Depois da tempestade, a CS Coelho da Silva não demorou a reagir. Na manhã seguinte à tragédia, a empresa, sediada na Cruz da Légua e a única do concelho que ainda se dedica ao fabrico de telha, abriu logo os portões ao público. À entrada tinha já dezenas de pessoas, muitas delas, desesperadas, por encontrarem telhas para conseguirem tapar os buracos causados, na madrugada anterior, pela depressão Kristin. «Cada pessoa traz o seu problema, o seu drama. Tivemos uma série de gente que vinha e que chorava perante o problema que tinha na sua casa. Procurámos resolver o melhor possível», conta, ao nosso jornal, José Coelho, que lidera a CS há mais de quatro décadas.
Em quase 100 anos de existência, esta foi a primeira vez que abriam as portas ao público. «Abrimos imediatamente porque tivemos a certeza que era uma ação que tínhamos que tomar. Foi uma questão de serviço público», frisa. Até aqui, atendiam apenas empresas do país inteiro, numa rede de revendedores – «pequeninos armazéns de materiais de construção» que comercializam o produto da CS – que ultrapassa os 60 vendedores. A decisão obrigou, no entanto, a mudanças bruscas na gestão da empresa, levando a que todos os funcionários afetos à produção fossem realocados para o atendimento ao público.
A esperança de ver o problema resolvido
Uma semana depois da passagem da tempestade, a calma que se sente na chegada à empresa é estranhada até pelos funcionários. «Isto hoje está muito calmo… mas a semana passada foi a loucura», dizem-nos. À medida que as pessoas se dirigem à CS Coelho da Silva, seja de carro ou de camião, sejam particulares ou empresas, são imediatamente direcionadas, por um funcionário, para o sítio onde devem estacionar. Chegam cabisbaixas, mas de passo apressado e a maioria traz na mão um exemplar das muitas telhas que o vento arrancou. Muitos trazem também a esperança de quem espera poder ver o seu problema resolvido. Vêm sobretudo de localidades do concelho de Leiria, um dos mais afetados pela intempérie. São poucos os que aceitam falar. Dizem que «a cabeça não anda boa». Depois de mostrarem o modelo de que precisam, é-lhes atribuída uma senha e são encaminhados para a zona da expedição, onde indicam exatamente o modelo e quantidade necessárias, e realizam o respetivo pagamento, num processo extremamente bem organizado, quase como se fosse mecanizado.
Emigrado, há vários anos, em França mas com casa na Mata dos Milagres, José Carlos Fonseca conta-nos que soube da devastação causada pela tempestade, através da televisão, mas admite que não teve logo perceção da magnitude da destruição. Sem conseguir contactar os familiares, valeu-lhe a chamada de um sobrinho (que também já tinha estado emigrado) feita através de um número estrangeiro, que o descansou em relação ao estado de saúde dos familiares mas que lhe descreveu o rasto de destruição nas habitações. José nem pensou duas vezes. Comprou o primeiro bilhete de avião e chegou a Portugal três dias depois. Deslocou-se à CS em busca de 300 telhas, não só para a sua casa mas também para a dos pais, da sogra e a de um irmão, uma vez que todas sofreram danos, conta-nos com ar de desalento.
Gil Rodrigues veio da Guimarota para Albergaria para comprar o dobro das telhas, 600 no total. Perante o nosso olhar de espanto, em resposta apressa-se a dizer que, ainda assim, «o exterior está pior que a própria casa», dizendo, a título de exemplo, que na sua propriedade tinha 300 cedros, com entre 50 a 60 centímetros de diâmetro, e que nenhum resistiu ao temporal.
Menos sorte teve Gil Sousa, que veio dos Parceiros na expetativa de encontrar canudos e alguns telhões que a tempestade arrancou da sua casa, mas que já não encontrou na CS Coelho da Silva. «Vou tentar ver noutro fornecedor», diz, esperançoso. Com um telhado «muito alto» e «muito inclinado», os danos causados pela intempérie, embora pequenos, ainda estão por reparar. As características do telhado levam a que se tenha que recorrer a andaimes, para a substituição do que está estragado, o que reconhece não estar ao alcance de todos. «É pouca coisa, por isso não consigo arranjar ninguém para lá ir, como é pouco, não querem», lamenta, resignado.

Das milhares de pessoas que se deslocaram à empresa, durante o período em que esteve aberta, a maioria viu o seu problema resolvido. No entanto, houve quem não tivesse essa sorte. A razão, explica José Coelho, é fácil de explicar: «A telha é um produto com um ciclo de vida longo, portanto, aparecem-nos aqui muitas telhas que são de meados do século passado, quando havia dezenas de fábricas a produzir telha no país. Por exemplo, só na nossa região, entre Alcobaça e Batalha, havia mais de 10, hoje há só uma, somos nós. No país existem apenas cinco e destas todas produzem vários modelos de telha».
O proprietário da CS Coelho da Silva garante que atualmente há ainda «imensos telhados que têm telhas dessa altura», o que leva a que «as pessoas andem aflitas porque não encontram esses modelos, uma vez que as fábricas já desapareceram». Nos casos em que a empresa não tinha disponível o modelo pretendido, tentava-se «arranjar alguma que fosse compatível» mas nas situações em que isso não aconteceu, José Coelho defende que «passada a fase do “penso rápido”, as pessoas têm que pensar em regularizar a sua cobertura», referindo-se à implementação de uma solução a longo prazo, que passará pela substituição total dessas telhas, já descontinuadas.
“A nossa preocupação foi servir as pessoas”
Entre 28 de janeiro e 6 de fevereiro – o período em que estiveram abertos – atenderam «cerca de dois mil carros ligeiros» e «carregaram cerca de 600 camiões» de empresas que foram para «a rede de distribuição e de armazenistas, particularmente para a zona afetada». Durante esses oito dias, José Coelho sublinha que a fábrica esteve «a trabalhar para a comunidade» e a preocupação da empresa estava em «servir as pessoas, mais do que o negócio». «Essa foi a nossa postura e foi com base nisso que abrimos os portões para os particulares», reitera. A par disso, a empresa publicou, nos seus canais digitais, a lista de revendedores entre Figueira da Foz e Rio Maior para que fosse mais fácil as pessoas saberem onde encontrar determinado produto.
Entre sete modelos de telha e centenas de referências de que a empresa dispõe houve dois produtos que esgotaram: a «telha modelo F2 e o telhão Luso». José Coelho não consegue apontar o número exato de telhas vendidas, durante este período, uma vez que o facto de não haver comunicações nos primeiros dias, impossibilitou o acesso ao sistema da empresa. Sem sistema a funcionar, a solução, conta-nos, passou por processar tudo manualmente. «Foi exatamente um serviço de exceção, dada a gravidade da situação. Portanto, não temos os números apurados», justifica, confirmando, contudo, que terão sido vendidas centenas de milhares de telhas.
O estado de exceção durou até à passada sexta-feira, dia 6, e José Coelho explica a razão de não ter sido feito um prolongamento. «Tivemos muita gente afeta a este atendimento. Durante esse tempo estávamos todos cá, mas não produzimos nada. Portanto, estivemos a esgotar, ou a contribuir para esgotar, os stocks. Agora precisamos de toda essa gente para produzir e por isso deixámos de ter capacidade para continuar com este serviço». Neste momento a preocupação é «fornecer a rede de armazéns, nomeadamente os que estão localizados na zona afetada, para que possam responder adequadamente às necessidades», conclui.
Fotos | Jéssica Silva




