Foto: Isidro Bento

O Salão Nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal (SHIP) foi pequeno para acolher todos aqueles que a 20 de novembro quiseram tomar parte na homenagem ao Almirante Nuno Vieira Matias, antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, natural de Porto de Mós. O salão com uma lotação de 100 lugares sentados cedo ficou preenchido havendo, ainda, muita gente de pé. Entre a vasta plateia, o atual Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante António Mendes Calado, e vários dos que lhe antecederam no cargo, o Chefe da Casa Militar do Presidente da República, Tenente-General Vaz, outros altos responsáveis militares e académicos de nomeada.

A homenagem foi promovida pelo Conselho Supremo da SHIP (que Vieira Matias chegou a presidir), o órgão de reflexão estratégica desta «associação de utilidade pública vocacionada para a valorização e para a divulgação dos valores nacionais, muito particularmente na área da Língua e da Cultura Portuguesas e Lusófonas», tendo cabido ao atual presidente, vice-almirante Henrique da Fonseca, o elogio do homenageado.

Henrique da Fonseca começou por lembrar que Vieira Matias «nasceu perto da casa onde se diz que terá nascido Dom Fuas Roupinho, o primeiro almirante português» e a escassos quilómetros do local «onde de facto foi travada a Batalha Real, em 1385», e depois passou em revista «uma carreira muito diversificada e completa onde comandou um Destacamento de Fuzileiros Especiais, em combate, uma fragata em exercícios internacionais, e onde foi também Capitão de Porto e Oficial de Estado-Maior», acabando o seu percurso profissional como CEMA.

«Pelo seu conjunto de qualidades pessoais e profissionais, e pelo seu sempre elevado desempenho granjeou muito prestígio na Marinha. Era então uma autêntica referência para os Oficiais mais novos», afirmou. Já enquanto CEMA tinha uma «liderança frontal. Dizia abertamente o que queria, simultaneamente, era acessível e aberto a outras opiniões e pontos de vista e deixava o seu Estado-Maior trabalhar à vontade», explicou. Pelas suas mãos passaram importantes dossiês que acabariam por ditar muita da capacidade operacional futura da Marinha.

Henrique da Fonseca considerou que a tarefa de Vieira Matias como CEMA não foi fácil. Teve de lidar «com quatro ou cinco ministros da Defesa com personalidades diferentes e com uma Marinha a lutar com problemas financeiros», mas, no seu entender, esteve sempre à altura das altas funções desempenhadas. Da vasta carreira militar, um dos episódios evocados foi a Operação Crocodilo «que passados 25 anos é um autêntico case-study, e na qual, o almirante de Porto de Mós, sem entrar em choque com o poder político, criou as condições para que uma força da Marinha rumasse à Guiné-Bissau para recolher centenas de portugueses que no verão de 1998 foram apanhados no meio de um conflito militar armado. Em vez de centenas, foram resgatados 1237 homens, mulheres e crianças de 33 nacionalidades diferentes».

Concluída a carreira militar, Vieira Matias confirmou-se académico respeitado. Deu aulas em várias universidades, proferiu palestras e dedicou-se ao estudo e à divulgação dos mares e das suas inúmeras potencialidades.

Em jeito de conclusão, Henrique da Fonseca, referiu-se a Nuno Vieira Matias como «um chefe de família exemplar, um homem de valores, de princípios e de causas; amigo do seu amigo; homem de Cultura, um académico; um líder, um chefe, um comandante com quem dá gosto trabalhar; um marinheiro, um fuzileiro, um militar e um combatente». Em suma, «um verdadeiro patriota e um grande português».

Já o vice-almirante, António Rebelo Duarte, que a seguir proferiria a conferência A Europa e o Atlântico – crises em Terra e oportunidades no Mar, expressou a sua admiração e respeito pelo homenageado numa única frase: «Almirante Matias, um marinheiro, um académico, um cidadão de ouro».

O último a intervir foi Vieira Matias surpreso «por esta iniciativa e com a quantidade de amigos» na sala, a quem se mostrou grato. Agradeceu ainda a presença do «almirante de cinco estrelas» como denominou o professor catedrático, Adriano Moreira, «do almirante chefe do Estado Maior da Armada, outros chefes de ramos, muitos oficiais generais e outros membros de outras instituições». «Esta vossa presença fica-me gravada no coração» afirmou, confessando, também, a satisfação por ver antigos camaradas do destacamento de fuzileiros especiais na Guiné e da fragata João Belo que comandou. «Aprendi com a vida, que a amizade é qualquer coisa que se gera com a intensidade, quando aquilo que temos de fazer é difícil, é intenso, é serio» e por isso «é com profundo sentimento de gratidão que agradeço a presença de todos vós. Sinto dificuldade em dizer quaisquer palavras que não seja “obrigado” com alguns dos seus sinónimos e muito repetidamente», sublinhou.

Depois de lembrar todo o seu percurso na SHIP e de agradecer a todos os que ao longo dessa caminhada lhe «transmitiram os seus elevados valores», leu os estatutos desta e exortou a todos para que «os apoiem, fixem e os persigam em favor do nosso Portugal». A homenagem terminou com A Portuguesa entoada com emoção por todos os presentes.