Há um ano – celebrado no passado dia 12 – Valéria El Mohtar abria, aos 25 anos, o seu primeiro ateliê de cake design (em Fátima), mas é preciso recuar aos seus 14 anos, na Venezuela de onde é natural, para encontrar o momento em que vendeu o seu primeiro bolo. O sonho acompanha-a desde esse momento e está agora materializado no ateliê com o seu próprio nome: Valéria El Mohtar – Cake Designer. Foi inspirada pela mãe, “de volta dos tachos” no restaurante que tinha, que nasceu a paixão pela cozinha. «Comecei a fazer bolos e sobremesas com 13 anos para passar o tempo. Depois, nas férias de verão da escola, comecei a participar em workshops de cozinha e pastelaria e era sempre a mais nova da turma», recorda. «Aos 14, então, fiz o meu primeiro bolo para vender a uma amiga da minha mãe», lembra ainda Valéria.
Já nessa altura, o seu espírito empreendedor se fazia sentir: «Comecei a levar daquelas boleiras de plástico com 50 cupcakes para a escola e vendia aquilo num dia. Foi assim durante muito tempo, até a diretora da escola falar comigo e dizer “olha, não é possível, a cantina não está a vender”», conta, entre risos. Quem não gostava muito disto era a sua mãe, por sentir que a filha não tinha necessidade: «Eu fazia isto mesmo porque gostava, a minha mãe sempre teve uma vida estável, aliás, sempre me pagou as formações que fui fazendo, o que ganhava era mesmo meu. O receio da minha mãe era que eu abandonasse os estudos a partir do momento em que começasse a ganhar o meu dinheiro. Na minha família todos tinham estudado e a minha mãe queria que eu fosse para a universidade». Mas essa não era a vontade de Valéria El Mohtar e a mãe acabou por se render à sua paixão e talento. «Apoiou-me em tudo, no investimento que precisei de fazer em batedeiras, formas, utensílios. Com 16 anos já tinha uma página de Instagram, fazia bolos, e aos 17 dei um workshop para crianças», recorda.
Primeira morada em Portugal foi Mira de Aire
Saiu da Venezuela «devido à situação económica e política do país», onde a falta de segurança imperava, mas o seu primeiro destino não foi Portugal. «Tinha uma irmã no Qatar, que me apoiou a ir, e fui lá experimentar. Eu já tinha terminado os meus cursos [de Cozinha e Pastelaria e Padaria] e fui», conta. No Qatar encontrou um «país de excelência»: «É incrível, onde a qualidade e a excelência é “topo de gama”. Não fazem nada por fazer, são muito exigentes em tudo», diz. Por lá, trabalhou na Cartier – uma marca de joalharia, relojoaria e acessórios de luxo – algo «nada a ver» com o seu sonho da confeitaria, mas que gostou muito. «Adorei, era uma menina de 18 anos a fazer transações de 20, 50 e 100 mil euros. Era uma responsabilidade muito grande, mas aquela responsabilidade que me pediam fez-me ganhar maturidade para saber lidar com clientes que acho que hoje é um dos pontos positivos do meu ateliê, a atenção ao cliente».
Apesar de ter «um ordenado muito alto, uma vida estável», havia «qualquer coisa» que não deixava Valéria 100% realizada. Dois dos aspetos, identifica, era a diferença cultural do país, um país «muçulmano, muito fechado», a contrastar com o povo «venezuelano muito carinhoso», e o clima «de muito calor». Mas havia algo mais forte do que isso: o facto de saber que o seu sonho de abrir um ateliê nunca iria acontecer nos moldes que desejava no Qatar. «Uma pessoa que não é natural de lá, tem que ter um sócio local para abrir um espaço. O sócio não precisa de fazer nada, é só dar o nome, o que é muito injusto, porque iria ter uma percentagem sem fazer nada. Acaba até por se tornar menos rentável e apesar de ter sido sempre bem tratada lá, eu já sabia que no futuro não ia ter grandes oportunidades por conta própria por ser de fora», contextualiza.
Ainda assim, no tempo que lá esteve, nunca parou de fazer bolos. «Fazia-os depois do meu horário de trabalho, não por necessidade, mas para não perder a prática, por ser a minha paixão. Comecei a ter contactos com influencers do Qatar, o que provocou um boom incrível nas redes sociais. Foi assim que fui mantendo o meu bichinho do empreendedorismo», lembra. O mesmo empenho manteve em Portugal quando decidiu que esta seria a sua próxima “casa”, em agosto de 2019. «Portugal porquê? Porque a minha mãe tinha cá um casal amigo que, na altura, morava em Mira de Aire e que me disse para vir experimentar e que me recebia». E assim fez. «Gostei muito de Portugal, aliás, não gostei, adorei. Sempre fui bem acolhida e em todos os trabalhos que tive nunca senti diferença por vir de outro país. Mas quando vim para cá, vim com a mentalidade de me adaptar, por exemplo, aprender a língua. Há pessoas que saem dos países, mas os países não saem delas, eu acho que quando emigramos não pode ser assim, temos que nos adaptar à cultura onde estamos. Eu gosto de Portugal, da comida, das pessoas e gosto muito de Fátima pela tranquilidade [onde além de ter o ateliê, também vive atualmente]», salienta. Mira de Aire, a primeira casa durante dois anos, foi também especial. «Fui muito bem acolhida lá, ainda falo com os meus vizinhos dessa altura, e hoje encomendam-me bolos. São clientes que me viram crescer desde o dia 1, até ter o ateliê», diz, visivelmente orgulhosa.
