«Em certos sítios, nós somos um bocadinho olhados como os “porta-vírus”, como se nós é que andássemos a distribuir o vírus por tudo o que é sítio». É desta forma que Helder Jorge, de 48 anos, camionista, descreve a forma como, por vezes, é observado por trabalhadores de empresas onde frequentemente se desloca, por estar a usar máscara de proteção. Motorista internacional há mais de 15 anos, este é apenas um dos desafios com que hoje se depara no exercício da sua profissão devido à batalha que o mundo enfrenta contra o novo coronavírus.

A residir em São Bento, é de lá que sai ao volante do camião em direção à Guarda, onde está sediada a empresa para a qual trabalha, com o intuito de carregar fruta ou peixe congelado. Munido de material de proteção individual, como máscaras, luvas, gel desinfetante e spray para desinfetar a cabine, Helder Jorge percorre todas as semanas milhares de quilómetros, em viagens que podem durar entre oito a 14 dias. Os países que fazem parte da sua rota (Espanha, França, Itália e Inglaterra) são hoje dos territórios mais afetados pelo surto de COVID-19.

À semelhança do que se verifica um pouco por todo o globo, em que as pessoas se viram obrigadas a uma mudança drástica das rotinas, também os motoristas tiveram que se adaptar a esta nova realidade, recorrendo a determinadas estratégias de proteção. «Tentamos evitar ao máximo o contacto com as pessoas. Por isso, agora estamos muito confinados dentro da cabine. Na última viagem, 99% do tempo passei-o dentro do camião. Só saio para tomar duche, cargas e descargas ou para comprar alimentos», garante.

As medidas preventivas proliferam e os armazéns onde costuma descarregar também foram obrigados a alterar hábitos, ficando o contacto reduzido a quase nada. «A maior parte das empresas já nem nos deixam entrar nas instalações.

Normalmente, assistíamos à descarga ou ficávamos na sala dos motoristas à espera, agora isso está completamente proibido», refere. Também Luís de Almeida, de 51 anos, motorista há nove meses, nota a diferença. «Não nos deixam aproximar muito e falam ao longe. Onde antes estava tudo “ao monte”, hoje só podem estar duas pessoas. Há uma fábrica, onde me vêem a febre duas vezes e tenho que preencher um papel sobre se estive em contacto com alguém infetado ou se vim de um país de risco», afirmando que se tenta «proteger ao máximo» recorrendo a máscaras e luvas.
A residir há 46 anos em Porto de Mós, a sua vida divide-se entre Portugal e Espanha, onde semanalmente se desloca para transportar bebidas, e é precisamente no país vizinho que ressalva o facto de nem todos os locais estarem a tomar as devidas precauções. «No outro dia, à entrada do escritório, estavam meia dúzia de empregados a fumar, quase uns em cima dos outros», recordando que ficou impressionado quando assistiu «àquele espetáculo».

“As zonas de descanso existem, estão é todas fechadas”

A inexistência de locais para proceder à higiene pessoal, é tida, por ambos, como a principal dificuldade provocada pela pandemia. Helder Jorge recorda que anteriormente quando chegava a uma fábrica podia tomar um duche mas hoje em dia, essas ações já estão muito limitadas, principalmente em Espanha, onde tudo está «muito fechado e restrito». Nos sítios onde ainda é possível, afirma que as regras estão mais apertadas, nomeadamente em França, onde as chaves para aceder ao espaço estão dentro de um copo, evitando-se, desta forma, o contacto direto.

«As zonas de descanso existem, estão é todas fechadas», garante Luís de Almeida que também ele se tem deparado com a dificuldade em encontrar locais onde possa fazer a sua higiene. O motorista conta como tenta contornar a situação: «Uso toalhitas de bebé e todos os dias me limpo com elas porque agora é impossível, andamos assim um bocadinho mal estimados», desabafa.

O fraco controlo nas fronteiras

A fronteira de Vilar Formoso, é aquela que é mais comum Helder Jorge atravessar. A sua experiência, fá-lo afirmar que a propagação da pandemia de uma forma menos abrupta em Portugal não foi sinónimo de uma fiscalização mais apertada para os pesados, muito pelo contrário. «É errado nós virmos de países de risco, termos passado em tudo o que é sítio e não termos o mínimo de controlo numa fronteira. Às vezes, até passamos mais rápido», garante.

No caso de Luís de Almeida, as fronteiras onde frequentemente passa são: Monfortinho e Badajoz. Nesta última, o portomosense garante que a fiscalização é nula. Já na fronteira de Monfortinho, observa-se uma maior ação das autoridades em que estes ordenam a paragem, pedem a identificação e perguntam de onde vieram e para onde vão. No entanto, considera a ação demasiado branda: «O mínimo que podiam fazer era medir a febre a quem entra no país».

O medo persistente da contaminação

«Quando venho das viagens, eu só penso que posso ser um perigo para a minha família porque estou sujeito a isso. Ando sempre com medo», desabafa Luís de Almeida. Apesar de garantir que se tenta proteger ao máximo, o receio de a qualquer momento poder ficar contaminado é um sentimento que o acompanha quase sempre. Depois de uma semana de trabalho, a rotina da chegada a casa já é feita de forma quase automática. «A primeira coisa que faço é lavar as mãos, depois tiro a roupa toda que trago vestida e tomo um bom banho», descreve.

Também Helder Jorge é bastante cauteloso aquando do regresso a casa, pois garante que o «maior receio no meio disto tudo é a família». «Quando chego, passo pela garagem, tiro tudo o que é roupa, coloco-a logo dentro da máquina e desinfeto tudo. Depois vou logo tomar um banho e só então é que entro para casa», refere.

Apesar de reconhecer a exigência de ser motorista, Helder Jorge, descarta heroísmos: «Eu estou a ser pago pelo meu trabalho, não preciso que andem aqui a levar-nos ao céu, a dizer que somos heróis», mostra-se revoltado com alguns colegas que nas redes sociais dizem que andam a passar fome por haver sítios fechados. «Isso é tudo mentira. A maior parte de nós leva congelados, se andássemos sempre a comer nos restaurantes nem valia a pena andarmos cá fora», sublinha.