«Um momento alto, de muita riqueza», é desta forma que a portomosense Marisa Barroso, investigadora e professora do Politécnico de Leiria (IPL), descreve o espetáculo de dança que decorreu no Centro Escolar de Porto de Mós, no dia 1 de junho, e que começou com o Vá de Roda, uma música tradicional das Pedreiras, e que culminou com a formação de uma roda gigante com todas as crianças de mãos dadas. Durante todo o dia, vários grupos de crianças dançaram, à vez, dezenas de músicas tradicionais originárias do concelho de Porto de Mós, recriadas pelo Grupo Aire que lhes deu uma nova sonoridade, mais contemporânea, sob a coordenação da professora do IPL, que antes do início da atuação contava a história de cada música, ajustada às suas idades.

Para Manuel Barroso, presidente da Junta de Freguesia de Porto de Mós, esta atividade organizada pela sua autarquia ganha especial importância, principalmente quando se trata de «não deixar morrer as tradições»: «As freguesias têm que participar mais nestes eventos. Tudo isto tem um valor, gasta-se dinheiro, mas acho que é bem aplicado porque estamos a mostrar às crianças o que é que os nossos antepassados nos deixaram e ao deixarmos-lhes, eles vão transmitir para a frente, até que nunca terminará», sublinha.

“A dança pertence ao nosso ADN cultural”

O espetáculo fez parte do projeto Baile dos Pastorinhos, um «projeto de educação cultural que está, sobretudo, assente na dança tradicional e popular», promovido pela Associação Folclórica da Região de Leiria – Alta Estremadura (AFRLAE). «Aquilo que nós pretendemos é chegar à comunidade escolar, um espaço de cidadania e civilização, onde podemos assegurar para as gerações vindouras a transmissão desta herança cultural», explica Ana Rita Leitão, presidente da AFRLAE. O projeto foi um dos quatro selecionados para a programação cultural da Rede Cultura do Município de Leiria e após ter sido adiado em 2020, por causa da pandemia, foi apresentado em janeiro de 2021. «Nós queremos voltar aos bailes, queremos que as pessoas voltem a dançar, que gostem de dançar, que se divirtam e que percebam que a dança, além de uma atividade desportiva, é didática, pedagógica e que pertence ao nosso ADN cultural», afirma.

O projeto conta com seis meses de programação que durará até outubro, num total de 25 atividades que arrancaram no início do mês de maio. «Já fizemos algumas ações de formação e capacitação para professores, na Batalha, Nazaré, Parceiros e Benedita. Já ensinámos as danças de Porto de Mós a mais de 500 crianças e já pusemos mais de mil pessoas a dançar, no espaço de um mês», adianta Ana Rita Leitão. Dividido por várias etapas, que começaram com a recolha das danças junto dos ranchos, o projeto Baile dos Pastorinhos contará em breve com a gravação de um CD que se prevê que seja lançado em agosto, a que se junta também um livro, que está a ser escrito, onde constarão as danças e suas análises.

“As crianças estavam completamente em êxtase”

Marisa Barroso, além de ser a responsável pela formação do projeto Baile dos Pastorinhos é também uma principais dinamizadoras do projeto-piloto Danças de Porto de Mós que começou há três anos e meio com o objetivo de «salvaguardar as danças tradicionais portuguesas» e que foi reconhecido com a atribuição do Prémio Autarquia do Ano 2020/2021 ao Município de Porto de Mós. A professora que esteve, durante várias horas, a ensinar às crianças do Centro Escolar de Porto de Mós diversas danças tradicionais de vários pontos do concelho faz um balanço extremamente positivo da atividade e não tem dúvidas de que foi um «acontecimento único»: «As crianças adoraram. Foi um sucesso soberbo, mais do que enorme, acima de qualquer expectativa. Eu sou de Porto de Mós e sei que isto foi algo de extraordinário, de diferente, de inovador. E ser inovador com a arte da cultura popular é fantástico».

Embora reconheça que para a maior parte das crianças, as músicas que ali foram trazidas eram, até então, desconhecidas, a professora, que já tem corrido de norte a sul do país para realizar oficinas de dança, confessa que ficou extremamente impressionada com a capacidade de as crianças conseguirem efetuar os passos de dança que as músicas exigiam. «Eles são de Porto de Mós, eles são dali, eles têm aquilo no sangue», justifica. A professora garante que a atividade foi um «momento de glória» e também de arte porque, considera, cada criança, à sua maneira, foi apreciando diferentes detalhes ao longo do espetáculo. «Estavam mesmo muito felizes. Os sorrisos deles são mesmo sinónimo da alegria mais externa, mais imediata», frisa. No geral, Marisa Barroso considera que todas as crianças, do pré-escolar ao 1.º ciclo, que participaram nesta atividade reagiram «muito bem» e garante que estavam «completamente em êxtase» com o lhes estava a ser apresentado, mesmo sendo uma novidade. «A reação deles foi de total absorção como uma esponja seca. Foram muito obedientes e cooperativos. Tiveram comportamentos fantásticos», reconhece.