Cortar abóbora “para a sopa do menino”

12 Março 2026

Eram 8h45 da manhã e cortava abóbora em pedaços para congelar “para a sopa do menino”. Já tinha feito uma panela de sopa (com parte dessa mesma abóbora vinda de um cultivo farto da mãe), panquecas para o pequeno-almoço e “dado um jeito” à cozinha. A faca ia percorrendo a casca rija da abóbora bem cor-de-laranja e eu só pensava: hoje sou eu. Hoje vejo-me na mãe, na irmã, nas mulheres que outrora eu via a cuidarem. Nós não cortamos apenas a abóbora para a “sopa do menino”. Não. Quem assim o entender, não percebeu nada. O que fazemos é dizer: cuido de ti. Dizemos isso em cada doação, em cada abraço e beijo (que podemos jurar que “cura”), em cada despertar para tapar o nosso filho ou nas noites em claro em que nos mantemos acordadas por estarem doentes. Dizemos isso quando não comemos a melhor parte do frango ou não chegamos a provar nada da caixa de morangos que tanto adoramos. E somos absolutamente preenchidas nestas pequenas escolhas. 

Dizer que amamos ser mulheres, ser mães ou cuidar, não quer dizer que não queremos ser outras coisas. Queremos e, acima de tudo, podemos. Quando cortamos a abóbora “para a sopa do menino”, continuamos a ser as profissionais, as amigas, as namoradas/esposas e livres para viver como bem queremos. Continuamos a ser divertidas, a dançar, a pintar os lábios e o cabelo, a estudar e a querer saber mais, a cantar no carro como terapia, a precisar de abraços. Somos tudo isso, enquanto cortamos a “abóbora para a sopa do menino”.  

Para alguns isto pode parecer óbvio, mas não o será para todos. SETECENTAS E NOVE mulheres foram assassinadas em Portugal entre 2002 e 2025, em contexto de violência. Muitas delas, sabemos pelos testemunhos que ouvimos, são mulheres que vivem sucumbidas durante anos a uma vida de violência, aprisionadas, sem poderem viver a sua verdade e sendo apenas aquilo que os homens querem que elas sejam. Essas mulheres, em muitos casos, continuam a cuidar de todos. A pergunta que faço é: Quem está aqui para cuidar delas?