Há «cerca de três semanas» que os utentes de saúde do concelho de Porto de Mós estão praticamente à mercê de si mesmos no que diz respeito ao acompanhamento prestado pelas autoridades de saúde locais. Desde essa altura que a Delegada de Saúde de Porto de Mós, Lourdes Costa, está de baixa médica e também o enfermeiro de saúde pública se encontra na mesma situação. À confirmação destas ausências, feita a O Portomosense, pelo presidente da Câmara, Jorge Vala, junta-se a denúncia de que, em plena pandemia, existem utentes a serem “esquecidos”: «Às vezes são as próprias pessoas que nos ligam, desesperadas, a dizer: “Estou positivo há uma semana e ainda ninguém me ligou”». A revelação feita pelo autarca vem acompanhada de um sentimento de «completa impotência» provocado pela incapacidade de resolver o problema, por ser uma matéria que não faz parte da sua competência.

Nos últimos tempos, o problema da ausência de médicos de saúde pública tem sido transversal a quase todos os concelhos do Agrupamento de Centros de Saúde (ACeS) do Pinhal Litoral: dos cinco Municípios que o compõem, três estão sem esta autoridade. Além de Porto de Mós, a “lista negra” é composta por Pombal, cujo Delegado de Saúde pediu exoneração do cargo e Batalha que está igualmente sem o seu médico, que se encontra de baixa médica «há mais de um mês». Esta última é uma ausência não só com consequências para o próprio município, como para Porto de Mós porque se anteriormente quando faltava o Delegado em Porto de Mós, este era substituído pelo da Batalha e vice-versa, agora devido à ausência de ambos, essa “substituição” torna-se impossível. «A situação não é nova mas começa a ficar fora de controlo porque ninguém resolve e o problema agudiza-se», frisa Jorge Vala, adiantando que apesar das tentativas, não existe para já uma solução à vista. «Até agora não temos qualquer substituto. Temos estado a tratar diretamente com os responsáveis de saúde do ACeS Pinhal Litoral, mas de uma forma muito distante. Estamos numa situação praticamente sem ninguém», lamenta o autarca.

Apesar de reconhecer que a linha SNS24 está a responder «dentro dos possíveis» àquelas que são as necessidades da população numa fase inicial de um eventual diagnóstico de COVID-19, Jorge Vala alerta que o restante acompanhamento é uma competência da equipa da autoridade de saúde local e que esse processo poderá não estar a ser feito da forma mais adequada. «Quando os casos eram menores, o ACeS que tem cerca de 300 mil pessoas, já tinha dificuldade, agora com meia dúzia de profissionais a fazer rastreio, acompanhamento e redes de contacto é fácil perceber que haverá muita coisa que irá ficar para trás», adverte.

Entretanto, a deputada à Assembleia da República, Olga Silvestre, já questionou a Ministra da Saúde, Marta Temido, sobre a ausência da Delegada de Saúde de Porto de Mós relatando que existem utentes com sintomas de COVID-19 a ligar para o centro de saúde e que «ou não atendem, por falta de pessoal administrativo, ou de equipamento». E acrescenta que quando o fazem, «reencaminham para o médico de família, onde referem que é um assunto de saúde pública», ou seja, uma questão que «esbarra com a falta de Delegado de Saúde».

“Não havendo controlo sobre a rede de contactos, isto cresce rapidamente”

Durante a conversa que teve com O Portomosense, o presidente da Câmara de Porto de Mós fez questão de enfatizar aquele que é hoje um grave problema no combate à pandemia: a escassez de informação detalhada sobre a situação epidemiológica em Portugal. Se numa fase inicial, as autoridades de saúde cediam dados concretos sobre doentes infetados pelo novo coronavírus, passado pouco tempo estes deixaram de ser disponibilizados. Razões de confidencialidade e proteção de dados foram duas das justificações apresentadas para não serem mais divulgados. «Nós não conseguimos ter acesso a qualquer tipo de informação. Somos chamados para tanta coisa na área da saúde, mas nem para saber de que freguesia são os novos infetados temos acesso», lamenta.

Na perspetiva do autarca portomosense, uma vez que tanto as autoridades de saúde como as forças de segurança têm acesso aos dados, o presidente da Câmara também «deveria ter» porque, segundo justifica, essa seria uma forma de o Município poder dar apoio aos munícipes diagnosticados com o SARS-CoV-2, tal como aconteceu no início da pandemia. «Se nós soubéssemos, rapidamente oferecíamos a nossa ajuda porque foi isso que se fez na primeira fase. Nessa altura, tivemos os presidentes de Junta a satisfazer as necessidades da população que ficou em isolamento», recorda. É precisamente por saber que nessa altura a estratégia «funcionou tão bem», que Jorge Vala hoje confessa sentir-se «impotente» por o Município ser «completamente alheio» à situação e não conseguir fazer aquilo que gostaria.

Perante uma «falta de informação absoluta», o presidente da Câmara garante que «não havendo controlo sobre a rede de contactos, isto cresce rapidamente» porque, no seu entender, estas redes são «fundamentais para travar a propagação do vírus», assim como «evitar que os contágios aumentem». «O problema é de tal forma dramático que as pessoas, eventuais contactos positivos assintomáticos, andam na rua, não estão identificadas como tendo sido contactos e andam a espalhar o vírus», conclui.

Até à data do fecho da edição, O Portomosense tentou obter um esclarecimento por parte da coordenadora da Unidade de Saúde Pública Pinhal Litoral e da Administração Regional de Saúde do Centro mas não obteve resposta.