Um ateliê com foco no “artesanal”
O ateliê Valéria Mohtar – Cake Designer tem um «conceito diferente de uma pastelaria». «Eu não trabalho com a porta aberta ao público, não é uma pastelaria que vende fatias todos os dias. Costumo trabalhar de terça a domingo – com algumas modificações conforme a demanda e a época – das 9 às 17 horas, mas lá está, tenho alguma flexibilidade conforme o trabalho», começa por explicar. «Faço bolos e sobremesas por encomenda, através das minhas redes sociais e contactos. Bolos de aniversário, casamentos, batizados e épocas festivas, como o Natal, Dia de Reis, Dia dos Namorados, Páscoa, etc…», reforça. A atualização dos sabores, tanto das massas, como dos recheios, bem como a inovação nas sobremesas, salienta, «é constante». Trabalhar com bolos às fatias, diariamente, não faz parte dos planos. Porquê? «Quando somos obrigados a ter uma montra, os bolos têm de ser despachados no próprio dia, máximo no dia seguinte, e temos de optar por conservantes e preparados. Eu não quero fazer isso, não quero aqui uma multidão e oferecer um conceito copiado. Quero sempre entregar excelência nos produtos que faço, de forma artesanal, como se fosse para a minha casa e para a família, sem aditivos», garante.
Essa parte criativa é uma das que mais a apaixona, e também «muito necessária para marcar pela diferença». «Temos sempre muitos sabores novos, o ano passado aproveitámos um produto que viralizou no Brasil, o morango do amor, que trouxemos para cá e foi top de vendas. Fizemos um ovo na Páscoa de chocolate do Dubai, é importante ir atrás das tendências», diz, acrescentando que é preciso também criar «coisas completamente novas». Por exemplo, agora no inverno, temos a nossa «massa de laranja, amêndoas e mel, com recheio de mascarpone e pera bêbada caramelizada com vinho do porto», um sabor que resulta nesta época do ano, com mais frio. Aproveita para se inspirar «nas viagens» que faz. «A minha primeira paragem em qualquer lugar é nas pastelarias e em cada viagem que faço compro um livro de receitas», diz.
Como vantagem tem ainda o facto de ter inspirações diversas: os pais são libaneses, ela é venezuelana (nascida e criada) e já esteve emigrada em dois países. Isto permite, muitas vezes, «criar sobremesas com fusões entre vários países», nascendo uma oferta completamente diferente e juntando a tradição com algo menos convencional. «Posso dizer que aqui, num raio de 30 quilómetros, ninguém tem os sabores que eu tenho, que criei através das minhas inspirações e é isso que nos pode distinguir», sublinha a cake designer.
A “peregrinação” até ao ateliê
Quando arranjou o seu primeiro trabalho em Fátima, duas semanas depois de estar em Portugal, Valéria El Mohtar ainda não sabia que, anos mais tarde, numa entrevista ao nosso jornal, ia fazer jus ao nome do Santuário, apelidando os seus anos de luta até conseguir criar o ateliê como uma “peregrinação”. A fé foi algo que viu nascer em si com mais força – e estava no lugar certo para a evocar – desde que se tornou emigrante e teve de batalhar pelo seu sonho. E apesar de sempre se ter considerado uma pessoa «sensível», emigrar e passar por estas transformações, tornou-a, diz, «mais parcial». «Eu sabia que estava aqui para trabalhar, não havia tempo para chorar, porque havia um objetivo. Também mais tarde a minha mãe veio para cá, esteve cá dois ou três anos, e já não me sentia sozinha. Claro que tinha saudades dos meus sobrinhos, irmãs, do meu país». Começou por trabalhar nas limpezas, «uma grande alteração face ao que fazia no Qatar», mas passou ainda por fábricas, restaurantes, e vários hotéis (em diferentes funções).
O primeiro apartamento que alugou «não tinha forno» e, por isso, para começar a dar a conhecer o seu talento, começou por fazer «sobremesas frias». «Foi com o subsídio de Natal da fábrica onde trabalhava, em 2020, que comprei o meu primeiro forno [e não só]. Comecei logo a trabalhar nesse Natal e correu muito bem», diz.
