Se pudesse realizar-se no formato habitual, o Cross da Laminha cumpriria este ano a sua 18.ª edição, mas não podendo, adaptou-se às novas circunstâncias. A prova de trail e cross, habitualmente realizada e promovida na freguesia do Juncal, foi, ao longo dos últimos 18 anos, uma competição que juntou os melhores da região e até do país nesta vertente do atletismo. Este ano, todas as provas não profissionais estão canceladas, mas “como em tempos de guerra, não se limpam armas”, a organização arranjou uma forma de manter viva a tradição, sem pôr em causa a segurança dos participantes e com um lema diferente: incluir todos, os que costumam fazer dos trilhos o seu habitat e os que querem agora encontrar um escape, mas que não estão tão habituados a estas “andanças”.

Vítor Ferreira, diretor da prova, explica o novo conceito, que funciona com o auxílio das tecnologias. «Existe um circuito permanente a decorrer desde o dia 1 de janeiro. Ou seja, balizámos um percurso, de 9,5 quilómetros, com sinalética. O percurso começa e acaba na capela da Cumeira de Cima. Tem também uns dizeres engraçados próprios das Laminhas de há muitos anos, para motivar a malta no percurso», explica. Os participantes podem «correr ou caminhar» no momento que desejarem, num circuito menos exigente, adaptado a todo o tipo de condição física. Para quem no final, além de participar e se divertir, ambiciona por um prémio, a contagem do tempo, é feita com recurso ao sistema GPS. «As pessoas têm de se registar numa plataforma [STRAVA] online e devem estar munidas de um dispositivo [com GPS incorporado] compatível com esta plataforma e que grave a sua atividade», frisa. Depois de feito o percurso, os participantes devem «validar o tempo» na página do Cross da Laminha (onde também se devem inscrever previamente), para que passem a constar na lista de classificações que vai sendo atualizada. Inicialmente previa-se que a parte competitiva terminasse a 20 de fevereiro, mas dadas as limitações impostas pela pandemia, nomeadamente a proibição de circulação entre concelhos aos fins-de-semana, poderá estender-se por mais meses, para permitir que mais pessoas possam participar. Vítor Ferreira salienta que o grande objetivo é mesmo que «as pessoas se mantenham ativas», sejam atletas em busca de mais um desafio desportivo ou não, e por isso não há a urgência dos resultados. Ainda assim, quando a prova terminar, os vencedores vão ser premiados: «Os três classificados femininos e masculinos mais rápidos a concluir o desafio, irão receber um troféu e a inscrição para a próxima edição do Cross Laminha». Quando é que isso será, ninguém, no atual contexto do país, consegue prever mas o responsável máximo pela prova garante que a entrega de prémios não cairá no esquecimento.

Toda a organização logística, sobretudo nas questões digitais, tem a ajuda imprescindível da equipa TiMim, «um grupo de corredores e caminheiros» amadores que tem também colaborado nos outros anos. «O grupo conta com uma série de elementos, muitos deles são informáticos que fizeram uma página para esta “brincadeira” e que neste momento está quase a chegar às 300 pessoas inscritas, mas eu acredito que já tenha passado das 1000 participações desde que o evento foi criado e aberto ao público», refere Vítor Ferreira. «Penso mesmo que neste momento será o evento desportivo deste género que mais pessoas reuniu até agora», reforça.

Adesão acima das expetativas pode levar a repetir modelo

Vítor Ferreira assume-se, de facto, «surpreendido» com a quantidade de pessoas a aderir ao desafio. Seja de semana ou ao fim-de-semana, todos os dias o responsável se depara com participantes, «sozinhos ou em família». «Houve um dia, um domingo, em que passaram cerca de 150 pessoas durante todo o dia, mas não foi à mesma hora», garante. Os participantes vão muito além das fronteiras do concelho: «Eu já fiz o percurso a correr, bem como a caminhar com a minha família e encontrei pessoas que não conhecia de lado nenhum. A alguns eu perguntei se estavam a gostar e de onde vinham e fico surpreendido quando as pessoas me dizem “sou da Marinha Grande, nunca tinha feito nada disto” ou “somos das Caldas da Rainha” e parece-me que há pessoas que vêm de mais longe ainda», frisa, satisfeito.
O «guardião do percurso» tem de, três vezes por semana, «fazer o percurso para ver se a sinalização que foi colocada no percurso» se mantém e se tudo está operacional. O seu contacto está também no site da competição, para que «caso alguém se perca ou se magoe», Vítor Ferreira, possa ir em seu auxílio. Até agora houve apenas alguns percalços: «Arrancaram parte da sinalização e atiraram-na para a vegetação e as pessoas começaram a perder-se, houve outras que perderam objetos que levavam com elas e foram feitas algumas buscas para os encontrar. Depois há pessoas que se aleijam, fazem entorses, caem, mas acontece, nada de muito especial ou que quem faz trail não esteja habituado».

Apesar destes problemas que vão surgindo, nada se compara aos que surgem quando se realiza de uma forma física. «Para quem estava a habituado a organizar provas como antigamente, que envolvem papeladas, burocracias, vários contactos, andar a correr de um lado para outro, para que tudo naquele dia esteja bem, isto não tem nada a ver», reconhece Vítor Ferreira, lembrando também que em «termos económicos, os gastos são muito menores». «Aqui a grande preocupação é que a sinalética esteja no percurso», frisa, salientando que por tudo isto, este modelo pode bem voltar a repetir-se no futuro.