Pode uma carreira de sucesso ter o empurrão decisivo com uma derrota? Pode, e o percurso desportivo de David Grachat, nadador paralímpico com raízes familiares em Porto de Mós, é a prova disso mesmo. Em 2004 conseguiu os mínimos de acesso aos Jogos Paralímpicos de Atenas (o equivalente aos Jogos Olímpicos mas para portadores de deficiência), contudo fê-lo já passavam duas semanas do prazo. Na altura, disseram-lhe que mesmo assim iria conseguir cumprir o seu sonho de estar na competição maior do desporto adaptado. Afinal, a realidade mostrou-se bem diferente. Saiu a convocatória, mas o seu nome não apareceu na lista. Foi um choque brutal para um jovem quase em início de carreira e que muito trabalhara para atingir aquele objetivo. Sofreu e chorou imenso ao ver, pela televisão, os colegas no lugar onde tanto queria estar mas aquilo que começara como uma grande vitória e num instante se tornara numa amarga derrota, foi também uma autêntica lição de vida, como reconhece à conversa com O Portomosense. «A partir dali percebi que não podia dar nada como garantido. Tinha que treinar mais, dar mais de mim e lutar sempre para não voltar a ficar à porta de uma grande competição», sublinha o nadador.

Quatro anos depois, com a lição já bem aprendida, conseguiu o almejado lugar nos Jogos de Pequim, feito que repetiria por mais três vezes – em Londres, no Rio de Janeiro e em Tóquio – o que fez dele um dos nadadores nacionais com mais presenças nos Jogos. Pelo meio, David Grachat conquistou a sua primeira medalha internacional em 2009. Foi prata nos Europeus e de lá trouxe, ainda, o bronze. Voltaria ao pódio dos Europeus em 2014 e 2016 para ocupar o segundo lugar. Em 2015 sagrou-se vice-campeão mundial de natação adaptada e em 2017, obteve no Campeonato do Mundo, uma medalha de bronze.

Olhando para um percurso ao longo do qual se sagrou tantas vezes campeão nacional que já nem sabe «quantas foram» e em que competiu com os melhores da Europa e do mundo, David Grachat não tem dúvidas de que «o balanço é extremamente positivo». Destaca uma carreira «bastante bonita, com alguns altos e baixos como todas as outras, mas construída com muito trabalho e quase sempre em crescendo».

A despedida das pistas de natação foi planeada para os Jogos do Rio, em 2016, onde o jovem chegou «num pico de forma tremendo». O desejo era sair em grande e, se possível, com a conquista da sua «primeira medalha paralímpica», contudo «um erro básico», como o próprio assume, atirou-o para o oitavo lugar da final. Decidiu, então, adiar a saída por quatro anos mas, mais uma vez, as coisas não correram como esperava e em 2021, em plena pandemia e nos Jogos mais atípicos em que participou, não conseguiu o lugar na final com que pensara retirar-se da alta competição. Ficou triste, claro, mas novamente, valores mais altos se “alevantaram”: havia uma filha recém-nascida para cuidar e acompanhar e era chegado o momento de dar uso à licenciatura em Educação Física e passar para o outro lado, ou seja, assumir funções como professor e treinador de crianças e jovens também eles portadores de deficiência.

Visivelmente satisfeito, David Grachat sublinha que há um tempo para tudo e agora, aos 35 anos, é tempo de se dedicar à família e à formação dos mais novos. Não esquece o muito que viveu como nadador de elite e são os conhecimentos aprendidos nos momentos que conduziram às vitórias mas também, muito, na sequência das incontornáveis derrotas, que quer transmitir aos seus jovens pupilos.

Ao longo de cerca de 20 anos, David Grachat foi alvo de várias homenagens públicas, nomeadamente em Loures, o concelho que o viu nascer. Momentos que guarda no coração «com especial carinho» e aos quais junta os dois ou três que, sem nunca o esperar, viveu em Porto de Mós, a terra natal de seu pai e onde ainda tem vários familiares.

David Grachat confessa que «foi com grande surpresa» que recebeu o convite da Câmara Municipal de Porto de Mós «para participar na cerimónia, onde todos os anos são homenageados os atletas do concelho que mais se destacam em cada época desportiva». «Fiquei extremamente feliz e sensibilizado. É sempre bom reconhecerem o nosso valor e, neste caso, teve um significado especial por me tornarem como que filho adotivo da terra onde nasceu o meu pai. Foi também um prazer enorme reencontrar-me com o meu grande amigo, David Carreira, que esteve comigo nos Jogos do Rio, grande campeão também na vida e do qual Porto de Mós se deve orgulhar», conclui Grachat, com o sorriso sereno que todos bem lhe conhecem.