Para conseguir dar resposta à procura que começou a ter, começou a conjugar o seu emprego de oito horas, com mais «oito ou nove horas a fazer bolos», muitas vezes sem feriados ou grandes folgas. Além do forno, teve de comprar «utensílios, batedeiras, formas, balança, tudo, um investimento de quase mil euros», mas os frutos deste investimento começaram a surgir. O último emprego que teve foi num hotel: «Gostava muito do trabalho, dos colegas e patrões, mas já se estava a tornar impossível fazer tantas horas de trabalho e quando percebi que conseguia duplicar o ordenado do hotel nos bolos, senti que era altura de apostar». Esta transição demorou dois anos, durante a qual resolveu voltar a estudar, para que os cursos que tirou na Venezuela tivessem equivalência em Portugal e poder apostar num espaço seu com tudo validado e legalizado.
Em dezembro de 2023 foi quando comunicou ao hotel onde trabalhava, coincidindo com o fim de época hoteleira e com o fecho do espaço, que não voltaria. «Comecei por trabalhar de casa, a criar uma carteira sólida de clientes, já tinha uma estabilidade económica para a qual tinha trabalhado. As pessoas perguntavam-me: “mas só fazes bolos?” Eu trabalhava de manhã à noite», lembra, entre risos, salientando que muitas pessoas «não têm noção do trabalho que dá». Em 2024 começou a sua procura por uma loja que preenchesse as medidas para o seu ateliê, um desafio grande. «Estive quase um ano à procura, desde janeiro a setembro, foi muito frustrante. Era tudo muito elevado, por estarmos em Fátima. Queria um sítio calminho, no centro mas um bocadinho escondido da multidão, que tivesse parque e uma cozinha feita para não precisar de um grande investimento, era muito difícil arranjar», recorda. Valéria chegou a um momento que disse: «Seja o que Deus quiser, não me vou chatear mais, vou largar esta ideia e ficar em casa». A sua fé, que recuperou nos últimos anos, viria a dar-lhe uma resposta pouco tempo depois. «No final de uma conferência que dei num hotel, onde tinha trabalhado, o meu ex-patrão perguntou-me como estava a correr o negócio e eu disse que estava “bem, mas podia estar melhor” e expliquei a situação da loja, literalmente em 10 minutos arranjámos uma loja, isto em novembro», conta. Encontrou um espaço a precisar de «decoração» e «pequenas obras», mas perfeito para o que idealizou. Hoje é um ateliê à sua imagem, recompensando anos de empenho.
Formação é outra das valências do ateliê
Além de abrir portas nos open day, o ateliê abre também portas para formações. «Tenho dinamizado três workshops por mês com a duração de oito ou nove horas. Os participantes podem ter ou não experiência, podem simplesmente ter interesse por confeitaria», explica Valéria. Os workshops de temas variados (que podem ser encontrados na página de Instagram valeriamohtar.cakedesigner) contemplam não só os ensinamentos dados, como todo o material necessário para o efeito: «Basta trazer vontade e energia. No final os participantes levam tudo o que fizerem para casa». Estas formações começaram em agosto e têm «corrido muito bem, com muita adesão» com alunas «de norte a sul do país». Partilhar este conhecimento, e ver alunas a criar o seu próprio negócio e a crescer tem «sido um orgulho» para a profissional.
Este contacto próximo com as alunas fez com que identificasse «uma necessidade», partilhada por grande parte, de aprender mais sobre marketing para potenciar as suas marcas. Para responder a isto, Valéria El Mohtar fez uma formação de Marketing Digital e Inteligência Artificial. «Elas tinham na prática uma boa experiência na confeção dos bolos, mas não sabiam transmitir e vender e, por isso, estudei mais, para transmitir isso, lançando recentemente a página DigiVal», explica. As suas formações vão, hoje em dia, muito além de aprender a «fazer massas e recheios», são também sobre «como vender, que preços colocar, como apresentar os produtos ao cliente, como falar com o cliente, etc…».
“Open day” para responder à procura… (os próximos já nos dias 7 e 8 de fevereiro)
Em agosto do ano passado, Valéria começou a ter procura pelos bolos à fatia, mas não querendo ir contra o conceito do ateliê, encontrou uma solução para esta procura. «Comecei a ter o open day. É um fim de semana que escolho durante o mês para estar aberta ao público e onde tenho fatias de vários bolos e sobremesas. O primeiro foi em outubro e correu muito bem, o segundo foi em dezembro e muitas pessoas vieram experimentar e deixaram as encomendas para o Natal, foi muito bom», explica.
Os próximos open days vão ser nos dias 7 e 8 de fevereiro, coincidindo com a celebração do primeiro aniversário do espaço. «Fizemos anos a 12, mas por questões de logística e pelas obras que vamos fazer este mês no ateliê, vamos celebrar o aniversário no dia 7, com bolo, espumante e animação musical», revela.
Este bolo, com massa de pistacho, recheio de brigadeiro de chocolate branco e compota de framboesas é o “best-seller” até ao momento. «Fez muito sucesso nas redes sociais e continuamos a receber muitas encomendas através da partilha da fotografia», diz Valéria El Mohtar.
Foto | Jéssica Moás de Sá





