Portugal passa já pelo segundo confinamento e ainda que muita gente esteja em teletrabalho e, por isso, com as suas horas diárias preenchidas, há sempre mais tempo em casa do que em alturas normais e por isso é natural que tenham surgido atividades novas, até para combater a monotonia que pode tomar conta dos nossos dias. Fomos conhecer o testemunho de dois portomosenses que decidiram investir em algo que lhes traz crescimento pessoal e preenche os seus “tempos mortos”.

Samuel da Costa mora na Paiã, na freguesia de São Bento, e descobriu recentemente a paixão pela relojoaria. «Um bocado por acidente», enquanto fazia compras online, sentiu-se tentado a comprar um «relógio russo, vintage, dos anos 80, mecânico e a corda». Além de o item estar barato, confessa que foi por estar um pouco «saudosista» nesse dia e por se lembrar de o «avô usar um relógio de bolso de corda», que foi impelido a comprar. Já com aquele que viria a ser o primeiro de uma coleção nas mãos, Samuel da Costa decidiu procurar mais informação sobre o relógio e diz ter «descoberto um mundo completamente desconhecido» para si. «Os relógios sempre foram uma coisa por que tive algum fascínio, mas nunca os olhei de forma especial, era quase como um adereço ou uma peça de joalharia», afirma. No entanto, ao procurar saber mais, descobriu que, de facto, era um assunto que lhe interessava e por isso foi explorando: «Tendo em conta que tinha sido um relógio barato e que não havia muito para estragar, a minha veia de engenheiro entrou em ação. Lembrei-me de o abrir e foi outro mundo que descobri, o relógio deixou de ser uma peça de joalharia para passar a ser uma peça de engenharia, extremamente bem maquinada», refere.

Esta peça, encomendada em outubro, é a primeira da coleção que conta já com cerca de uma dezena de exemplares, todos russos. «Os relógios tornaram-se pequenos Pokémon, tentamos colecionar muitos porque se torna num bichinho. As novas tecnologias também nos permitem isso porque temos quase tudo na ponta dos dedos e ainda temos os correios que funcionam bem. As coisas demoram muito tempo a chegar mas também faz parte da piada, toda a antecipação da chegada da peça, pensar como vai chegar, depois todo o trabalho de a lubrificar, limpar, polir o vidro…», explica Samuel da Costa.

O seu relógio mais antigo data de 1956 e, segundo o sambentonense, «foi o primeiro relógio no espaço, não oficialmente»: «O relógio foi entregue a um engenheiro aeroespacial, que o odiava. Tentou fazer de tudo para destruir o relógio e não conseguiu. Então teve a ideia fascinante de, numa das missões espaciais, em que estavam a enviar cães, colocar o relógio numa cadela que foi enviada. Pensou que a cadela não ia sobreviver. Porém a missão foi bem sucedida, a cadela voltou, viva, e quando abriram a cápsula, viram o relógio na pata. Há histórias mirabolantes [em torno dos relógios]», relata. Hoje, além dos relógios, conta com «uma malinha de ferramentas e um kit de trabalhar o couro», porque entretanto se interessou também pela confeção das braceletes. Para se aproximar das pessoas “da área” neste tempo de distanciamento, ingressou em alguns fóruns online sobre a temática e também em grupos de Whatsapp e afirma que tem «conhecido pessoas que de outra forma não conheceria».

Samuel da Costa envolveu-se num projeto maior, faz parte de um grupo que está a “elaborar” uma «reedição de um relógio dos anos 60, de mergulhador» e a adaptá-lo «para o século XXI», trabalhando diretamente com a fábrica, que não produz o modelo precisamente desde os anos 60. Samuel da Costa descobriu um novo passatempo que «acaba por ser um escape»: «Enquanto estou de volta das lubrificações e das limpezas de braceletes, desligo do mundo, é necessário», conclui.

Das escovas e das tesouras, “em direto” para os tachos

A cozinha sempre fez parte da vida de Sofia Neto, cabeleireira em São Jorge e residente em Porto de Mós. Não só porque gere uma casa de família, com quatro pessoas que todos os dias têm que comer, mas porque, diz, sempre adorou cozinhar: «Faz parte de mim, a minha mãe dizia que se eu não fosse cabeleireira, tinha que ser cozinheira. Acho que tem a ver com o facto de também ter muita arte de mãos», afirma, contando que, «durante muito tempo», fez bolos com pasta de açúcar, mas apenas para a família. «Não tenho curso nenhum, é o gosto por cozinhar e partilhar e quem me conhece sabe que adoro convidar amigos, ter pessoas em casa e poder cozinhar para eles. É um ato de carinho e de amor que eu gosto de partilhar com as pessoas de quem gosto», explica.

Foi então que, há cerca de duas semanas, e de forma espontânea, se lembrou de fazer um vídeo em direto na sua página de Facebook a fazer pão. O vídeo teve «um feedback excelente, por ser rápido, prático e funcional». Essa boa receção deu aso a que Sofia Neto continuasse, depois disso já houve um vídeo com crepes saudáveis e um outro que teve direito a entrada, prato principal e sobremesa. Desde o primeiro vídeo que, por mensagem privada, lhe vão chegando fotografias das suas receitas, confecionadas por quem assiste aos seus vídeos, assim como pedidos de mais.
Apesar de não ter nenhuma regra sobre o que cozinha ou sobre quando faz os diretos, diz que procura «apresentar coisas diferentes, não aquilo que as pessoas fazem vulgarmente». «Acho que o feedback positivo que recebi foi precisamente por isso», considera. Esta é uma atividade que agora faz nos dias mais livres, mas afirma que, quando reabrir o salão, há a possibilidade de a manter: «Vou esperar um bocado pelo feedback das pessoas, até porque não tenho qualquer ganho com isto, o único ganho é a partilha e o amor que passamos entre nós. Se puder manter, por que não? É uma questão de depois ajustar um bocadinho os horários», aponta. Tendo nos seus clientes uma boa parte das suas visualizações, acredita que quando voltarem ao salão lhe vão dar uma melhor perspetiva sobre se valerá ou não a pena continuar, mas afirma que se «sentir que as pessoas têm necessidade», vai continuar a fazê-lo.