hoje a duração do luto depende da proximidade com o falecido. O luto pelo marido ou pelo filho, por exemplo, costuma durar a vida inteira da viúva ou da mãe. «Cumpri dois anos pelo meu pai, um ano pela minha mãe e sete meses pelo meu irmão. Foi tudo seguido», lembra. Por outro lado, há casos em que não existe uma grande ligação com os familiares falecidos e a pessoa opta por não manifestar o seu luto, uma opção que é vista de forma natural pelos restantes elementos da comunidade. «Se for uma prima ou tio já afastados podemos não pôr luto. Ainda há pouco tempo faleceram-me três tios e eu não pus», afirma.

Dentro da etnia cigana, o processo de luto já não é visto da mesma forma pelas novas gerações. Dina Limas reconhece que muita coisa tem mudado nos últimos anos. Atualmente, as regras estão mais flexíveis «cada qual cumpre como quer e gosta». «Agora é outra geração, é diferente. Os mais novos já não mantêm isso. Por exemplo, podem andar um ano, no máximo, ou há quem nem ponha luto», explica.

(Este artigo faz parte do Suplemento Requiem da edição 956 d’O Portomosense)