Catarina Correia Martins

Depois da tempestade… outra tempestade

8 Mar 2022

Foi há mais ou menos dois anos que fiz a minha última viagem. Já pairava sobre as nossas cabeças a “nuvem” COVID-19, mas estávamos longe de imaginar o que viria a seguir. Há dois anos, o primeiro jornal de março trazia na capa a folia do carnaval, sem imaginarmos que as multidões viriam a assustar-nos e sem sabermos que dois jornais depois estaríamos a trabalhar integralmente a partir de casa. Os últimos dois anos da nossa vida aconteceram mesmo?

Em março de 2020, a nossa perspetiva sobre o mundo, sobre a vida, sobre as pessoas e sobre as nossas rotinas mudou. Fechámo-nos em casa com medo de um “bicho” que se transmite através do ar, que afeta, que destrói, que mata. No início, gritávamos “aos sete ventos” que ia ficar tudo bem, enquanto desenhávamos arco-íris e batíamos palmas aos profissionais de saúde nas janelas das nossas casas. Não sei se, naquela fase, acreditávamos de facto que ia ficar tudo bem, talvez fosse um daqueles mantras que repetimos para que se torne verdade e, neste caso, para que o medo falasse mais baixinho.

Hoje, sabemos que não ficou tudo bem. Não ficou tudo bem para ninguém, mas sobretudo para quem foi infetado e ficou com sequelas, para quem perdeu familiares e amigos, para quem viu desmoronar os seus negócios e, com eles, o trabalho de uma vida e o sustento da família. Hoje ainda não está tudo bem e não sabemos se algum dia vai estar. E isto não é uma visão pessimista, é apenas a constatação de que a vida, tal como a conhecíamos, dificilmente voltará.

Agora que começávamos a ver alguns rasgos de normalidade, uma forma nova de ser normal, é claro, mas um tempo em que vislumbrávamos novamente a possibilidade de viver as nossas vidas, com as restrições gradualmente a deixarem de existir, “começa a guerra”. Assim mesmo, desta forma crua, os vários órgãos de comunicação social nacional noticiaram, no dia 24, os ataques da Rússia à Ucrânia. Por muitos comentários e notícias que possamos ler, ver e ouvir, acho que nenhum de nós pode ter a real noção do que isto significa, porque é longe, mas, em breve, pode tornar-se perto, não necessariamente a guerra (ainda que possa acontecer), mas as suas consequências.

Além de tudo o que vai mexer na economia, a crise humanitária será inevitável. Desde estrangeiros a morar na Ucrânia, que tentam, por tudo, regressar aos seus países ou, simplesmente, sair do país que os acolheu e que agora está a ser atacado, até refugiados ucranianos que vão procurar segurança além fronteiras e, em resposta à crise económica, as carências por que as famílias de vários países vão passar e que podem também colocá-las em situações vulneráveis em termos sociais, de saúde e humanos.

Que a pandemia nos tenha preparado para isto. Que a solidariedade que em tempos vivenciámos, com movimentos como a Caixa Solidária, se reflita agora no acolhimento destes que veem a sua pátria em guerra. Em Portugal, são muitos os imigrantes ucranianos, há vários anos, tendo na sua maioria deixado família no país de origem. Se for sua vontade trazê-los e caso tenham essa possibilidade, saibamos olhá-los como o que são: pessoas que deixaram tudo, para sobreviver a uma guerra que não é sua. Não apontemos dedos, não levantemos o nariz, nem viremos a cara. Hoje os problemas estão na porta ao lado, mas não sabemos quando baterão na nossa.

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