O médico portomosense, David Ângelo, continua a destacar-se no estudo da disfunção da articulação temporomandibular, uma patologia que afeta cerca de 30% da população portuguesa e que é a causa mais comum de dor orofacial de origem não dentária.

Depois de vários prémios nacionais e internacionais pelo trabalho de investigação realizado nessa área, o estomatologista, natural de Porto de Mós, foi agora contemplado com um financiamento da Sociedade Europeia de Cirurgiões da Articulação Temporomandibular para criar «uma base de dados que torne uniforme, sistemática e simples a forma como os clínicos da Europa registam a informação relevante dos seus doentes. O objetivo final desta base de dados é criar algoritmos que permitam “prever” o sucesso de determinadas técnicas cirúrgicas».

«Desenhei este projeto e candidatei-me ao financiamento porque queria obter informação rigorosa de doentes operados à articulação temporomandibular na Europa mas a informação que existe está muito desorganizada, é de difícil acesso, com registos muito heterogéneos, e assim não é possível tirar conclusões válidas», diz David Ângelo. É, então, para uniformizar, sistematizar e simplificar a forma de registar a informação clínica relevante que nasce a EuroTMJ, a base de dados europeia idealizada pelo jovem portomosense e que deve estar pronta muito em breve.

Os milhares de “filmes” clínicos a reunir, permitirão, numa primeira fase, a análise quantitativa das diferentes intervenções cirúrgicas à articulação temporomandibular. Depois, e com recurso a determinados algoritmos, o objetivo é que os dados recolhidos permitam perceber, para cada patologia específica, quais as técnicas que registam maior taxa de sucesso. «Pequenos detalhes podem fazer uma enorme diferença na evolução e recuperação dos doentes, por isso é crucial que a informação introduzida seja precisa e exata, só isso nos permitirá ter o “filme” rigoroso de cada doente, desde a primeira observação na consulta médica até ao acompanhamento ao longo de décadas após a intervenção», sublinha o clínico.

O software para a base de dados foi criado pela mesma equipa que desenvolveu o reuma.pt, o Registo Nacional de Doentes Reumáticos, lançado em 2012 pela Sociedade Portuguesa de Reumatologia e que se tem revelado um instrumento de trabalho de enorme utilidade para os reumatologistas portugueses.

David Ângelo acredita que o modelo criado terá idêntico sucesso tanto a nível nacional como europeu, podendo, inclusive, ser replicado noutras especialidades médicas. No entanto, para que isso aconteça terá de «manter o rigor dos registos ao mais alto nível», já que «só isso permitirá que a informação recolhida possa gerar novo conhecimento e proporcionar aos doentes tratamentos seguros e com resultados de excelência», sublinha.

O que é a disfunção da articulação temporomandibular

A disfunção da articulação temporomandibular é uma patologia incapacitante dos músculos da mastigação e/ou da articulação temporomandibular (área onde a mandíbula se articula com o osso do crânio), mais comum em mulheres entre os 20 e os 50 anos de idade. Além de dores intensas no maxilar e na face, a disfunção pode comprometer a mastigação dos alimentos, bloquear a articulação e/ou limitar a abertura da boca em alguns doentes, de forma severa.

Quem é David Ângelo?

David Ângelo, 35 anos, é licenciado em Medicina, pela Faculdade de Ciências de Saúde, da Universidade da Beira Interior. Fez o internato em Estomatologia, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, tendo obtido a melhor nota a nível nacional (19,6). Depois de ter estado sete meses no Hospital Universitário Infanta Cristina, em Badajoz (Espanha) , ingressou no Hospital de Setúbal como assistente hospitalar no serviço de Estomatologia. Em 2018 doutorou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, com uma tese sobre a disfunção na articulação temporomandibular, que teve a aprovação unânime do júri, com distinção e louvor. Atualmente é Professor Auxiliar Convidado nesta Faculdade e diretor clínico do Instituto Português da Face.