«Hoje é um dia grande para Porto de Mós porque é um dia de todos, num edifício concebido para todos». As palavras proferidas pelo presidente da Câmara, Jorge Vala, no passado dia 25 de junho, eram reveladoras da importância do momento que estava prestes a acontecer. Quase seis anos depois da obra ter começado, foi finalmente inaugurada a requalificação da antiga Central Termoelétrica, para muitos considerada uma das obras mais importantes no concelho. Foi ali que, na década de 30, se produziu eletricidade, a partir de carvão proveniente das minas da Bezerra, distribuída depois pelo concelho. «Aqui se fez luz para o modesto hospital da vila de Porto de Mós. Aqui se deu um novo impulso à industrialização da região. Aqui se sonhou e se empreendeu a tarefa hercúlea para a época de construir a contemporaneidade», recordou Jorge Vala. Agora, no preciso local onde em tempos funcionou a Central Termoelétrica, ergueu-se a Central das Artes, um local dedicado à Cultura que se espera vir a ser «multifuncional, dinâmico e intemporal». «Queremos que seja um espaço vivo, útil e, sobretudo, fruído», afirmou. «Na Central das Artes cabem todos e todos contam porque a Cultura não tem barreiras, não tem fronteiras, mas também não tem cor política nem religião», frisou.

A obra contou com um investimento de cerca de 3,2 milhões de euros, financiada em 2,3 milhões por fundos comunitários. «Chegar aqui foi tornado possível pelo esforço partilhado, pela vontade transversal de vários autarcas, impulsionada pelo desejo de toda uma população comprometida com a sua memória», disse o autarca, visivelmente satisfeito.

“Uma obra carregada de simbolismo”

Corria o ano de 2016 quando foi lançada a primeira pedra da obra. Na altura, o executivo da Câmara era liderado por João Salgueiro. Um facto que o atual presidente da Câmara não esqueceu, prova disso foi o convite lançado para que estivessem presentes na cerimónia os vereadores do anterior executivo: «Projetaram a reabilitação deste edifício e lançaram a obra. Este é também um momento que pertence àqueles que o fizeram». Aliás, a «estabilidade» e a capacidade de se manterem e realizarem projetos municipais, independentemente de quem esteja na autarquia, foi um facto merecedor de elogios por parte da ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, que presidiu à sessão: «Esta é uma obra carregada de simbolismo. É muito bom quando os projetos estratégicos têm continuidade e não é por termos mudado de presidente que não se dá continuidade». De uma central termoelétrica passou-se para uma casa de cultura e esta mudança é, no entender da ministra, um exemplo daquilo que deve ser ser feito noutros territórios. Ana Abrunhosa relevou ainda o papel da Cultura nos dias de hoje que à semelhança da Saúde e da Educação acredita ser «um bem essencial». «É das áreas mais importantes para a coesão social e territorial», defendeu.

“Fez-se história”

Ao descerramento da placa, seguiu-se a cerimónia de entrega dos Prémios Dom Fuas, onde diversas personalidades não quiseram deixar de realçar a importância da inauguração que acabava de ser feita. A presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), Isabel Damasceno, disse ser uma «enorme satisfação» estar presente nesse espaço, sobretudo por ter acompanhado o «nascimento» de um projeto que, garante, sofreu «enormes vicissitudes»: «Tudo o que havia para acontecer de menos bom, aconteceu. A determinada altura ficámos todos com um certo receio de que isto não tivesse fim», confessou, dizendo que foi acompanhando o projeto à distância mas sempre «com o coração nas mãos». «Chegar aqui e vê-lo pronto, com esta qualidade estética, é uma grande alegria», admite. Isabel Damasceno deseja agora que a Central das Artes seja «um espaço cultural de referência ao nível da região».

Por sua vez, o presidente do COMPETE 2020, Nuno Mangas, parabenizou o executivo municipal pela capacidade em concretizar aquele que considera ser «um projeto diferenciador, claramente de futuro». «Fez-se história no século passado, quando se construiu uma central termoelétrica e faz-se hoje, quando se está a criar um espaço vivo ao serviço do concelho e desta região», reconheceu.

Na Central das Artes estão neste momento quatro mostras: Step By Stone, de Luís Amado; Sopro Imergente, de Marta de Castro, Trajes de Marchas Populares – Gerações de criatividade e Carvões, Comboios e Carros – Memórias de um tempo de aspirações. Desta última faz parte o IPA, o primeiro automóvel totalmente português, criado em Porto de Mós e cuja produção em série foi proibida pelo regime de Salazar. «Imaginem se tivéssemos apoiado e investido nisso, talvez hoje eu tivesse vindo num IPA elétrico», brincou a ministra.

Vários anos com a ideia errada?

Na última sessão da Assembleia Municipal (AM), realizada um dia antes da inauguração da Central das Artes, depois de o presidente da Câmara, Jorge Vala, recusar uma sugestão de um presidente de Junta para instalar naquele espaço a Biblioteca Municipal, dizendo que não poderia integrar aquele espaço, tal como o museu ou o arquivo, o deputado Júlio Vieira (PSD) interveio, dizendo-se «estupefacto» com tal afirmação. «A Central das Artes foi alvo de muitas discussões na AM nos últimos 10 anos», começou por referir, acrescentando que aquando da sua candidatura à Câmara, em 2009, «a proposta do PSD era transformar aquele edifício num museu da eletricidade, do ciclo do carvão e construir, na parte inferior, um auditório que permitisse realizar grandes eventos e congressos com alguma dimensão», recordou. «Depois, o executivo do PS, liderado por João Salgueiro e Albino Januário, trouxe a esta AM e defendeu várias vezes a criação, naquele edifício, do arquivo municipal e do museu. Isto foi dito aqui até à exaustão», sublinhou. De acordo com Júlio Vieira, as principais críticas da oposição PSD eram de que «como é que um edifício com aquela potencialidade e património histórico, iria ser ocupado, em 50% ou mais para arquivo» e que o espaço para o museu «era muito pequeno, mas pelo menos havia museu». «Agora, de repente, o museu vai ficar onde está, que não é museu nenhum, é uma amostra com as condições que todos conhecemos, que não oferecem o mínimo de dignidade», frisou o deputado. A terminar a sua intervenção, Júlio Vieira pede que se esclareça porque é que, afinal, não vai acontecer aquilo que «foi dito N vezes e durante vários anos».

O presidente da Câmara recordou que «este projeto tem uma candidatura aprovada desde 2016 ou início de 2017» e avançou que «essa candidatura tem pressupostos associados que não são passíveis de alteração em nenhuma circunstância», adiantando ainda que tentou fazê-lo. Jorge Vala revelou que a Central das Artes «não pode ser museu, nunca pôde, e na candidatura a palavra museu nem aparece, porque se aparecesse a candidatura chumbava», uma vez que estes fundos comunitários em particular não servem para esse fim. «Recebemos um prémio de cerca de 740 mil euros e temos a ambição de receber mais algum, só que [para isso] a condição é não alterar. [A condição] É ter um auditório, naquele edifício imenso, que leva 60 pessoas; é ter um espaço expositivo que não dá para museu; e é ter uma imensidão de salas preparadas para um arquivo que não vamos lá colocar», explicou. O autarca adiantou ainda que estão a decorrer conversações com a Fundação EDP para «trazer para cá o ciclo do carvão associado à eletricidade» e que o Município está a «tentar recuperar algumas das memórias que existem no concelho», com a intenção de «transformar este edifício num espaço dinâmico, num espaço do território, de dentro para fora», concluiu.

Fotos | Isidro Bento e Jéssica Silva 
Com Catarina Correia Martins