Nesta fase em que muitas das famílias viram os seus rendimentos reduzidos, seja por redução do ordenado, devido à entrada de muitas empresas em regime lay-off, seja por desemprego, ou até porque possuíam um negócio próprio que se viram obrigados a fechar, os grupos sócio-caritativos têm sido a “bóia de salvação” de muitas casas. No concelho de Porto de Mós, há vários grupos de apoio, entre eles três Conferências de São Vicente de Paulo. Normalmente, o apoio que dão é mais abrangente, no entanto, nesta altura, apenas se têm focado na distribuição de bens de primeira necessidade, sobretudo alimentares, numa parceria com o Banco Alimentar e com a Câmara Municipal.

Fátima Pereira é a responsável do grupo da Calvaria de Cima e o retrato que traça é de «muita dificuldade em corresponder a todas as chamadas». Já em tempos “normais”, o grupo, considera, tinha «sobrecarga», mas agora a situação está «pior ainda». Neste momento, as famílias não estão a receber apoio todos os meses: «Onde há crianças, tentamos ir quase todos os meses, às restantes, vamos mês sim, mês não», explica Fátima Pereira.

A responsável garante que não têm muitos pedidos além dos habituais, no entanto nessas famílias há a agravante de as crianças estarem em casa: «Uma família com três crianças, por exemplo, que comiam na escola sem pagar, agora tem-nas a comer em casa», explica. «As pessoas mais organizadas conseguem fazer render mais os produtos, as outras não», ressalva, acrescentando que pede «sempre», às entidades que cooperam, «grão e feijão, porque com um bocado de arroz já são uma refeição, quando não há carne». Além disso, quando faz a distribuição aproveita sempre para «dar dicas de como podem confecionar e combinar os alimentos», porque nem toda a gente «tem cabeça para gerir a quantidade de alimento que leva».

«Na Conferência, a nossa atividade principal é a parte espiritual, porque isto é um grupo da Igreja, mas não podemos falar em Deus a uma pessoa que tem a barriga cheia de fome», afirma Fátima Pereira. É por isso que fazem este trabalho voluntariamente, todavia as ajudas têm escasseado: «Trabalhamos normalmente em parceria com o Pingo Doce. Ao sábado e ao domingo eu ia lá buscar os alimentos que terminavam a data de validade e entregava no próprio dia, porque são alimentos que requerem frigoríficos. [Nesta altura] até isso nos falhou», revela, reiterando que a maior dificuldade é mesmo a «muita procura e pouca oferta».

Falta de voluntários preocupa grupos

Em Porto de Mós, a dificuldade é outra: a falta de voluntários, algo que é sempre uma necessidade mas que nesta fase se tem agravado uma vez que as pessoas que compõem o grupo «já têm muita idade, têm medo e não saem de casa». Regina Santos, responsável pela Conferência da freguesia sede de concelho, esclarece, no entanto, que para se ser voluntário neste grupo é preciso ter três características fundamentais: «Estar ligado à Igreja; ter espírito de voluntariado; e têm de ser pessoas que não sejam de ouvir aqui e dizer acolá», refere.

A responsável, que tem assegurado sozinha toda a distribuição, na sua maioria “porta-a-porta”, conta que o grupo ajuda cerca de 40 famílias e que a ele apenas se juntaram, nesta fase, «duas ou três que vieram [encaminhadas] da Segurança Social ou das assistentes sociais da Câmara». «Onde noto mais dificuldades é nas famílias da comunidade cigana, que viviam só das vendas dos mercados, como isso parou, ficaram sem rendimentos», revela. A alimentação é mesmo «aquilo que mais pedem, porque é o fundamental», no entanto Regina Santos afirma que o que a Conferência dá «não sustenta a família o mês todo, mas é sempre uma ajuda». O grupo tinha decidido, há algum tempo, distribuir alimentos apenas de dois em dois meses, no entanto, devido à pandemia e à perda de rendimentos de algumas famílias, passaram «novamente a dar todos os meses».

No Juncal, a distribuição tem sido assegurada por duas voluntárias, ambas pertencentes a um grupo de risco, por terem «mais de 70 anos», revela o responsável, Francisco Ventura, que apresenta a falta de voluntários também como a maior lacuna. O grupo ajuda 26 famílias da freguesia, todas elas já apoiadas antes da pandemia: «Por enquanto ainda não houve mais ninguém a pedir, mas se aparecer também não sei como havemos de fazer», afirma, corroborando a opinião de Fátima Pereira de que a procura é superior à oferta. Apesar disso, os voluntários não baixam os braços e insistem em manter a sua missão.